O neoliberalismo na berlinda

Carta Capital de 18 de abril de 2012

Islândia – A mídia silencia sobre o país que humilha o sistema financeiro

O ex-primeiro-ministro Geir Haarde está sendo julgado em Reijkjavik por ter conduzido o país à catástrofe de 2008 e pode ser condenado a até dois anos de prisão. A virada neoliberal da Islândia, com desregulamentação financeira e privatizações em massa, começou no governo de David Oddson, em 1991. Haarde não é o único culpado, embora tenha sido parte importante do processo desde bem antes do início do seu governo, em 2006, primeiro como líder parlamentar do Partido da Independência (conservador, então no governo) de 1991 a 1998 e ministro da Fazenda de Oddson de 1998 a 2005. É uma oportunidade para o país refletir sobre a transformação de estável social-democracia escandinava em centro financeiro desregulamentado cuja precariedade se viu quando a crise hipotecária dos EUA fez falir seus maiores bancos, com passivos externos mais de 20 vezes maiores que o PIB. Leia também: Ditadura: Promotor italiano vai propor ação contra militares brasileiros The Observer: O fracasso da guerra às drogas A CPI de Cachoeira e a retórica do ‘mensalão’ A ducha gelada da crise despertou os -islandeses do sonho consumista e os lançou às ruas com uma versão nórdica do “que se vayan todos!” A renúncia de Haarde e a eleição de um governo de centro-esquerda não bastaram para satisfazê-los: rejeitaram por duas vezes, em plebiscito, propostas de pagamento parcial da dívida externa deixada pelos bancos falidos. O fato de que, depois disso, o país esteja se recuperando muito melhor que os europeus oprimidos pela “austeridade” é a explicação para o silêncio quase absoluto da mídia internacional sobre esse país e seu julgamento do neoliberalismo.

“Tínhamos Chico Anysio, temos o Big Brother. Tínhamos Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Erico Verissimo, Jorge Amado, temos Paulo Coelho” – Mino Carta

“Os pensadores agora atendem pelo sobrenome de Magnoli ou Mainardi, e já foram Gilberto Freire, Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Hollanda. Ao sair do curso noturno da Faculdade do Largo de São Francisco comprava a Última Hora e no bonde, de volta para casa, lia Nelson Rodrigues, com sua A Vida como Ela É, como anos após leria Stanislaw Ponte Preta a falar do Febeapá, o festival de besteiras que assola o país.”

Mino Carta, no editorial da Carta Capital de 04 de abril de 2012

“A culpa é do Lula”

Na Carta Capital de 28 de março de 2012

Wanderley Guilherme dos Santos

As políticas são de Bem-Estar Social, mas o Estado não está aparelhado para tanto

DEPOIS DE LER uma, duas, três vezes, recente manifesto assinado por intelectuais e acadêmicos ilustres como, entre outros, os professores Eduardo Viveiros de Castro, do Rio, e Marilena Chaui, de São Paulo, o professor Wanderley Guilherme dos Santos foi tomado de grande inquietação diante do manifesto que considera mais uma reflexão ampla sobre problemas da cultura e do Brasil.

Presidente da Fundação da Casa de Rui Barbosa, órgão ligado ao Ministério da Cultura, Wanderley Guilherme, um dos mais respeitados e admirados intelectuais do País, transformou aquele desassossego em reflexão com resultados que, em parte, estão nesta entrevista a CartaCapital. Ele mostra que as inversões de objetivo do governo Lula, mantidas no governo Dilma, resultaram em um contraste: “As políticas são de bem estar Social, o Estado ainda não”.

CartaCapital: Por que o contraste entre a aprovação do governo Dilma e a reprovação de grande parte do primeiro escalão do governo?

Wanderley Guilherme: É um problema interessante esse crescente prestígio da presidenta e a condenação universal dos ministros. Além dos que foram demitidos mais do que justificadamente, a população está insatisfeita em relação a todos os ministérios. Acha que o da Saúde não funciona, o dos Transportes idem, e por aí vai. Até certo ponto, está certa. A partir do governo Lula, houve uma revolução nas prioridades do governo e as instituições do Estado não foram criadas para isso. As políticas sociais, aquelas dirigidas diretamente às populações pobres nunca existiram nem, consequentemente, as estruturas organizacionais para executá-las e avaliar resultados.

CC: As administrações eram dirigidas, digamos, a uma população de 30 milhões.

WG: O sentido é esse, mas o Estado só cortejava mesmo uns 2 milhões. Não há problema gigantesco nos canais para administrar subsídios industriais, por exemplo, mas não havia registro do número ou distribuição regional de pobres e miseráveis do País, dificultando a implantação do programa Bolsa Família, problemas equivalentes em relação ao Luz Para Todos, enquanto o programa de remédios gratuitos enfrenta problemas de distribuição e de combate à apropriação indébita e ao comércio no câmbio negro. O Estado brasileiro ainda não é um Estado de Bem-Estar Social.

CC: As políticas são de Bem-Estar e o Estado, não.

WG: A presidenta Dilma vai ao Nordeste e, além dos problemas de ineficiência na implementação de políticas sociais, verifica também que a Transnordestina não anda como devia, a transposição das águas do São Francisco, idem. O Estado não está aparelhado para dar suporte às políticas de progresso praticamente em nenhuma área. O Programa Minha Casa Minha Vida sofre com problemas de execução. E o que acontece, então? Há reclamações perfeitamente justificáveis e a imprensa, ágil, é importante para identificar onde as coisas não estão funcionando direito. Não é possível ao governante confiar somente nos relatos da burocracia, que, às vezes, se opõem às políticas que devia realizar com eficiência.

CC: Além do ritmo e da adaptação às vezes falta identidade?

WG: Isso. O Estado precisa adaptar-se ao novo tipo de política. Há decisões que, embora difíceis de tomar, são de execução automática. Quando a presidenta demite um ministro por ilicitudes, basta assinar o decreto, mas nenhum decreto faz a Transnordestina progredir ou os remédios atingirem a população-alvo sem canais e operadores azeitados. Existem problemas de gestão também, não há de ser complacente, mas o problema é estrutural. A velocidade de transformação introduzida desde o primeiro governo Lula. O País mudou e os portões do governo foram metafórica e literalmente abertos à população.

CC: O Brasil, neste momento, parece uma barafunda. Na saúde o SUS, bem concebido, não funciona na prática e a educação parece ter piorado.

WG: A educação, previsivelmente, tenderia a piorar após a abertura dos portões das escolas e universidades a milhões e milhões sem oportunidade até então. O Estado estava aparelhado para atender as novas gerações da classe média e alta. Não tenho queixa da universidade que frequentei, mas, no meu curso, só havia vagas para 15 pessoas.

CC: Esses tropeços administrativos no Ministério da Educação são sintomas disso?

WG: Esses problemas do ministério da Educação ocorrem também no da Cultura.

CC: As pessoas não atentam para esse problema estrutural?

WG: Não tenho uma resposta taxativa para isso, mas me parece que as questões essencialmente novas não estão presentes nas reflexões em curso. O recente manifesto, aliás, quase uma comunicação a congresso científico, assinado por intelectuais respeitados, como os professores Eduardo Viveiros de Castro, Marilena Chaui e Manuela Carneiro da Cunha, por exemplo, me surpreendeu pela quantidade de considerações acadêmicas fora da área de conhecimento específico deles. Destaco Eduardo, sofisticado pensador, de elevado rigor em seu trabalho profissional, e me pergunto como subscreveu um texto recheado de clichês sobre economia mundial, capitalismo globalizado etc.

CC: O que eles dizem sobre a cultura?

WG: A opinião manifestada sobre a cultura e sobre o Brasil me parece estereotipada. Mais discurso assembleísta, dirigido a todos os grupos possíveis e imagináveis, com estilo algo pomposo e reflexão pouco densa. Não se pode ser contra boas intenções, no abstrato, mas a questão é como administrar urgências reais fora das teses sobre acumulação financeira internacional e coisas assim.

CC: Que problemas apontam?

WG: A partir do governo Lula e agora no de Dilma, a quantidade de políticas de atendimento e incorporação da enorme diversidade cultural brasileira gera problemas de execução e avaliação. As iniciativas estão sempre adiante da capacidade de desempenho ótimo. No contexto de restrição fiscal em que o reaparelhamento do pessoal do Estado é contido, leva mais tempo até que as iniciativas sejam sedimentadas organizacionalmente.

CC: A culpa então é do Lula?

WG: Claro, o Lula é o responsável por essa bendita e criativa bagunça. Discordo dos diagnósticos daquele grupo de intelectuais, mas a agenda é genuína, boa para a discussão. Aproveito o estímulo e gostaria de convidar vários dos signatários para debatermos com outros colegas. A Fundação Casa de Rui Barbosa, em sua programação de debates abertos e pluralistas, formalizará os convites.

CC: Quais os pontos centrais da discordância?

WG: Além das discordâncias sobre questões mais amplas, assinalo que muitos se comportam como se as políticas culturais fossem de distribuição de renda. São, ao contrário, políticas de investimento do governo em áreas cujo retorno é esperado em elevação, preservação e criação de cultura. É necessário não esquecer de um grupo a ser atendido. Refiro-me aos que pagam tributos diretos e indiretos. São eles que financiam as políticas culturais. Investem em cultura e querem retorno cultural.

Ciro Gomes chama FHC de neoliberal em sua estreia na Carta Capital

Ciro Gomes:

Depois veio o governo Fernando Henrique. À absoluta falta de projeto e, capitaneando o exitosíssimo plano de estabilização econômica, que encerrou 25 anos de superinflação, FHC aderiu à exuberante ideia neoliberal. O mundo se prostara a ela. O gravíssimo buraco em nossas contas externas nos impunha uma submissão à hegemonia ideológica norte-americana enfeitada pelo charme de Bill Clinton. O apetite particular pela reeleição abatia a tradição progressista de FHC.

Veja a primeira coluna do novo colaborador da Carta Capital, clique aqui.

O desenvolvimentismo de direita – Luiz Gonzaga Belluzzo

Carta Capital de 21/03/2012

Em um de seus derradeiros artigos publicados na Folha de S.Paulo, Roberto Campos sentenciava que “os ‘desenvolvimentistas’ não entendem nada de desenvolvimento”. Nesse momento, corria solto, no governo FHC, o conflito entre desenvolvimentistas e a turma do deixa disso.

