Tarso Lover

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O meu amigo, grande jornalista e escritor, Palmério Dória escreveu um texto imperdível sobre Tarso de Castro, jornalista e editor do O Pasquim, que serviu de inspiração para meu nome. Fui autorizado por Palmério a publicar o texto:

TARSO LOVER
Palmério Dória*

Meados da década de 1980. Por volta das 11 da noite, Tarso de Castro abre a porta de blindex do Florentino carioca e passa como um bólido pela mesa em que estamos sentados, eu e Rubem Braga, com o uniforme de sempre: camisa social neutra, manga arregaçada, fora da calça, sapato mocassim. O genial cronista comenta, num tom representado de despeito:

— Esse é o único homem que eu invejo. Pegou todas as mulheres que eu queria pegar.
Rubem Braga, hein?, que namorou Tônia Carrero. Na volta do banheiro, senta conosco. João, o garçom instantâneo, serve-lhe “társica” dose de Grant’s. Tarso já pôs o pequeno João Vicente – uma homenagem a Jango –para dormir em sua casa no Jardim Botânico e está pronto para a noite. 

Outros começam a chegar: José Lewgoy, Fernando Sabino, acompanhado da mulher Lígia, que inspirou música de Tom Jobim, a amiga dela Lúcia Pedroso, eterna namorada de Juscelino Kubitschek, Jaime Lerner, Hélio Fernandes Filho, Fred Suter, Anna Maria Tornaghi, Agildo Ribeiro, Lúcio Mauro, Paulo Cesar Peréio, Hélio Fernandes Filho, Chico Caruso, Fernando Balbi, o artista plástico Angelo de Aquino… Uma constelação. E boa parte das 15 pequenas mesas do bar se transforma em um só.

Era uma noite comum no “boteco”. Há algum tempo o Antonio’s tinha virado mausoléo do bêbado desconhecido, e o Florentino, na última quadra da rua San Martin, tornou-se um dos principais redutos da boemia carioca e QG de Tarso, que fazia dos bares uma extensão das redações que comandava.

Mas foi no Antônio’s, bistrô também no Leblon, que Tarso conquistou uma das mulheres mais bonitas da década de 1970, a atriz e fotógrafa Candice Bergen, estrela de Ricas e Famosas – que até recentemente podia ser vista na TV na série americana Justiça Sem Limites. Foi assim:

Ele chega no Antonio’s, vê Candice Bergen com sua entourage, dá meia volta, pega um táxi, vai a uma floricultura, compra a corbeille mais linda com um dinheiro que não tem, volta para o Antonio’s, entra no bistrô, fica diante da musa e arranha em inglês: “Para a mulher mais bela do mundo”. Ela manda ele sentar e dali já saem namorados.
Dali pra frente, o folclore é imenso. Tome duas histórias:

Tarso vai encontrar Candice filmando na Bahia. Do hotel em que se hospedam, quando a namorada vai tomar banho, liga eufórico para o velho amigo João Ubaldo Ribeiro, em plena faina num jornal em Salvador:

— João Ubaldo, eu estou hospedado aqui num hotel com a Candice Bergen.

E João Ubaldo, incrédulo, devolve.

— E eu estou aqui com a Sophia Loren.

Na onda da anistia, Tarso foi encontrar o amigo Leonel Brizola em Nova York, onde o entrevistou para o Enfim, semanário que acabava de lançar. Brizola, claro, foi capa do tabloide. E havia um crédito miúdo da fotógrafa: Candice Bergen. É o tal charme da aventura.

No Florentino como no Antonio’s, qualquer que fosse o grupo, Tarso dava o tom do papo. Clown, o magnífico. Mesmo quando não estava presente, alguém se encarregava de alimentar o folclore romântico em torno da figura dele.

Certa noite chega com Zezé Motta. A atriz, deslumbrante, no auge do sucesso. Os dois enamorados iniciam Tetê-à-tête numa das tais mesinhas. À vontade, Tarso descalça o mocassim e começa a engavetar seus pés com as pernas de Zezé. De repente, não mais que de repente, como diria seu querido amigo Vinicius de Morais, solta um urro. Todos imaginam enfarte fulminante. Na operação, Tarso desloca o joelho e tem que sair carregado para o Hospital Miguel Couto, no Leblon. Ainda aos urros.

Na maioria das vezes, no entanto, Tarso chega desacompanhado. E à medida que a noite avança, fica com todos os sentidos em alerta para não permanecer assim, de olho nas avulsas, amigas ou futuras amigas. É muito comum alguma beldade lhe oferecer carona – ele não dirige mais; despachou recentemente um Dodge Dart caindo aos pedaços. Pode ser o começo de um novo romance.

A persistência de Tarso é lendária. Encerrava suas colunas na revista Afinal com um pedido: “Xuxa, dá pra mim!”. Foi confrontado certa vez por um estudante durante palestra em Belo Horizonte, que lhe cobrou compostura. Perguntou se não pegava mal “cara que participou tão intensamente da campanha das Diretas se prestar a esse papel”. Tarso coçou o queixo e devolveu com outra pergunta: “E se colar?”. A plateia aplaudiu em peso.

No fundo, no fundo, era variação de tática aplicada ainda em sua coluna na Última Hora para conquistar a socialite Sílvia Amélia Chagas Marcondes Ferraz, neta do sanitarista Carlos Chagas: “Estou a 200 metros de Silvia Amélia”. “Hoje, fiquei apenas 50 metros”. “Hoje, estou a 10 metros”. Houve uma disputa entre Tarso e Roberto, que teria inspirado a canção Detalhes. O rei da censura às biografias nega que Tarso seja o cara do trecho ”Se um outro cabeludo aparecer na sua rua”. O certo é que os dois tiveram cada qual seu romance com a Pantera de Ibrahim Sued. Silvia Amélia hoje é
baronesa Silvia Amélia de Waldner. Vive em Paris, casada com o herdeiro de uma das famílias mais tradicionais da França.

Tarso e Roberto Carlos se davam bem, mas uma situação no bar do Hippopotamus, na Praça Nossa Senhora da Paz, podia pôr essa relação em risco. Certa época, eu e Tarso íamos ao night club quase toda noite. O semanário O Nacional, sua derradeira aventura jornalística. Como Ricardo Amaral amava Tarso, tínhamos boca livre ali.

Myriam Rios, então casada com Roberto Carlos, diverte-se ali com amigas e o irmão. Roberto está em excursão na Venezuela. Myriam festeja a entrada de Tarso, que senta ao lado dela. Começa discreta troca de carinhos. Quando ficam mais intensas, o irmão sugere que partam. Ela faz que não ouve. Ele levanta-se, toma um braço da irmã, e fala no pé do ouvido dela: “Você não vai estrepar a gente!” (o irmão não disse exatamente estrepar). Myriam em pé, Tarso toma o outro braço, dando início a um cabo de guerra em que o irmão leva a melhor.

Tarso falava com ternura de todas as suas namoradas célebres (além das acima citadas, Leila Diniz e Regina Lecléry, que também namorou John Kennedy) e esposas (Barbara Oppenheimer e Gilda, mãe do João Vicente da Porta dos Fundos). E elas retribuíam com a mesma ternura.

Meses depois da morte de Tarso, topo com Betsy Monteiro de Carvalho saindo do banheiro do Florentino. Ali mesmo, em pé, emocionada, ela faz revelações. Conta que a casamento dela com Olavo Monteiro de Carvalho acabou no dia em que o empresário ouviu um papo dos dois na extensão. Acho que Betsy foi a última das deslumbrantes namoradas de Tarso.

*texto completo na IstoÉ Gente, junho, 2014

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