A mão visível e o Capitalismo de Estado (The Economist – Carta Capital)

A Carta Capital de 15.02.2012 publicou interessante matéria do “The Economist” sobre o Capitalismo de Estado com o título “A mão visível”.

A reportagem de 15 páginas informa que a crise do capitalismo liberal ocidental coincidiu com a ascensão de uma poderosa nova forma de capitalismo de Estado nos mercados emergentes: “A crise do capitalismo liberal foi agravada pela ascensão de uma poderosa opção: o capitalismo de Estado, que tenta fundir os poderes oficiais com os poderes do capitalismo. Ele depende de o governo escolher vencedores e promover o crescimento econômico, mas também usa instrumentos capitalistas como o lançamento de ações das companhias estatais nas bolsas e abraça a globalização”.

“O Estado chinês é o maior acionista das 150 maiores empresas do país e determina os rumos de milhares de outras.”

“As 13 maiores companhias petrolíferas, que entre si possuem mais de três quartos das reservas mundiais de petróleo, são todas controladas pelo Estado. Assim como a maior companhia de gás natural do mundo, ar ussa Gazprom. Estatais de sucesso encontram-se em quase todos os setores”.

“As empresas estatais somam 80% do valor do mercado de ações na China, 62% na Rússia e 38% no Brasil”

O texto informa que o mundo rico ainda tem um grande número de empresas controladas pelo Estado: a França tem 85% da EDF energia, o Japão tem 50% da Japan Tabacco e a Alemanha tem 32% da Deutsche Telekom.

O artigo fala do Brasil:

“O Brasil é o membro mais ambíguo do time do capitalismo de Estado: uma democracia que também adota muitas características do capitalismo anglo-saxão. Mas vale a pena examiná-lo por duas razões. Primeiro, é um catavento do capitalismo de Estado, uma liderança nas privatizações na década de 1990 que agora força sua maior mineradora, a Vale, a segurar trabalhadores que não precisa e obriga empresas menores a embarcar em uma consolidação subsidiada. E segundo, inventou uma das ferramentas mais afiadas do repertório do capitalismo de Estado.

O Brasil passou a maior parte de sua história moderna a perseguir uma modernização conduzida pelo Estado. Uma pesquisa no começo da década de 1980 mostrou que o País tinha mais de 500 EEs. O Brasil lançou um esforço de privatização nos anos 1990 para lidar com a hiperinflação, déficits em disparada e uma esclerose generalizada. Mas recentemente ele moveu-se em uma nova direção. O governo despejou recursos em um punhado de campeãs estatais, particularmente de recursos naturais e telecomunicações. Também criou um novo modelo de política industrial: substituiu a propriedade governamental direta por indireta por meio do Banco nacional de Desenvolvimento Econômico e Social(BNDES) e sua subsidiária de investimentos (BNDESPar) e trocou o controle majoritário por minoritário ao adquirir ações de uma ampla gama de diferentes empresas. Sergio Lazzarini, do (Insper) Instituto de Ensino e Pesquisa, e Aldo Musacchio, da Harvard Business School, batizaram o modelo de “Leviatã como Acionista Minoritário”.

O modelo de acionista minoritário tem várias vantagens. Limita a capacidade do Estado de usar as EEs para recompensar clientes ou conduzir políticas sociais. Os acionistas privados têm poder suficiente para criar barulho. Mas também dá ao Estado mais influência em troca do seu dinheiro. Em 2009, as participações da BNDESPar valiam 53 bilhões de dólares, ou apenas 4% do mercado de ações. Mas o Estado tinha uma grande influência em todo o Brasil corporativo. Os professores Sergio Lazzarini e Aldo Musacchio também mostraram, em um estudo detalhado de 296 empresas negociadas na Bolsa de São Paulo, entre 1995 e 2003, que esse modelo pode aumentar o retorno das companhias sobre seus ativos. As empresas brasileiras normalmente sub investem em equipamentos para aumentar a produtividade, porque os mercados de capital são muito subdesenvolvidos. As participações estatais as proveem de recursos que não poderiam conseguir em outros lugares.

Mas essa astuta versão de capitalismo de Estado está atualmente correndo perigo de exceder suas possibilidades. A descoberta da Petrobras, em novembro de 2007, de enormes reservas de petróleo enterradas profundamente sob o leito do Atlântico encheu a cabeça dos políticos de sonhos sobre grandes projetos. A mudança no equilíbrio mundial de poder dos Estados Unidos para a China também ajudou a persuadir muitos brasileiros de que o futuro está no capitalismo de Estado. O resultado foi um surto de intervencionismo insensato. O governo está tentando forçar a Petrobras a usar caros fornecedores locais de equipamentos apesar de dúvidas quanto à sua competência. Ele tirou Roger Agnelli de seu cargo de CEO da Vale a despeito de seu formidável histórico. E também deu para criar campeãs nacionais por meio de fusões forçadas: a BRF (Sadia e Perdigão)no setor de alimentação; a Oi (que foi obrigada a comprar a Brasil Telecom)nas telecomunicações; a Fibria (VCP e Aracruz) no papel e celulose. Até os modelos mais sofisticados de capitalismo de Estado não estão a salvo de políticos excessivamente zelosos.