Entre tantos talentos, Campos passou a vida aperfeiçoando o de espicaçar tudo o que se assemelhasse à heterodoxia. Ex-seminarista e conhecedor de grego, sabia da importância da palavra doxa.

Essa inclinação ao mot d’esprit, sempre beirando o sarcasmo, parece vicejar com mais força entre os conservadores que, num momento de irreflexão, flertaram com o progressismo. Nesse mister, Campos chegou ao delírio, lançando boutades de grosso calibre contra todo tipo de socialismo, nacionalismo e outros partidarismos que considerava irracionais. Dizia, por exemplo, que, “no socialismo, as intenções são melhores que os resultados e, no capitalismo, os resultados são melhores que as intenções”. Achincalhou a “bazófia nacionaleira que substitui a organização pela emoção e confunde a energia intrínseca da onda com o farfalhar frívolo da escuma”.

Em matéria de (mau) humor, exagerou na dose quando apoiou o golpe militar de 1964 e, no livroDo Outro Lado da Cerca, de 1967, escreveu: “Sobre as eleições diretas no Brasil, o melhor que se pode dizer é que funcionaram bem enquanto não existiram”. Uma espécie de revanche do cinismo autoritário contra os exageros da sua razão democrática.

Ministro do governo Castelo Branco, foi protagonista, juntamente com Otávio Gouveia de Bulhões e Mário Henrique Simonsen, das reformas econômicas e financeiras que prepararam o “Milagre Brasileiro” do fim dos anos 1960 e começo dos 1970.

Como M. Jourdain, personagem de Molière no Burgeois GentilhommeCampos foi um desenvolvimentista sem saber. Isso é o que diz a sua biografia de homem de Estado, a despeito de suas preferências intelectuais e ideológicas. Entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o começo dos anos 1950, participou de todos os empreendimentos e reconstruções institucionais que alicerçaram o surto desenvolvimentista. Depois de concluir o mestrado em Economia na Universidade George Washington, integrou a delegação brasileira na Conferência de Bretton Woods, em 1944. Em 1950, participou da II Conferência da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), foi conselheiro da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos e teve papel preponderante na fundação do BNDE.

Ao assumir a direção do banco, ensejou a criação do grupo misto Cepal-BNDE, um valhacouto de desenvolvimentistas que espalharia (e continua espalhando) suas ideias malignas, por muito tempo, Brasil afora.

Campos, tal como outros que o sucederam na corrente conservadora, escrevia uma coisa e fazia outra. Sua vantagem é que a maré do capitalismo estava na enchente, enquanto os pósteros pegaram a vazante.

O “desenvolvimentismo”, enquanto projeto ideológico e prática política nos países da periferia, nasceu nos anos 30, no mesmo berço que produziu o keynesianismo nos países centrais. A onda desenvolvimentista e a experiência keynesiana tiveram o seu apogeu nas três décadas que sucederam o fim da Segunda Guerra Mundial. O ambiente político e social estava saturado da ideia de que era possível adotar estratégias nacionais e intencionais de crescimento, industrialização e avanço social.

Os resultados, ainda que desiguais, não foram ruins. Comparada a qualquer outro período do capitalismo, anterior ou posterior, a era desenvolvimentista e keynesiana apresentou desempenho muito superior em termos de taxas de crescimento do PIB, de criação de empregos, de aumentos dos salários reais e de ampliação dos direitos sociais e econômicos. A moda então entre os economistas, sociólogos e cientistas políticos, eram as teo-rias do desenvolvimento, os modelos de crescimento econômico e o estudo das técnicas de programação e de planejamento.

Não se trata, naturalmente, de reinventar nem de chorar o “desenvolvimentismo” perdido, de resto uma experiência histórica singular do capitalismo. Mas é possível concluir, ao menos, que os “desenvolvimentistas” entendiam bastante de desenvolvimento. Desconfio – sempre mergulhado na dúvida, mas apoiado nos acontecimentos recentes – que entendiam do assunto deles muito mais do que os assim chamados monetaristas imaginam saber dos mistérios da moeda.

Seja como for, o historiador Fernand Braudel, no primeiro volume de sua obra maior, Civilização Material, Economia e Capitalismo – Séculos XV a XVIII, analisando os ciclos econômicos de longa duração, não perdeu a oportunidade de incomodar o leitor com uma frase terrível: “O homem só é feliz em breves intervalos e só se dá conta disso quando já é muito tarde”.

*Este artigo foi publicado por ocasião da morte do ex-ministro Roberto Campos. Diante da controvérsia sobre o desenvolvimentismo de esquerda, decidi republicar o texto, como um exemplo cabal dos ardis da razão.

Aborto: claramente a favor – Vladimir Safatle

Carta Capital de 21 de março de 2012

Há algum tempo, a política brasileira tem sido periodicamente chantageada pela questão do aborto. Tal chantagem demonstra a força de certos grupos religiosos na determinação do ordenamento jurídico brasileiro, o que evidencia como a separação entre Igreja e Estado está longe de ser uma realidade efetiva entre nós. Uma das expressões mais claras dessa força encontra-se no fato de mesmo os defensores do aborto não terem coragem de dizer isso com todas as letras.

Sempre somos obrigados a ouvir afirmações envergonhadas do tipo: “Eu, pessoalmente, sou contra, afinal, como alguém pode ser a favor do aborto? Mas esta é uma questão de saúde pública, devemos analisá-la de maneira desapaixonada…”

Talvez tenha chegado o momento de dizermos: somos sim absolutamente a favor do aborto. Há aqui uma razão fundamental: não há Estado que tenha o direito de legislar sobre o uso que uma mulher deve fazer de seu próprio corpo. É estranho ver algumas peculiaridades brasileiras. Por exemplo, o Brasil deve ser um dos poucos países onde os autoproclamados liberais e defensores da liberdade do indivíduo acham normal que o Estado se arrogue o direito de intervir em questões vinculadas à maneira como uma mulher dispõe de seu próprio corpo.

Há duas décadas, a artista norte-americana Barbara Kruger concebera um cartaz onde se via um rosto feminino e a frase: “Seu corpo é um campo de batalha”. Não poderia haver frase mais justa a respeito da maneira com que o poder na contemporaneidade se mostra em sua verdadeira natureza quando aparece como modo de administração dos corpos e de regulação da vida. Esta é a função mais elementar do poder: fazer com que sua presença seja percebida sempre que o indivíduo olhar o próprio corpo.

Nesse sentido, não deixa de ser irônico notar como alguns setores do cristianismo, como o catolicismo e algumas seitas pentecostais, parecem muito mais preocupados com o corpo de seus fiéis que com sua alma. Daí a maneira como transformaram, a despeito de outros segmentos do cristianismo, problemas como o aborto, a sexualidade e o casamento homossexual em verdadeiros objetos de cruzadas. Talvez seria interessante lembrar: mesmo entre os cristão tais ideias são controversas. Os anglicanos não veem o aborto como um pecado e mesmo entre os luteranos, embora se digam contrários, ninguém pensaria em excomungar uma fiel por ela ter decido fazer um aborto.

É claro que se pode sempre contra-argumentar dizendo que problemas como o aborto não podem ser vistos exclusivamente como uma questão ligada à autonomia a que tenho direito quando uso meu corpo. Pois haveria outra vida a ser reconhecida enquanto tal. Esse ponto está entre os mais inacreditáveis obscurantismos.

Uma vida em potencial não pode, em hipótese alguma, ser equiparada juridicamente a uma vida em ato. Um embrião do tamanho de um grão de feijão, sem autonomia alguma, parasita das funções vitais do corpo que o hospeda e sem a menor atividade cerebral não pode ser equiparado a um indivíduo dotado de autonomia das suas funções vitais e atividade cerebral. Não estamos diante do mesmo fenômeno. A maneira com que certos grupos políticos e religiosos se utilizam do conceito de “vida” para unificar os dois fenômenos (dizendo que estamos diante da mesma “vida humana”) é apenas uma armadilha ideo-lógica. A vida humana não é um conceito biológico, mas um conceito político no qual encontramos a sedimentação de valores e normas que nossa vida social compreende como fundamentais. Se dizemos que alguém desprovido de atividade cerebral está clinicamente morto, mesmo se ele conservar grande parte de suas funções vitais ainda em atividade graças a aparelhos médicos, é porque autonomia e autocontrole são valores fundamentais para nossa concepção de vida humana.

Assim, quando certos setores querem transformar o debate sobre o aborto em uma luta entre os defensores incondicionais da vida e os adeptos de alguma obscura cultura da morte, vemos a mais primária tentativa de transformar a vida em um conceito ideológico. Isso se admitirmos que será necessariamente ideológico um discurso que quer nos fazer acreditar que “as coisas falam por si mesmas”, que nossa definição de vida é algo assentado nas leis cristalinas da natureza, que ela não é uma construção baseada em valores sociais reificados.

Levando isso em conta, temos de saudar o fato de alguns arautos do conservadorismo pretenderem colocar tal questão na pauta do debate político brasileiro e esperar que existam algumas pessoas dispostas a compreender a importância do que está em jogo. Desativar as molas do poder passa pela capacidade de colocá-lo a uma distância segura de nossos corpos.

A Capa da Carta Capital lembra um certo presidente eleito de uma certa Câmara de Vereadores

Carta689

Professor da USP critica a privatização da educação superior

Da Carta Capital de 14/03/2012

Como dois e dois

Por Otaviano Helene (professor do Instituto de Física da USP, ex-presidente da Associação de Docentes da USP e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais)

Os problemas do nosso sistema educacional são tão claros quanto as soluções. Não é preciso inventar

Nosso sistema educa­cional tem problemas quantitativos e qualita­tivos muito graves. Veja­mos, primeiro, os quan­titativos. Nos primeiros anos da educação infantil, sob responsabilidade principalmen­te dos municípios, atendemos apenas cer­ca de um quinto das crianças. Ao longo do ensino fundamental, nível educacional cuja oferta é dividida entre estados e mu­nicípios, um terço dos nossos jovens deixa a escola. Como resultado, a cada ano, cerca de 1 milhão de brasileiros iniciam a idade adulta sem ter sequer concluído o ensino fundamental, apesar de este ser um direito constitucional e um dever, e assim perma­necerão pelas próximas décadas. Como a evasão continua ao longo do ensino médio, esse nível educacional, majoritariamente sob a responsabilidade dos estados, é hoje completado apenas por metade da popu­lação. E ao final do ensino superior chega apenas um quinto dos cidadãos.

Segundo dados coletados e divulgados pela Unesco, a situação descrita nos coloca em uma das mais vergonhosas posições, mesmo quando a comparação se restringe aos países sul-americanos: estamos entre os piores colocados no que diz respeito à alfabetização juvenil (dos 15 aos 24 anos) e à taxa de inclusão no ensino superior.

Os problemas qualitativos acompa­nham os quantitativos. A enorme maioria dos nossos estudantes apresenta graves problemas em praticamente todas as áre­as do conhecimento, o que frequentemen­te provém da falta de efetivo entendimento de um texto simples. Evidentemente, isso exclui qualquer possibilidade de sua inter­pretação mais ampla. Tal situação impe­de o desenvolvimento e o aprendizado, fa­to claramente revelado pelo desempenho mostrado nas diversas provas e avaliações feitas ao longo do ensino básico.

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Sujeitos ainda ocultos – Entrevista com Leonardo Avritzer e Filgueiras na Carta Capital

Na Carta Capital de 07/03/2012

Segundo os especialistas da UFMG, o Brasil precisa aprender a também punir os corruptores

CRIADO EM 2006, o Centro de Referência do Interesse Público, ligado à Universidade Federal de Minas Gerais, tornou-se um núcleo reconhecido de estudos sobre democracia e Estado. Um de seus temas preferenciais é a compreensão dos fenômenos da corrupção. Para quem não aguenta mais a maneira infantil e rasa com que o assunto costuma ser tratado pela mídia e por alguns bunkers acadêmicos considerados bem-pensantes, os trabalhos do Centro são um oásis. Corrupção e Sistema Político no Brasil, uma coletânea de artigos de especialistas variados, comprova outra vez a excelência do Centro. Os organizadores do livro, Leonardo Avritzer e Fernando Filgueiras, concederam a seguinte entrevista.

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A mão visível e o Capitalismo de Estado (The Economist – Carta Capital)

A Carta Capital de 15.02.2012 publicou interessante matéria do “The Economist” sobre o Capitalismo de Estado com o título “A mão visível”.

A reportagem de 15 páginas informa que a crise do capitalismo liberal ocidental coincidiu com a ascensão de uma poderosa nova forma de capitalismo de Estado nos mercados emergentes: “A crise do capitalismo liberal foi agravada pela ascensão de uma poderosa opção: o capitalismo de Estado, que tenta fundir os poderes oficiais com os poderes do capitalismo. Ele depende de o governo escolher vencedores e promover o crescimento econômico, mas também usa instrumentos capitalistas como o lançamento de ações das companhias estatais nas bolsas e abraça a globalização”.

“O Estado chinês é o maior acionista das 150 maiores empresas do país e determina os rumos de milhares de outras.”

“As 13 maiores companhias petrolíferas, que entre si possuem mais de três quartos das reservas mundiais de petróleo, são todas controladas pelo Estado. Assim como a maior companhia de gás natural do mundo, ar ussa Gazprom. Estatais de sucesso encontram-se em quase todos os setores”.

“As empresas estatais somam 80% do valor do mercado de ações na China, 62% na Rússia e 38% no Brasil”

O texto informa que o mundo rico ainda tem um grande número de empresas controladas pelo Estado: a França tem 85% da EDF energia, o Japão tem 50% da Japan Tabacco e a Alemanha tem 32% da Deutsche Telekom.

O artigo fala do Brasil:

“O Brasil é o membro mais ambíguo do time do capitalismo de Estado: uma democracia que também adota muitas características do capitalismo anglo-saxão. Mas vale a pena examiná-lo por duas razões. Primeiro, é um catavento do capitalismo de Estado, uma liderança nas privatizações na década de 1990 que agora força sua maior mineradora, a Vale, a segurar trabalhadores que não precisa e obriga empresas menores a embarcar em uma consolidação subsidiada. E segundo, inventou uma das ferramentas mais afiadas do repertório do capitalismo de Estado.

O Brasil passou a maior parte de sua história moderna a perseguir uma modernização conduzida pelo Estado. Uma pesquisa no começo da década de 1980 mostrou que o País tinha mais de 500 EEs. O Brasil lançou um esforço de privatização nos anos 1990 para lidar com a hiperinflação, déficits em disparada e uma esclerose generalizada. Mas recentemente ele moveu-se em uma nova direção. O governo despejou recursos em um punhado de campeãs estatais, particularmente de recursos naturais e telecomunicações. Também criou um novo modelo de política industrial: substituiu a propriedade governamental direta por indireta por meio do Banco nacional de Desenvolvimento Econômico e Social(BNDES) e sua subsidiária de investimentos (BNDESPar) e trocou o controle majoritário por minoritário ao adquirir ações de uma ampla gama de diferentes empresas. Sergio Lazzarini, do (Insper) Instituto de Ensino e Pesquisa, e Aldo Musacchio, da Harvard Business School, batizaram o modelo de “Leviatã como Acionista Minoritário”.

O modelo de acionista minoritário tem várias vantagens. Limita a capacidade do Estado de usar as EEs para recompensar clientes ou conduzir políticas sociais. Os acionistas privados têm poder suficiente para criar barulho. Mas também dá ao Estado mais influência em troca do seu dinheiro. Em 2009, as participações da BNDESPar valiam 53 bilhões de dólares, ou apenas 4% do mercado de ações. Mas o Estado tinha uma grande influência em todo o Brasil corporativo. Os professores Sergio Lazzarini e Aldo Musacchio também mostraram, em um estudo detalhado de 296 empresas negociadas na Bolsa de São Paulo, entre 1995 e 2003, que esse modelo pode aumentar o retorno das companhias sobre seus ativos. As empresas brasileiras normalmente sub investem em equipamentos para aumentar a produtividade, porque os mercados de capital são muito subdesenvolvidos. As participações estatais as proveem de recursos que não poderiam conseguir em outros lugares.

Mas essa astuta versão de capitalismo de Estado está atualmente correndo perigo de exceder suas possibilidades. A descoberta da Petrobras, em novembro de 2007, de enormes reservas de petróleo enterradas profundamente sob o leito do Atlântico encheu a cabeça dos políticos de sonhos sobre grandes projetos. A mudança no equilíbrio mundial de poder dos Estados Unidos para a China também ajudou a persuadir muitos brasileiros de que o futuro está no capitalismo de Estado. O resultado foi um surto de intervencionismo insensato. O governo está tentando forçar a Petrobras a usar caros fornecedores locais de equipamentos apesar de dúvidas quanto à sua competência. Ele tirou Roger Agnelli de seu cargo de CEO da Vale a despeito de seu formidável histórico. E também deu para criar campeãs nacionais por meio de fusões forçadas: a BRF (Sadia e Perdigão)no setor de alimentação; a Oi (que foi obrigada a comprar a Brasil Telecom)nas telecomunicações; a Fibria (VCP e Aracruz) no papel e celulose. Até os modelos mais sofisticados de capitalismo de Estado não estão a salvo de políticos excessivamente zelosos.

Todas essas variedades de capitalismo de Estado têm uma coisa em comum: os políticos têm muito mais poder do que sob o capitalismo liberal. Em regimes autoritários, eles podem reestruturar setores inteiros com uma canetada. Até mesmo nas democracias como o Brasil eles podem dizer às maiores empresas o que fazer.”

O texto ainda diz que é perfeitamente possível para o capitalismo de Estado funcionar bem em algumas áreas (como infraestrutura) e mal em outras (como bens de consumo), e que ele estimule o crescimento em um determinado estágio de desenvolvimento e prejudique em outro, mas suas conquistas óbvias são nas áreas de infraestrutura, como as áreas de hidrelétricas, ferrovias de alta velocidade e aeroportos. A rede de telefonia móvel da China é a maior do mundo, com menos problemas de eficiência do que nos EUA. Dois terços doas empresas dos mercados emergentes que entraram na lista Fortune 500 são estatais.

Veja a matéria completa em inglês no site do The Economist

Veja a matéria quase completa em português:

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Relembrar é viver: reportagem bomba da Carta Capital “A conexão Paraná” de 2010 cita Lerner, Taniguchi e Beto Richa

Atualmente Taniguchi é secretário de Beto Richa e Jaime Lerner é condecorado pelo governo

Na Carta Capital de setembro de 2010

A conexão Paraná

As investigações das falcatruas do DEM de Brasília, no mandato do governado cassado José Roberto Arruda (foto), ainda não terminaram. Agora miram Paulo Rocha, acusado de operar o esquema na DFTrans. Foto: Gustavo Moreno/D.A.Press

Na manhã de 23 de agosto, um pequeno grupo de funcionários do DFTrans, órgão responsável pela fiscalização e controle do transporte urbano do Distrito Federal, reuniu-se para esperar uma visita do ex-diretor do órgão Paulo Henrique Munhoz da Rocha. Ex-dirigente do DEM do Paraná, Rocha teve uma trajetória trepidante no mandato do governador cassado José Roberto Arruda, com quem caiu em desgraça ao também ser flagrado no festival de propinas revelado em áudio e vídeo pela Operação Caixa de Pandora, em novembro de 2009. Sumido desde então, o ex-diretor não deu as caras em Brasília. Não foi por menos.

Rocha, chamado pelos amigos de “Pile”, era esperado na sede do DFTrans, em Brasília, para responder a nada menos que dez sindicâncias internas referentes a assinaturas de contratos fraudulentos, multas ilícitas, extravio de equipamentos, superfaturamento, convênios fantasmas e mais uma dúzia de irregularidades administrativas. Citado em três ocasiões pelo inquérito da Caixa de Pandora, o político aparece em uma das fitas de Durval Barbosa a receber estimados 20 mil reais para, segundo o delator, direcionar licitações de interesse de empresas de informática, muitas das quais apontadas pelo Ministério Público Federal como principais lavanderias de dinheiro do esquema de corrupção do DEM.