Todas essas variedades de capitalismo de Estado têm uma coisa em comum: os políticos têm muito mais poder do que sob o capitalismo liberal. Em regimes autoritários, eles podem reestruturar setores inteiros com uma canetada. Até mesmo nas democracias como o Brasil eles podem dizer às maiores empresas o que fazer.”

O texto ainda diz que é perfeitamente possível para o capitalismo de Estado funcionar bem em algumas áreas (como infraestrutura) e mal em outras (como bens de consumo), e que ele estimule o crescimento em um determinado estágio de desenvolvimento e prejudique em outro, mas suas conquistas óbvias são nas áreas de infraestrutura, como as áreas de hidrelétricas, ferrovias de alta velocidade e aeroportos. A rede de telefonia móvel da China é a maior do mundo, com menos problemas de eficiência do que nos EUA. Dois terços doas empresas dos mercados emergentes que entraram na lista Fortune 500 são estatais.

Veja a matéria completa em inglês no site do The Economist

Veja a matéria quase completa em português:

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A crise do capitalismo liberal ocidental coincidiu com a ascensão de uma poderosa nova forma de capitalismo de Estado nos mercados emergentes, diz Adrian Wooldridge

Beatrice Webb cresceu como uma crente fervorosa nos mercados livres e no governo limitado. Seu pai era um magnata self-made man das ferrovias e sua mãe, uma ardorosa adepta do livre comércio. Um dos amigos mais próximos de sua família era Herbert Spencer, o principal filósofo do liberalismo vitoriano. Spencer afeiçoou-se à jovem Beatrice e a regalou com preleções sobre a magia do mercado, a sobrevivência dos mais aptos e as perversidades do Estado. Mas, enquanto crescia, Beatrice começou a ter dúvidas. Por que o Estado não deveria intervir no mercado para mandar as crianças que limpavam chaminés às escolas, ou garantir a subsistência dos famintos e desempregados ou socorrer indústrias com problemas? Com o tempo, Beatrice tornou-se uma das principais arquitetas do Estado de Bem-Estar Social e uma destacada apologista do comunismo soviético.

A discussão dos méritos relativos do Estado e do mercado que preocupava a jovem Beatrice tem grassado desde então. Entre os anos 1900 e 1970, os pró-estatistas tiveram o vento a seu favor. Os governos começaram por tecer as redes de segurança social e terminaram nacionalizando enormes nacos da economia. Contudo, entre 1970 e 2000, os defensores do livre mercado voltaram à cena. Ronald Reagan e Margaret Thatcher lançaram uma moda em todo o Ocidente de privatização de indústrias estatais e de enxugamento do Estado de Bem-Estar Social. A União Soviética e seus satélites colapsaram em ruínas.

A era do triunfalismo do livre mercado deu uma parada brusca e a crise que destruiu o Lehman Brothers em 2008 agora está engolfando boa parte do mundo rico. Os países mais frágeis, como a Grécia, já mergulharam no caos. Até os poderosos Estados Unidos viram a renda do trabalhador médio contrair nos últimos três anos. O think-tank canadense Fraser Institute, que tem medido o progresso da liberdade econômica nas últimas quatro décadas, viu seu”índice de liberdade” global subir implacavelmente de 5,5 (de um máximo de 10), em 1980, para 6,7 em 2007. Mas, a partir de então, ele começou a retroceder.

A crise do capitalismo liberal foi agravada pela ascensão de uma poderosa opção: o capitalismo de Estado, que tenta fundir os poderes oficiais com os poderes do capitalismo. Ele depende de o governo escolher vencedores e promover o crescimento econômico, mas também usa instrumentos capitalistas como o lançamento de ações das companhias estatais nas bolsas e abraça a globalização. Elementos do capitalismo de Estado já foram vistos no passado, por exemplo, na ascensão do Japão na década de 1950 e até na Alemanha nos anos 1870, mas nunca antes ele operou em tal escala e com instrumentos tão sofisticados.