Bisneto e neto de ex-governadores paranaenses (Caetano e Bento Munhoz da Rocha, respectivamente), “Pile” é, porém, o elo mais visível de uma conexão montada por Arruda e o DEM do Paraná desde os primeiros dias de governo. Rocha tem a vida e a carreira política ligadas a dois dos principais caciques do DEM paranaense, o ex-governador Jaime Lerner e o deputado federal e ex-prefeito de Curitiba Cássio Taniguchi. Este último, secretário de Desenvolvimento Urbano do DF até a derrocada do governador, era apontado como “cérebro” da administração Arruda e peça fundamental na sustentação do mais lucrativo movimento político do período, a aprovação do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) de Brasília.

A linha de investigação da PF e do Ministério Público em relação ao PDOT se baseia em um depoimento de Barbosa sobre a votação do projeto na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Aos procuradores federais, Barbosa afirmou que a aprovação do PDOT rendeu 20 milhões de reais ao esquema de corrupção do DEM. O dinheiro, afirmou, foi repartido entre um grupo ligado ao governador Arruda, outro ao então vice-governador Paulo Octávio Pereira (também do DEM), e um terceiro, formado por deputados distritais. Segundo o delator, José Geraldo Maciel, à época chefe da Casa Civil de Arruda, pagou propinas de 420 mil reais a cada um dos 18 deputados da base aliada que votaram a favor do PDOT. Contra o projeto ficaram apenas quatro deputados do PT e um do PDT.

Rocha conseguiu montar um esquema periférico no DFTrans. Com base apenas nos contratos detectados até agora pela comissão de sindicância do órgão, o esquema pode ter arrecadado cerca de 50 milhões de reais. Expulso do partido depois de flagrado no vídeo da propina, o ex-diretor do DFTrans sumiu de circulação e nunca conseguiu ser localizado pela comissão de sindicância. Também passou a ser renegado pelos padrinhos políticos, embora os fatos façam essa ligação por si.

Entre 1995 e 1997, no governo paranaense de Jaime Lerner, Rocha foi diretor do Departamento de Administração do Instituto de Previdência e Assistência aos Servidores do Estado (IPE). Depois, passou a trabalhar diretamente na prefeitura de Curitiba, nos dois mandatos de Taniguchi, entre 1997 e 2004. Lá, foi diretor-administrativo-financeiro do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), superintendente do Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Município de Curitiba (IPMC), além de presidente do Instituto Curitiba de Saúde (ICS) e da Companhia de Desenvolvimento de Curitiba (CIC).

Taniguchi não quis falar diretamente sobre Rocha. Conselheiro informal da campanha do tucano Beto Richa ao governo do Paraná, ele desistiu de se candidatar novamente à Câmara dos Deputados, oficialmente para retomar seus trabalhos como urbanista em Curitiba. O fato é que Taniguchi virou ficha suja ao ser condenado, em 20 de maio deste ano, no Supremo Tribunal Federal, por crime de responsabilidade. Quando prefeito de Curitiba, entre 1997 e 1998, ele usou 4,9 milhões de dólares do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), destinado à melhoria de transportes na capital paranaense, para -pagar precatórios (dívidas judiciais) a credores escolhidos de forma seletiva.

Segundo Patrício Macedo, seu assessor de imprensa, embora Rocha tenha mesmo trabalhado com o ex-prefeito, a indicação dele para a direção do DFTrans foi feita por outro demista do Paraná, Alberto Lupion. Já o deputado Lupion afirma ter indicado o nome de Rocha ao então secretário de Transportes do DF, Alberto Fraga, durante uma reunião na Câmara na qual Taniguchi estava presente. “Falei com ele (Rocha), há dois meses, e ele me disse que estava montando uma empresa em Camboriú (litoral de Santa Catarina)”, conta Lupion.

A Conexão Paraná montada no governo Arruda, também investigada pela Caixa de Pandora, foi reflexo direto da situação política do DEM pós-eleições de 2006. Em 1º de janeiro de 2007, o Distrito Federal se transformou na meca do partido, cuja sobrevivência sempre dependeu da adesão aos cargos e recursos do governo federal. Asfixiado política e financeiramente pela distância do poder desde a chegada do PT ao Palácio do Planalto, em 2003, o DEM vislumbrou na eleição de Arruda um porto seguro para o renascimento da sigla. O problema, como demonstrou a operação da PF, foi a sede excessiva.

A convocação dos demistas paranaenses por Arruda foi uma tentativa de fazer do assédio aos cofres públicos do Distrito Federal uma ação qualitativa, tocada por quadros descolados da tradicional estrutura nordestina do DEM, mais do que manjada pela mídia e pelo Judiciário. Assim foram acertadas as nomeações dos deputados Alceni Guerra, que chegou a ser secretário especial de Educação Integral, e Taniguchi, herdeiro político do ex-governador paranaense Jaime Lerner. Uma das primeiras medidas tomadas por Taniguchi foi, aliás, arranjar um bom contrato para o badalado escritório de arquitetura do mentor político.

Empossado como secretário de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, Taniguchi tratou de fechar, sem licitação, um contrato de 2 milhões de reais com a empresa Jaime Lerner Arquitetos Associados para a “prestação de serviços de consultoria em desenvolvimento”. Fechado em maio de 2007, o contrato previa a realização de estudos e pesquisas para a implantação do Parque Burle Marx, uma área de Cerrado localizada, coincidentemente, ao lado do Setor Noroeste de Brasília, principal tesouro levantado pelo PDOT. Trata-se, atualmente, do metro quadrado mais caro do País, onde o ex-vice-governador Paulo Octávio investiu mais de 30 milhões de reais.

Entre os contratos assinados por Rocha no DFTrans há um relativo à compra de 800 câmeras de vídeo a serem instaladas nos ônibus do DF para combate à criminalidade no transporte público. Valor: 8,5 milhões de reais. A empresa Sync, contratada por Rocha, pertence ao ex-presidente da Câmara Distrital Leonardo Prudente, o deputado do DEM notabilizado ao ser flagrado em um dos vídeos de Barbosa enquanto colocava maços de dinheiro nas meias.

A Sync participava ainda de consórcios em parceria com a Minauro Informática, do Paraná, contratada pelo DFTrans para criar, a um custo de 21 milhões de reais ao ano, uma “solução tecnológica integrada de gestão de informações de transporte”. Na verdade, um nome pomposo para denominar um programa de computador considerado ruim pelos administradores do órgão. A Minauro Informática não aparece no esquema à toa: é uma velha conhecida de administrações do DEM no governo do Paraná e na prefeitura de Curitiba.

Outra empresa contratada por Rocha, a Flexdoc, forneceu arquivos, estantes e armários ao DFTrans por 2,6 milhões de reais, sem licitação. A sindicância descobriu que os móveis nem sequer pertenciam à empresa – haviam sido terceirizados. Por essa razão, o órgão foi obrigado a renovar de forma emergencial o contrato para não ficar sem ter onde guardar papéis e documentos até conseguir resolver o problema.

Todos os demais contratos fechados na gestão de Rocha foram suspensos. De acordo com a assessoria de imprensa do DFTrans, cujo diretor atual é Marcos Antônio Nunes de Oliveira, mesmo sem ter aparecido para prestar esclarecimentos, Rocha não vai se livrar do processo administrativo decorrente das sindicâncias, com previsão de término para daqui a três meses. Caso constatada a responsabilidade do ex-dirigente, informa a assessoria, o processo resultará em “tomadas de contas especial” com o objetivo de garantir ressarcimento aos cofres públicos do dinheiro usado irregularmente.

Imperdível a matéria sobre Capitalismo de Estado na Carta Capital (The Economist). Favor jogar fora a revista Veja!

A guerra da internet e as cercas no ciberespaço

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No Pinheirinho, o Brasil das trevas – Wálter Fanganiello Maierovitch

Moradores do Pinheirinho sentiram a mão pesada da polícia paulista. Foto: Reuters/Latinstock

Na Carta Capital

Uma pergunta perturbadora. Pode ser considerado civilizado um país cuja Justiça determina, sem qualquer motivo de urgência e com emprego de tropa de choque da Polícia Militar, a expulsão violenta dos seus lares de 1,5 mil famílias pobres, com apreensão de todos os seus pertences e uso da tática militar da surpresa e a agravante de não lhes ser ofertado um teto substitutivo de abrigo?

A resposta, por evidente, é negativa. Com efeito, o fato aconteceu no domingo 22, por força de mandado judicial expedido nos autos de uma ação de reintegração de posse em Pinheirinho, na cidade paulista de São José dos Campos, uma área com 1,3 milhão de metros quadrados e cerca de 6 mil moradores, todos sem títulos de propriedade e cuja ocupação daquele espaço remonta a 2004.
A decisão de reintegração foi da juíza da 6ª Vara da Comarca que, num Brasil com direito de matriz romana, se esqueceu de uma velha lição da lavra do jurista e político Giuvenzius Celso Figlio e encartada no Digesto: Jus est ars boni et aequis (o Direito é a arte do bom e do equitativo).

Fora isso, a decisão foi precipitada. Os canais conciliatórios estavam abertos e soluções alternativas justas poderiam ser alcançadas, como, por exemplo, a desapropriação por utilidade social. No particular, havia, além de um protocolo de intenções a tramitar no Ministério das Cidades, um acordo de adiamento da reintegração com prazo de vigência em curso.

Mais ainda, no âmbito jurisdicional existia um conflito de competência entre a Justiça estadual, que determinara a reintegração, e a federal, com liminar a suspender a desocupação. Esse conflito só foi resolvido, em sede liminar, pelo presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e quando a tropa de choque da PM, com bombas e projéteis de borracha, já desalojara mais de 2 mil moradores, com muitas mães, como mostraram as fotografias dos jornais, a carregar os seus pequenos filhos. Esse conflito de jurisdição poderia ter sido motivador, pela Justiça paulista, de adiamento da reintegração. Por parte de Ari Pargendler, poderia esse presidente do STJ usar a sua conhecida arte amistosa de fazer lobby, demonstrada na tentativa de obter uma vaga de ministra para a cunhada, para suspender a reintegração e encaminhar a questão a exame colegiado do STJ. Não se deve olvidar, ainda, que um representante da presidenta Dilma Rousseff estava no Pinheirinho e procurava encontrar soluções definitivas. Em vez de um acordo, o representante federal experimentou lesões provocadas por balas de borracha disparadas pela PM.

Numa ação de reintegração de posse de área grande e com muitos ocupantes, a regra básica a orientar o juiz do processo é buscar, à exaustão, conciliações e evitar medidas traumáticas. A reintegração coercitiva só deve ocorrer excepcionalmente e não era o caso da executada no Pinheirinho. Essa grande e valiosa gleba-bairro, com casas de alvenaria, barracos, comércio e até biblioteca municipal, está registrada como de propriedade da Selecta Comércio e Indústria S.A. No momento, o Pinheirinho integra o acervo ativo da massa falida da empresa, cujo processo de falência se arrasta sem solução por mais de dez anos.

A Selecta era uma holding controlada pelo megaespeculador Naji Nahas, que já quase quebrou a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro e acabou indiciado, e preso cautelarmente, na Operação Satiagraha. Essa operação, frise-se, restou anulada em 2011 pelo STJ, sob o leguleio tabaréu de vedada participação, ainda que meramente burocrática e em apoio à repressão à criminalidade organizada por poderosos e potentes, de agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), lotados juntos ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

Nahas nunca foi condenado criminalmente pela Justiça e beneficiou-se do efeito ampliativo da liminar de soltura concedida pelo ministro Gilmar Mendes em favor do banqueiro Daniel Dantas. Na falência da Selecta não há notícia de crime falimentar e, no Brasil, esses delitos são quase sempre alcançados pela prescrição.

Numa falência, como estabelece a legislação, há previsão para devolução, pagos os credores, de sobras aos sócios e acionistas da empresa falida. Não se descarta isso, com a grande valorização do Pinheirinho. E não é incomum, quando a massa falida possui propriedades em valorização, antigos sócios, por laranjas, comprarem créditos, negociados barato em face da tramitação demorada da falência.

O caso do Pinheirinho, pela iniquidade, faz lembrar Pierre Joseph Proudhon, célebre filósofo e revolucionário. Em 1840, ele publicou o seu primeiro ensaio político-econômico com uma pergunta na capa da obra: “O que é a propriedade?” Para Proudhon, ícone dos socialistas e contrário ao marxismo, “a propriedade é liberdade” e passa a ser condenável quando se torna “poder do homem sobre o homem”. Aí, ele conclui: “A propriedade é um furto”.

Sessenta anos depois – Mino Carta

“O petróleo é nosso”. Esta batalha os vetustos donos do poder perderam. Foto: José Vieira Trovão / Ag. Petrobras

Da Carta Capital

Há 60 anos, estudante de Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, cheguei a me sentir pessoalmente atingido pelos editoriais dos jornalões. Mania de grandeza, a minha. A velha e sempre nova academia tornara-se um centro importante das manifestações que agitavam o País consciente à sombra do lema “O Petróleo É Nosso”. Bandeira altiva e justa, desfraldada na perspectiva de um futuro que imaginávamos muito próximo. A mídia reagia enfurecida, clamava contra tamanho atrevimento, forma tola de nacionalismo a ignorar a nossa incompetência e nossos compromissos internacionais.

Os jornalões mastigavam fel diante de um duplo desafio: contra as irmãs do petróleo e, pior ainda, contra o império americano em plena Guerra Fria, contra aquele Tio Sam chamado pelo Altíssimo a nos defender da ameaça marxista-leninista. Era a irredutível vocação de súdito-capacho pronunciada com a pompa do estilo cartorial, próprio dos editoriais daquele tempo, e deste até.

Nos jornais de hoje leio que a direção da Petrobras foi trocada pela presidenta Dilma, insatisfeita com a gestão e determinada a controlar mais de perto o desempenho da estatal. Onde será que os perdigueiros das redações colhem informações? Antes de incomodar meus pacientes botões, anoto a observação de um amigo: “Na própria reunião de pauta”. Ou seja, antes de sair a campo, o perdigueiro sabe, pela ordem da chefia, o que haverá de contar aos amáveis leitores.

Da boca de Lula já ouvi a seguinte consideração: “Se o presidente da República conta no máximo com oito anos de mandato, por que o diretor de uma estatal deveria ter mais?” A troca da guarda na Petrobras estava decidida há tempo, mas a presidenta Dilma não tem motivo algum de insatisfação a respeito da gestão de José Sergio Gabrielli. É do conhecimento até do mundo mineral que, sob o comando de Gabrielli, o valor de mercado da Petrobras fermentou de 14 bilhões de dólares para 160, o pré-sal foi descoberto e o Brasil tornou-se o 11º produtor de petróleo do mundo. Segundo The Economist, por essa trilha chega a quinto até 2020.

As pedras sabem também que Dilma Rousseff, depois de ocupar a pasta de Minas e Energias no primeiro mandato de Lula, ao assumir a Casa Civil passou a acumular a presidência do Conselho de Administração da Petrobras e manteve estreita ligação com Gabrielli. Talvez a mídia nativa continue aquém do mundo mineral. Reconheça-se, contudo, a sua coerência. Ao longo dos últimos 60 anos, o petróleo ficou claramente nosso e a Petrobras tornou-se uma realidade empolgante, mas a mídia não mudou. Em relação a estas questões, a sua contrariedade se mantém, além de transparente, patética.

Por 60 anos a fio, os barões do jornalismo não perderam a oportunidade de tomar o partido do Tio Sam e das irmãs do petróleo até ensaiar a revanche ao propor a privatização da nossa estatal. Devemos atribuir a um milagre o fato de que Fernando Henrique não tenha atendido aos insistentes, poderosos pedidos. Certo é que a tentação o roçou perigosamente. Quem sabe caiba um agradecimento especial a Nossa Senhora Aparecida se os editorialões acabaram por cair no vazio.

Agrada-me recordar 1952 e aquele fervor juvenil. Ali nasceu a Petrobras com a chancela de Getúlio Vargas, figura contraditória de estadista manchada pelo período ditatorial e valorizada pela visão do futuro, partilhada, por exemplo, pela juventude do Largo de São Francisco. Getúlio era então o presidente eleito, empenhado em firmar os caminhos da industrialização inaugurados por obras como Volta Redonda, as Leis do Trabalho, a criação do salário mínimo. A imprensa só enxergava então os riscos da mudança, ameaça para tudo aquilo que representava. A Petrobras seria mais um pecado getulista, a ser pago, juntamente com os demais, pelo tiro que ecoou no Catete na manhã de um dia de agosto de 1954. Ocorre-me que o desespero do suicida tenha aflorado com prepotência ao perceber a resistência insana dos vetustos donos do poder e ao imaginar por isso um futuro bem mais distante do que esperavam os moços do Largo.

Liberdade de ir e vir

Carta Capital desta semana

IMIGRAÇÃO 1 | O fluxo crescente de estrangeiros exige rever a legislação para imigrantes herdada da ditadura

 

POR LUCAS CALLEGARI E LUIZ ANTONIO CINTRA*

 

James Michael Raffety graduou-se em economia e relações internacionais na Universidade da Carolina do Norte, na Costa Leste dos EUA, em 2008. Tinha planos bem definidos. Pretendia montar uma pequena cooperativa de crédito voltada à população de origem hispânica de Gwinnett, no estado da Geórgia. No início de 2009, detonado pelo estouro da bolha imobiliária, o projeto profissional de Raffety foi pelos ares.

 

Sem um plano B à mão, o economista foi forçado a improvisar. “A tese do Goldman Sachs sobre os BRIC mexeu comigo. Achei que era hora de vir para o Brasil e tentar iniciar minha carreira como aprendiz”, diz o jovem de 26 anos, há dois no País, hoje morador do Recife, a capital pernambucana.

 

Aproveitando os contatos brasileiros da mãe, Raffety encontrou vaga em uma indústria local de baterias automotivas, interessada em diversificar o perfil dos estagiários da empresa, um grupo familiar pernambucano com interesses na incorporação imobiliária, turismo, siderurgia e logística.

 

Antes da crise ele provavelmente seria convidado a ocupar uma vaga de trainee em uma grande empresa norte – americana, com salário de até 3 mil dólares ou 5,1 mil reais, como acontecia com seus veteranos de faculdade. Aceitou trabalhar no Brasil com um salário de 85ô reais na empresa pernambucana, renda que subiu para 2,5 mil reais ao mês após a sua efetivação no departamento de viabilidade financeira. “Aqui tenho acesso ás decisões da diretoria, coisa que seria impossível nos Estados Unidos.”

 

Como demonstram as estatísticas recentes, Raffety não é um caso isolado. O número de espanhóis no País, por exemplo, cresceu 45% nos últimos dois anos. E mais de 50 mil portugueses entraram no ano passado.

 

Quando visita seu país natal, Raffety é procurado por colegas e amigos em busca de informações sobre a vida aqui, com interesse particular sobre o ritmo da economia. “Eles sabem que o aumento real do salário mínimo dos últimos anos é um impulsionador, mas querem detalhes sobre o dia a dia, querem saber como é o movimento nos shoppings, a rotina nos supermercados.

 

Desejados e bem pagos, os estrangeiros mais qualificados vindos da Europa e dos EUA, em geral brancos e graduados, compõem o lado mais tranquilo da onda migratória para o Brasil. Aos 28 anos, Allus Pierre levanta o capacete, tira as luvas que usa no canteiro de obras na pequena Abunã, no estado de Rondônia, a 200 quilômetros da capital Porto Velho, antes de apresentar a sua versão dessa história.

 

“Os haitianos gostam de viajar”, diz o jovem, sorriso estampado no rosto negro reluzente, a demonstrar que também ele vive o seu sonho brasileiro. Segundo Pierre, o apego pelas viagens avivou-se após o trágico terremoto que matou 300 mil pessoas há dois anos e a falta de perspectivas. Chegou ao Brasil em 201L Já conseguiu CPF, Carteira de Trabalho e arrumou emprego fixo com registro.

 

“Quero ficar por um bom tempo”, diz Pierre, apesar da saudade de casa e das dificuldades para o contato com a família. Como em Rondônia a comunicação e precária, poucas vezes consegue uma ligação a partir da central local. Para enviar dinheiro, só mesmo em uma agência do banco Western Union, em Porto Velho. Devido à sua experiência no Haiti, recebe 2 mil reais mensais, mais do que a maioria dos seus conterrâneos.