O capitalismo de Estado pode reivindicar para o seu time a grande economia mais bem-sucedida do mundo. Durante os últimos 30 anos, o PIB da China cresceu a uma taxa média de 9,5% ao ano e o seu comér- | cio internacional, em 18% em termos de volume. Nos últimos dez anos, o seu PIB mais que triplicou, para 11 trilhões de dólares. A China tirou do Japão o posto de segunda maior economia do mundo e superou os Estados Unidos como o maior mercado mundial de bens de consumo. O Estado chinês é o maior acionista das 150 maiores empresas do país e determina os rumos de milhares de outras. Ele conforma o conjunto do mercado ao administrar sua moeda, direcionar dinheiro para setores favorecidos e trabalhar em proximidade com as companhias chinesas no exterior.

O capitalismo de Estado também pode reivindicar algumas das empresas mais poderosas do mundo. As 13 maiores companhias petrolíferas, que entre si possuem mais de três quartos das reservas mundiais de petróleo, são todas controladas pelo Estado. Assim como a maior companhia de gás natural do mundo, ar ussa Gazprom. Estatais de sucesso encontram-se em quase todos os setores. A China Mobile, gigante da telefonia móvel, tem 600 milhões de clientes. A Saudi Basic Industries Corporation é uma das indústrias químicas mais lucrativas do mundo. O Sberbank, da Rússia,é o terceiro maior banco da Europa. A Dubai Ports é o terceiro maior operador portuário mundial. A companhia aérea Emirates cresce 20% ao ano.

O capitalismo de Estado está em marcha, transbordando de dinheiro e encorajado pela crise no Ocidente. As empresas estatais somarn 80% do valor do mercado de ações na China, 62% na Rússia e 38% no Brasil (gráfico acima). Elas responderam por um terço do investimento direto estrangeiro no mundo emergente entre 2003 e 2010 e urna porcentagem ainda maior de suas aquisições mais espetaculares, assim como uma proporção crescente das maiores empresas: três companhias estatais chinesas estão entre as dez maiores do mundo em faturamento, ante apenas duas europeias. Acrescente as proezas dos fundos de riqueza soberana à balança e começa a parecer que o capitalismo liberal está em retirada por toda parte: o Edifício Chrysler de Nova York (ou pelo menos 90% dele) caiu sob o controle de Abu Dabie o time de futebol Manchester City, do Catar. Os chineses têm uma expressão para isso: “O Estado avança enquanto o setor privado se retira”; Isso agora está acontecendo em escala global.

Esta reportagem especial vai focar o novo capitalismo de Estado do mundo emergente, em vez de o velho capitalismo de Estado na Europa, pois ele reflete o futuro em vez do passado. A reportagem vai olhar principalmente para a China, Rússia e Brasil. Os protestos recentes na Rússia contra a armação nas eleições parlamentares pelo primeiro-ministro Vladimir Putin levantaram dúvidas sobre a estabilidade política do país e, em consequência, sobre o futuro do capitalismo de Estado ali, mas, por enquanto, nada parece ter mudado. índia não será considerada em detalhe porque, embora tenha algumas das maiores estatais do mundo, elas costumam ser uma herança do Raj britânico e não campeãs nacionais em ascensão.

O capitalisrno de Estado atual também representa um significativo avanço sobre seus predecessores em vários aspectos. Primeiro, ele está se desenvolvendo em uma escala muito mais ampla: somente a China possui um quinto da população mundial. Segundo, se organiza muito mais rápido: a China e a Rússia desenvolveram suas fórmulas apenas na última década. E, terceiro, tem instrumentos muito mais sofisticados à disposição. O Estado moderno é muito mais poderoso do que qualquer coisa que tenha existido antes: por exemplo, o Partido Comunista Chinês possui fichas sobre um vasto número de seus cidadãos, e é bem melhor no uso de instrumentos capitalistas. Em vez de entregar indústrias para burocratas ou amigos, transforma-as em empresas geridas por administradores profissionais.

ore torno da história Esta reportagem especial vai lançar um olhar cético sobre o capitalismo de Estado. Ela vai levantar dúvidas sobre a capacidade do sistema de capitalizar seus sucessos quando pretende inovar em vez de apenas ganhar terreno, e de se corrigir quando toma um rumo equivocado. Administrar as contradições do sistema quando a economia está crescendo rapidamente é uma coisa; fazer isso em uma situação desfavorável é outra, bem diferente. E o capitalismo de Estado é assolado por compadrio e corrupção.

Mas a reportagem também vai argumentar que o capitalismo de Estado é o mais formidável inimigo que o capitalismo liberal já enfrentou.

Os capitalistas de Estado estão errados ao alegar que combinam o melhor dos dois mundos, mas eles aprenderam a evitar algumas das armadilhas das tentativas anteriores de fomentar o crescimento pelo Estado. E eles estão florescendo nos dinâmicos mercados do mundo emergente, que têm crescido a uma média de 5,5% ao ano ante 1,6% no mundo rico durante os últimos anos, e devem responder por metade do PIB mundial em 2020.