 

Embora consideráveis, as conquistas recentes não o fazem se esquecer das dificuldades iniciais. O trajeto desde o Haiti foi longo e arriscado, mesclando transporte aéreo e rodoviário. Começou a viagem a pé, até chegar à vizinha República Dominicana. Ali juntou algum dinheiro, pegou um avião para o Panamá. Em seguida, outro para o Equador, onde ouviu falar de trabalho na construção civil brasileira. A partir daí, viajou de ônibus, passando por Peru e Bolívia, para então cruzar a fronteira com o Brasil. “Deu muito trabalho entrar, mas nunca estive sozinho, sempre viajei com muitos amigos. Hoje, vários trabalham na usina, as condições de vida aqui são melhores.”

 

Um dos principais polos de atração de imigrantes, as obras de infraestrutura levam milhares de trabalhadores à região do Rio Madeira. Ali, alguns distritos com população de 5 mil habitantes chegam a ter hoje população flutuante de 50 mil, muitos vindos de outros países.

 

A conjuntura de crise nos países europeus e nos EUA e o ritmo forte da economia brasileira explicam a recente onda migratória – assim como Austrália e Canadá, o Brasil passou a ser visto como porto seguro. E expõem a urgência de o País rever sua legislação vigente, herança da ditadura, elaborada em 1980.

 

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Há quem defenda “tapete vermelho” apenas para os mais qualificados. Mas onde ficam os direitos humanos?

 

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Em evento na semana passada, o ministra da Defesa, Celso Amorim, chamou a atenção para esse debate. “Não dá para se tornar a sexta economia do mundo impunemente. Normalmente, as pessoas saíam do País. O Brasil ficou melhor agora e as pessoas querem entrar, naturalmente, teremos de estudar como agir diante dessa nova situação. Não são apenas os haitianas os brasileiros que estão voltando. Temos de procurar exercitar o mesmo humanitário que está presentem o Haiti, de uma maneira compatível com os nossos meios”, afirmou Amorim.

 

Nesse debate, há quem reduza o tema ao “tapete vermelho” para os mais qualificados, enquanto os menos favorecidos – latinos e africanos à frente – seriam tratados corno caso de polícia. Proposta afermentar na Secretária de Assuntos Estratégicos (SAE), ocupada pelo ex-governador fluminense Moreira Franco (PMDB-RJ), vai nessa direção, com ênfase no fim das filas para engenheiros e afins. Aos demais, a liberação de visto de trabalho seguiria a conta-gotas. Procurada por Carta Capital, a SAE preferiu não comentar o texto.

 

Ex-titular da SAE, o diplomata Samuel Pinheiro Guimarães defende uma saída que una as razões econômicas sem deixar de lado os aspectos humanitários. E vantagens aos haitianos, diante da relação estreita a unir as duas nações desde 2004, quando o País passou a liderar a Força de Paz no Haiti, inalnindo a oferta de cursos de língua portuguesa para facilitar a integração. “Não fizemos isso à época da desintegração da união Soviética e foi um erro. Agora, temos de aproveitar o desemprego nos outros países para atrair essas pessoas. Agora precisamos ter uma postura ativa”, diz Guimarães.

 

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Nos anos1940, os imigrantes representavam 3% da população. Hoje esse índice é de apenas 0,2%

 

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A escassez de mão de obra qualificada no País – particularmente fora do eixo Rio-São Paulo – tira o sono de profissionais como Cristiane Paim, gerente do escritório de recursos humanos Randstag, de Salvador (BA). Com o crescimento acelerado dos investimentos industriais e em infraestrutura, esses profissionais correm contra o tempo para localizar trabalhadores com a formação requerida.

 

Segundo Cristiane, a situação é mais complicada nos estados da Bahia e Pernambuco, embora comece a receber notícias de que Fortaleza segue o mesmo caminho. “A demanda por engenheiros é muito grande. Quando não conseguimos suprir vagas com recém-formados brasileiros, temos procurado talentos em outros países, como Alemanha, Portugal e Espanha.”

 

Como Raffety, eles têm vindo, apesar das condições menos favoráveis que lhes são oferecidas no mercado brasileiro, sem falar nos direitos trabalhistas e nos benefícios sociais. Em comparação, claro, com os europeus que mantiveram seus empregos. “Na Europa, um engenheiro recebe praticamente duas ou três vezes o salário inicial de 6 mil reais oferecido no Brasil. Mesmo assim obtemos sucesso em recrutamentos internacionais.

 

Especializada em RH há décadas, a consultoria inglesa Michael Page tem sido muito procurada, especialmente por europeus com nível superior completo. O número de fichas cadastrais preenchidas por eles no website da consultoria cresceu40% em 2011. “Diante da demanda, abrimos uma base estratégica no Recife e consolidamos nossas atividades na Região Sul e em Minas Gerais”, diz Leonardo de Souza, diretor da empresa. Para especialistas como Souza, ainda é grande a burocracia para que um estrangeiro consiga seu visto de trabalho permanente, ainda que existam avanços. “As empresas estão mais abertas à entrada de estrangeiros. Muitas vezes as dificuldades maiores estão no aprendizado da língua, o que dificulta a inserção.

 

Longe da SAE de Moreira Franco, contudo, a tese do “tapete vermelho”, com tratamento diferenciado, não prospera. O secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão, por exemplo, considera que o peso crescente dos investimentos estrangeiros também impulsiona a chegada de imigrantes. “O País atraiu 65 bilhões de dólares no ano passado, equivalente a 5% do investimento global. Há dez anos era metade disso. Os imigrantes tendem a acompanhar esse fluxo de capitais”, considera.

 

Para além da economia, Abrão acrescenta razões políticas e culturais, como a maior visibilidade internacional do País nos últimos anos. Foi essa uma das razões que mudaram a cabeça da campineira Ana Cecília Albuquerque e do irlandês David Murphy, que nos últimos dez anos viveram em Estocolmo, onde casaram e tiveram dois filhos. “Em 2007, passamos seis meses aqui, mas não cogitamos voltar àquela altura.Quando viemos de férias, em 2010, ouvimos todos falando das oportunidades que estão surgindo aqui e tomamos a decisão”, diz Ana Cecília, que trabalhou nos últimos anos na embaixada brasileira na capital sueca. David, por sua vez, busca contatos no País para ampliar sua carteira de clientes na área de comunicação corporativa, investindo agora nas empresas suecas, mas também irlandesas, com negócios no mercado brasileiro. “É excitante estar no Brasil neste momento”, resume.

 

Especialistas consideram que não há estatísticas confiáveis sobre o número total de estrangeiros vivendo no Brasil. “Sabemos que o número dos que estão em situação regular está ao redor de 1,5 milhão, também não se sabe quantos brasileiros moram no exterior. Há estimativas de cerca de 3 milhões”, diz o geógrafo Helion Póvoa Neto, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Como começa a haver um fluxo maior de migração de estrangeiros, esse saldo negativo está diminuindo.” O Brasil, aliás, já teve muito mais imigrantes: em 1940, eles representavam 3% da população, ante o atual 0,2%, segundo o IBGE.

 

Abrão, do Ministério da Justiça, reforça a necessidade de avanços normativos. “Uma nova legislação é importante para assegurar um conjunto de direitos

 

dos migrantes para protegê-los, igualando os direitos dos estrangeiros ao dos nacionais. É preciso uma política nacional de imigração que aponte as principais diretrizes desses direitos3 as estratégias e metas durante um determinado período de tempo”, avalia.

 

Durante ogo verno Lula, o Conselho Nacional de Imigração (CNIg) elaborou uma proposta de Política Nacional de Imigração e Proteção ao Trabalhador Migrante, enviadaâCasaCivilem201Ó,que,comano caso do Ministério da Justiça, vai além da tese do “tapete vermelho”. O objetivo principal, aponta a proposta, seria “contribuir para a promoção e proteção dos direitos humanos dos migrantes e incrementar os vínculos das migrações com o desenvolvimento”. A proposta será analisa da também por representantes do Itamaraty.

 

O presidente do CNIg, Paulo Sérgio de Almeida, avalia que o texto tem como eixo principal a proteção do direito das pessoas, mesmo daquelas em situação irregular. “A proposta foi concluída em 2009 e coincidiu com a anistia daquele ano. Há mais de dez anos o Brasil não tinha uma anistía. Foi também no mesmo ato que o presidente Lula encaminhou uma leiao Congresso, onde, infelizmente, andou muito pouco”, diz.

 

Com mais de 160 artigos, o projeto assegura aos imigrantes os mesmos direitos civis e sociais dos brasileiros. Também prevê a possibilidade de concessão de passaporte a estrangeiros, assim como diversos tipos de visto, como turismo, negócios, tratamento de saúde, estudos e trabalho.

 

Concede ainda visto permanente ao estrangeiro com filhos e descendentes que estejam sob sua guarda e dependência econômica, assim como em caso de “notório conhecimento” em sua área de atuação profissional. E transforma o CNIg em Conselho Nacional de migrações, com competência estendida a questões relacionadas à emigração de brasileiros. Embora esteja em tramitação desde 2009 até agora o Congresso Nacional não manifestou interesse pela votação.

 

Em vigor desde1980, o Estatuto do Estrangeiro embutia o que os especialistas consideram uma evidente – e espera da visão autoritária, com foco na segurança nacional. Visava principalmente controlar os estrangeiros, segundo interesses dos donos do poder. Criado também em 1980, ao longo do tempo o CNIg tem procurado aprimorar o estatuto elaborado pelos.militares, apesar dos limites legais, adaptando a abordagem do assunto para um viés mais próximo de uma perspectiva humanista. “A legislação atual restringe a liberdade de reunião de estrangeiros e de participação política. Não tem foco nos direitos humanos e está mais preocupada em atrair o trabalhador qualificado”, avalia Póvoa, da UFRJ. Segundo os especialistas, embora seja urgente que o Brasil aprove uma legislação voltada aos imigrantes e atualize sua política nacional de lmigração, o País avançou nos últimos anos. Em 2009, o governo Lula concedeu anistia migratória por meio da leio°11.961 e permitiu a regularização de perto de 45 mil estrangeiros. Foîtterceira anistia desde o fim dos anos 80. A primeira em 1988 e a segunda em1998, ainda em 2009, o País assinou um acordo de livre residência com os membros do Mercosul, posteriormente estendido à Bolívia, Chile, Equador e Peru.”O objetivo foi facilitar reciprocamente a circulação de pessoas pelo País, acabando com a necessidade de visto prévio” diz Abrao. Elas se tornaram residentes temporários por até dois anos, com a possibilidade de conseguir o visto permanente após esse período.

 

O representante do Ministério da Justiça faz questão de destacar a necessidade de abordar o assunto sem um viés elitista, ou seja, sem privilegiar aqueles mais qualificados, em sentido diverso do que prega a proposta de Moreira Franco. Migrar é um exercício legítimo do direito humano, ligado à busca por novas oportunidades, assim como ocorreu com os brasileiros que saíram do País a partir dos anos 80 para viver nos Estados Unidos, Europa e Japão”, diz. Segundo Abrão, no Brasil a política de imigração não faz nenhuma distinção no tratamento do imigrante em razão de sua qualificação. “O Brasil foi tradicionalmente um país de imigração e nós ganhamos com isso, agregamos habilidades e cultura.

 

No caso dos profissionais estrangeiros mais qualificados, a opinião é de que é possível aproveitar imigrantes disponíveis de imediato para exercer atividades em determinadas áreas, especialmente enquanto se forma uma nova geração de brasileiros com especialização.

 

Para Duval Fernandes, professor da PUC-MG, o movimento dos últimos três anos aguarda respostas efetivas, “Houve crescimento de cerca de 30% nos pedidos de visto de trabalho por parte de estrangeiros mais qualificados, perto de 65% deles têm nível superior completo. Hoje em dia, não é possível mais rotular como fazíamos antigamente, chamando um país de imigrantes e outro de emigrantes. Atualmente há uma grande quantidade de pessoas que saem e entram nos países. É preciso ter políticas que tratem dessas situações e não temos nenhuma.”

 

Segundo Fernandes, o País precisa de uma política de imigração e mecanismos de inserção dos imigrantes no mercado de trabalho. Faltam escolas de português para estrangeiros. E existem queixas dos imigrantes e de organizações não governamentais ao atendimento da Polícia Federal. Reclamam do tratamento, muitas vezes considerado desrespeitoso, com atendentes que falam apenas o português. “O ideal seria um órgão específico, com funcionários de Estado habilitados a atender os imigrantes”, avalia Fernandes,

 

Mais complicado, inclusive pela carga de preconceitos que carrega, é o modo como haitianos, bolivianos e paraguaios são percebidos pela sociedade. Segundo Póvoa, da UFRJ, houve alarmismo por parte da mídia em relação à quantidade de haitianos que entrou no Brasil recentemente. “O Brasil nunca teve esse enfoque de proteção de fronteiras contra imigrantes. O tom do noticiário muitas vezes deu a impressão de que está ocorrendo uma invasão das fronteiras’, mas é um exagero. Uma das legislações mais avançadas é a da Argentina, que facilitou a regularização de maneira ampla dos estrangeiros. Foi muito boa para os imigrantes”, diz.

 

Em sentido contrário seguem os países europeus, onde a crise econômica fermenta a xenofobia. A França de Nicolas Sarkozy, por sinal, bateu recorde de deportações em 2011, em meio à campanha do governo para reduzir o número de imigrantes legais.

 

Aprovada em 2003, a legislação de imigração argentina valorizaria uma sociedade multicultural, integrada ao Mercosul, com respeito aos direitos dos estrangeiros e à sua contribuição cultural e social,ou seja, nada que lembre a tropa de choque.

 

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Em vigor desde 1980, o Estatuto do Estrangeiro possui um viés autoritário, dizem os especialistas

Thomaz Wood Jr diz que universidades brasileiras transformaram-se em linhas de montagem com capatazes, metas e burocracia, com professores-pesquisadores conformistas, opacos e descontentes com as condições de trabalho e as pressões por produtividade, com multiplicação de mestres/doutores ineptos e a proliferação de artigos científicos que nunca serão lidos, matando os operários e prejudicando a qualidade da produção, um sistema caro, improdutivo e insalubre

Inferno na torre… de marfim.

Thomaz Wood Jr.*

Certas profissões e ocupações povoam os sonhos dos jovens, sugerindo autor-realização ou simbolizando status. Porém, após conhecerem o apogeu, parecem seguir para um inevitável declínio. A engenharia, a advocacia e a medicina já tiveram dias melhores, mas seguem a trilha da proletarização, perdendo o prestígio e a aura. A economia e a administração também mostram sinais de decadência, depois de momentos fugazes de glória. Fenômeno similar parece atingir a ocupação de professor-pesquisador, praticada por uma pequena elite, incrustada nos andares mais elevados das torres de marfim do ensino superior. Comecemos pelo sonho. Depois, o feijão.

O professor-pesquisador, profissional que atua em programas de pós-graduação, é um ser privilegiado. Não é nem será um milionário, mas conta com salário digno e emprego vitalício. Tem liberdade para trabalhar no que lhe interessa e conta com acesso facilitado aos recursos de fundos de pesquisa. Viaja regularmente pelo mundo para discutir suas descobertas científicas em cidades fascinantes e resorts bucólicos. Dedica-se à nobre função do magistério, mas apenas oito meses por ano. Leciona poucas horas por semana para pequenas classes povoadas por corações interessados e mentes brilhantes. Seu horário de trabalho é flexível e seus objetivos e metas são determinados por ele mesmo. Vive em um campus arborizado e tranqüilo, longe da poluição e da agitação. Seus encontros sociais envolvem conversas inteligentes sobre temas relevantes. Desobrigado de olhar para o tedioso presente, concentra-se em desvendar o passado e mirar o futuro. De tempos em tempos, para ampliar seus horizontes, tem direito a um período sabático, durante o qual, com apoio de uma agência governamental, leva sua família para a Europa ou para os Estados Unidos. É reconhecido por seus pares e pela sociedade, que o têm na mais alta conta por sua sapiência e dedicação desinteressada ao bem comum. Afinal, ajuda a edificar os pilares do nosso progresso tecnológico e a formar nossa futura elite intelectual.

Essa imagem idílica pode ser observada em Harvard, Oxford e Cambridge ou, mais provavelmente, nas películas de Hollywood que romanceiam a vida nessas universidades. No entanto, a realidade parece caminhar em outra direção. Em renomadas instituições de ensino locais o mato cresce, o ar-condicionado não funciona, as mentes brilhantes deram lugar a criaturas conformistas e opacas, e a vida acadêmica assemelha-se cada vez mais ao trabalho em uma linha de montagem fordista, com capatazes, metas e uma irritante burocracia.

Conseqüência: cresce o descontentamento com as condições de trabalho e as pressões por produtividade na torre de marfim. Parte da revolta deve-se à reação usual a mudanças. No entanto, há também uma preocupação legítima com um sistema caro, pouco produtivo e que apresenta efeitos colaterais preocupantes, como a multiplicação de mestres e doutores ineptos e a proliferação de artigos científicos que nunca serão lidos.

Uma pesquisa publicada recentemente por Otacílio Antunes Santana, do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Pernambuco, explora outra dimensão preocupante da mesma questão: o efeito das condições de trabalho sobre a saúde dos docentes de pós-graduação. Seu ponto de partida foi a constatação do aumento de pedidos de licenças médicas, principalmente aquelas relacionadas a sintomas ou conseqüências de doenças cardiovasculares.

Santana analisou dados de 540 professores de seis faixas etárias, entre 36 e 65 anos. Suas conclusões fazem eco a um debate emergente na academia brasileira, acerca da pressão por produção científica e pela formação de mestres e doutores. A pesquisa comprovou que, quanto maior o número de publicações científicas e o número de orientandos, maior o número de intervenções cardíacas, doenças coronárias e acidentes vasculares cerebrais. Em suma, trabalhar nessas condições faz mal. O quadro é agravado, segundo Santana, pela falta de dieta equilibrada, de atividades físicas e acompanhamento médico regular dos docentes. Nas mais diversas latitudes e longitudes, o modelo tradicional de universidade está sendo criticado. Acelerar a linha de montagem e produzir mais mestres, doutores e artigos científicos é uma resposta simples para o desafio que se coloca, mas parece estar matando os operários e prejudicando a qualidade da produção. Pode ser mais um marco da passagem da era da elite bem pensante para a da pesquisa burocrática, conduzida por operários do conhecimento, uma etapa que talvez ainda resulte em ciência, mas por enquanto apenas mascara um sistema caro, improdutivo e insalubre.

Publicado na revista Carta Capital, edição nº 680

* Thomaz Wood Jr. é professor da FGV e articulista das revistas Carta Capital e Exame.

Manobras ideológicas – Luiz Gonzaga Belluzzo

Na Carta Capital

Reverenciado jornal de negócios e economia, o Financial -Times -dedicou-se a especular os destinos do capitalismo depois da crise que sacudiu o planeta. Publicada ao longo da semana, a série Capitalism in Crisis -reúne artigos e comentários de empresários, -banqueiros, políticos e economistas.

O jornal discorda dos que pretendem abolir a palavra capitalismo de seu dicionário. Não aceita a parolagem de ideólogos e fanzocas que executam contorcionismos conceituais para evitar a conexão entre a crise e o capitalismo. Para essa turma, imagino, a derrota do socialismo tornou inútil o conceito que designava o sistema triunfante. Trata-se de um estranho jogo de oposições em que a morte do adversário confere nova identidade ao sobrevivente. No baile de máscaras dos conservadores, o capitalismo é identificado à propensão humana natural para a troca e para a obtenção de vantagens materiais. São impulsos inatos do homem que a sociedade não pode sufocar. Não há alternativa, diria a senhora Thatcher.

Os adversários e detratores do capitalismo brotam como cogumelos no terreno adubado pela crise e pela impotência das lideranças democráticas. Nesses arraiais, a plasticidade desse modo de produção é surrupiada pela ideia de que afinal ele é sempre o mesmo e seu destino inexorável será a derrocada final, afirmada e reafirmada pelas velhas teorias do colapso. Os críticos à esquerda imaginam estar prestando homenagem à boa tradição de seu pensamento, cedendo passo a supostos automatismos e inevitabilidades que estariam implícitos na dinâmica do capitalismo.

Essas concepções ossificadas – à direita e à esquerda – deixam de examinar o capitalismo como uma forma histórica de relações econômicas, sociais e políticas que se reproduzem num movimento incessante de diferenciação e autotransformação. Sob o véu do determinismo, essas manobras ideológicas escondem as incertezas embutidas no jogo entre a crise da estrutura socioeconômica e as conjunturas marcadas pela intensificação da luta política. As manifestações dos ocupantes revelam que o mal-estar se dissemina pelo mundo desenvolvido. Naturalmente, o desconforto dos que deploram a desigualdade escandalosa e protestam contra a prepotência da finança não é causado apenas pela figuração das privações que o futuro lhes promete.

É preciso dizer mais. No capitalismo da falta de alternativas proclamado pela senhora Thatcher, as relações entre o político e o econômico foram ordenadas de modo a remover quaisquer obstáculos à expansão da grande empresa e do capital financeiro internacionalizado. O processo de mundialização da concorrência desencadeou uma nova onda de centralização de capitais e estimulou a dispersão espacial das funções produtivas e a terceirização das funções acessórias ao processo produtivo. Esse movimento foi acompanhado por uma intensa “apropriação” das decisões e informações pelo “cérebro” da finança. Os mercados de capitais tornaram-se, ao mesmo tempo, mais poderosos na formação das decisões e, contrariamente ao que se esperava, menos “eficientes” na definição dos critérios de avaliação do risco.

A nova finança e sua lógica se notabilizaram por sua capacidade de impor vetos às políticas macroeconômicas. A despeito do desemprego e da desigualdade escandalosa, as ações compensatórias dos governos sofrem fortes resistências das casamatas conservadoras. A globalização, ao tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos grupos privilegiados, desarticulou a velha base tributária das políticas keynesianas, erigida sobre a prevalência dos impostos diretos sobre a renda e a riqueza.

A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, vem sendo contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica de celebração do individualismo que se opõe a qualquer interferência no processo de diferenciação da riqueza, da renda e do consumo efetuado através do mercado capitalista. Os programas de redistribuição de renda, reparação de desequilíbrios regionais e assistência a grupos marginalizados têm encontrado forte resistência dentro das sociedades. Mais um ardil da razão: o novo individualismo construiu sua base social na grande classe que emergiu da longa prosperidade e das políticas igualitárias que predominaram na era keynesiana.

Agora em escombros, as classes médias, sobretudo nos Estados Unidos, ziguezagueiam entre os fetiches do individualismo e as realidades do declíno social e econômico. A individualização do fracasso já não consegue ocultar o destino comum reservado aos derrotados pela desordem do sistema social. O reconhecimento da crise como um fenômeno social é inevitável. E esse reconhecimento torna-se mais disseminado quando o desemprego e a desigualdade prosperam em meio à teimosa celebração do sucesso de alguns indivíduos.

Até Beethoven comenta o livro A Privataria Tucana

Do Blogs do Além

Blog do Beethoven

NÃO ADIANTA GRITAR QUE ELA É SURDA

Sim, até eu já escutei ai se eu te pego… O método da insistência derrota qualquer barreira fisiológica.

Que época paradoxal. Nunca houve tanta música disponível e tantos músicos em atividade. Mas nas rádios, nas pistas, nos fones, celulares só se escuta delícia, delícia…

Antes de mais nada, quero dizer que gostei da música cantada por Teló. Não a acho o mal do século, como muitos têm dito no Facebook e Twitter. A estes peço calma. O século está apenas começando.

A música tem qualidades. Faz parte de um gênero incompreendido: o sertanejo universitário. O sertanejo tem apanhado da crítica e o universitário da polícia paulista.

Invejo Teló. Demorei bem mais tempo para ter um clássico. E nunca um jogador famoso coreografou uma sonata minha.

Como um dos primeiros românticos e apaixonado pelo lirismo dramático, implico um pouco com o verso que diz:

A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda

Poderia ter sido escrito assim:

Um conjunto de pessoas com afinidades se pôs a bailar
Quando transcorreu diante de meus olhos a mais formosa criatura

Já vejo todo mundo cantando-a desse jeito no carnaval.

Além do mais, tenho uma ligação com a música popular e sou chegado numa sanfona. Luiz Tatit e José Miguel Wisnik, na canção Baião de Quatro Toques, radiografaram bem esse aspecto. Conhece? http://migre.me/7umqP. Nela eles usaram a estrutura de minha mais famosa sinfonia para fazer um baião.

Uma parte da letra diz assim, ó:

Pra quem compôs, pra quem tocou 
e pra quem ouve 
É o destino que sempre se quis 
É uma quinta sinfonia de Beethoven
Que decantou e só ficou a raiz

Aliás, gostaria que soubessem que a 5ª Sinfonia nem é a preferida de meu repertório. Gosto mais da Nona de Beethoven, que compus em homenagem à minha avó italiana.

Agora queria mudar de assunto. Pulemos de faixa. A motivação inicial deste post foi a minha audição, que anda meio esquisita.

Esses dias, sentei-me na frente da tevê para assistir à implosão de um moinho. Olha o que provoca o recesso do futebol. Achei que ia só ver, mas fiquei feliz ao notar que eu estava reconhecendo o som de um apito de segurança. Logo depois, para minha surpresa, ouvi também o que parecia ser uma explosão. Mas o prédio não caiu, ficou quase intacto. A julgar pela imagem, o ouvido me enganou. Fiquei com dó maior do prefeito.

Mas o fato que me tem deixado intrigado depois que voltei a ouvir algumas coisas é o enorme silêncio da grande mídia em relação ao lançamento do A Privataria Tucana. Será que só eu escutei o barulho retumbante que o livro provocou nas redes sociais? Não pode ser. Ignorar esses sons é um tiro audível no pé. Não sou especialista em comunicação, meu negócio é música. Mesmo assim recomendo aos que silenciaram até agora que escutem o conselho de Teló: tomem coragem e comecem a falar. Senão vocês se matam.

Democracia e capitalismo – Mino Carta

Na Carta Capital

No final de 2008 pareceu que o segundo muro havia ruído 19 anos após a queda do primeiro em Berlim. Este para selar o colapso do chamado socialismo real, aquele da main street do capitalismo para precipitar o enterro do neoliberalismo. Enganaram-se os esperançosos analistas, apressados. O célebre wall resistiu e o mercado prosseguiu no comando, perdão, o MERCADO, deus último e famigerado.

A hora trágica da incompatibilidade

Leio um texto exemplar de Carlo Azeglio Ciampi, límpido funcionário do Estado, ex-presidente do Banco Central da Itália, ex-primeiro-ministro, ex-presidente da República. Diz ele: “Desafiaram a lei moral que permite distinguir a comunidade humana da selva (…) fizeram da finança, aquela que, conforme os manuais de economia, está a serviço da produção, da troca, do desenvolvimento, uma selva onde se satisfazem apetites ferinos, onde impera a lei não escrita do desprezo por todos os valores, afora o ganho, o sucesso, o poder”.

Ciampi fala de uma tormenta que dura há três décadas e confere ao capitalismo “um rosto desumano”. A crise global atiça, em diferentes instâncias, o debate sobre o estágio atual do capitalismo. Das lideranças das forças produtivas aos intelectuais de diversos calibres e aos analistas de publicações de alto nível, como The Economist, Foreign Affairs, Financial Times. Em questão, o modelo político e econômico ocidental, a partir de mudanças consolidadas. A globalização com seus efeitos mais recentes, por exemplo. Ou o galope do avanço tecnológico.

É do conhecimento até do mundo mineral que conseguimos globalizar a desgraça ao aprofundar os desequilíbrios entre ricos e pobres em todas as latitudes de uma forma bastante peculiar. Deixemos de lado o Brasil, reservado, como se diz de certos elementos de receitas culinárias. Sobram países pobres, ou mesmo paupérrimos, e que continuam como tais, e países ricos cada vez mais empobrecidos. A constatação inevitável nos leva a validar a tese de que a riqueza foi transferida para algumas corporações e seus mandachuvas. São eles os donos do mundo. A senhora Merkel, o senhor Sarkô, tentam se dar ares de superioridade, mas não convencem.

É a vitória dos especuladores e de -suas artimanhas, e não era com isso que sonhava Adam Smith. Ou, muito tempo antes, o banqueiro genovês que financiou a construção dos barcos destinados ao transporte das tropas da Primeira Cruzada. As consequências do neoliberalismo, deste selvagem fundamentalismo, não põem em xeque somente o sistema econômico mundial, mas também a própria democracia, a qual não se satisfaz com a -liberdade para buscar a igualdade. Ao menos, a igualdade de oportunidades.

O mundo mineral continua a confirmar o senhor De La Palisse. O neoliberalismo promove o predador espertalhão, ou, por outra, a lei da selva, a acentuar a desigualdade. E onde fica a democracia? Daí a preocupação de quem ainda a considera indispensável à realização de uma sociedade que se pretenda justa. Chegou a hora de retirar o Brasil da reserva em que me permiti colocá-lo, à espera de completar a receita. O Brasil tende a sofrer menos com a crise, talvez muito menos, do que a turma outrora seleta do ex-Primeiro Mundo.

O País deu e dá importantes passos à frente nos últimos nove anos. Começa finalmente a aproveitar suas extraordinárias potencialidades, os generosíssimos presentes da natureza, graças a governos contrariados pela desigualdade. Como haveria de ser, aliás, todo capitalista consciente das suas responsabilidades de cidadão de uma nação democrática. Podemos crer que, de fato, somos uma nação democrática?

O Brasil é, a seu modo, um caso à parte, como alguns outros países. Carecemos da passagem pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa. A dita elite brasileira é uma das mais atrasadas do mundo. Nunca usufruímos de um Estado de Bem-Estar Social e os sistemas da indiscutível atribuição estatal, educação, saúde e transporte público, são além de bisonhos. São Paulo tem a segunda maior frota de helicópteros do mundo e uma enorme área do País não conta com saneamento básico. Nesta moldura, a democracia há de lutar bravamente para se afirmar.

A vantagem quem sabe esteja no seguinte ponto: a democracia perde terreno para tantos que a conheceram e praticaram, nós temos largo espaço à frente para conquistá-la.