O capitalismo de Estado parece ser a nova tendência. O governo brasileiro forçou a saída do presidente da Vale, um agigante da mineração, por ter uma visão excessivamente independente. O governo francês criou um fundo de riqueza soberana. O governo sul-africano fala abertamente em nacionalizar empresas e criar campeãs nacionais. E jovens economistas de instituições multilaterais discutem uma nova política industrial.

Isso levanta algumas questões capciosas sobre o sistema econômico mundial. Como garantir um sistema de comércio justo se algumas companhias desfrutam do apoio, aberto ou dissimulado, do governo? Como evitar que preocupações legítimas com equidade descambem para a xenofobia e o protecionismo? Alguns dos maiores conflitos comerciais dos últimos anos-por exemplo, quanto à tentativa da China National Offshore Oil Corporation de comprar a americana uno cal, em 2005, e quanto à

compra de vários portos americanos pela Dubai Ports -envolveram empreendimentos estatais.É provável que haverá muitos outros no futuro.

A ascensão do capitalismo de Estado também está desfazendo muitas das suposições quanto aos efeitos da globalização.Kenichi Ohmae afirmou que o Estado-Nação estava acabado. Thomas Friedman argumentou que os governos deveriam vestir a camisa de força dourada da disciplina de mercado. Naomi Klein observou que as maiores empresas do mundo eram maiores do que muitos países. E Francis Fukuyama asseverou que a história tinha terminado com o triunfo do capitalismo democrático.

Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group, uma consultoria de riscos políticos, alega que é”o fim do livre mercado”em livro de mesmo título. Ele exagera, mas está certo em dizer que um número surpreendente de governos, particularmente no mundo emergente, aprende a usar o mercado para promover objetivos políticos.Amão invisível do mercado está dando lugar à mão visível, e às vezes autoritária, do capitalismo de Estado.

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Os novos mestres do universo

O alcance global do capitalismo de estado

COMO AS EMPRESAS ESTATAIS ESTÃO SE DIFUNDINDO

A sede da China Central Television,projetada pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas, parece um monstruoso invasor espacial assentado sobre Pequim. A sede da China National Offshore Oil Corporation lembra um navio-tanque emergindo do mar reluzente.

Ela foi projetada pela Kohn Pedersen Fox, um escritório internacional de arquitetura, e situa-se diretamente em frente do Ministério das Relações Exteriores chinês. Por todo o centro de Pequim, veem-se companhias estatais erguer gigantescos monumentos a si mesmas, a refletir seus enormes poder e visão como agentes da modernização.

Essa visão não está confinada a Pequim. A Petronas, estatal de petróleo da Malásia, construiu uma torre de 88 andares no coração de Kuala Lumpur. No colossal novo Moskva City Business Complex, em Moscou, dois brilhantes arranha-céus situam-selado a lado -as sedes do Sberbank e do VTB, os dois maiores bancos estatais da Rússia. O mais marcante das empresas estatais (EEs) é a sua formidável pujança coletiva no mundo emergente. Elas compõem a maior parte das bolsas de valores da Chinae da Rússiae somam 28 das cem maiores companhias do mundo emergente. É verdade que o setor estatal como um todo está em rápida retração. Ele responde hoje por apenas cerca de um terço do PIB da China e da Rússia, comparado com a sua quase totalidade duas décadas atrás. Mas esse declínio é resultado de um enxugamento seletivo e não de uma liberalização. Os governos têm se livrado dos pequenos a fim de fortalecer seu controle sobre os maiores.

Isso resultou em um par de paradoxos. As EEs ficam mais ricas e poderosas mesmo enquanto o setor estatal como um todo encolhe, e os governos apertam controle dos postos de comando da economia, apesar do crescimento do setor privado. A concentração de poder no círculo interno das EEs ganhou velocidade durante a última década: as 121 maiores EEs da China, por exemplo, tiveram um aumento dos ativos de 360 bilhões de dólares, en12002, para 2,9 trilhões de dólares, em 2010 (embora sua fatia do PIB tenha declinado). E houve um impulso adicional na crise financeira de 2007 e 2008: em 2009, 85% do 1,4 trilhão de dólares em empréstimos bancários da China foram para EEs.

Os governos ficam sofisticados como proprietários. Apenas um punhado de EEs ainda se reporta diretamente a ministérios. A maioria dos governos prefere exercer o controle por meio da propriedade de ações:se tornaram os mais poderosos acionistas em boa parte do mundo em desenvolvimento, da China à Tailândia e da Rússia à Arábia Saudita. Algumas vezes, detêm todas as ações, particularmente em petrolíferas como a Petronas, da Malásia, empresas de transporte como a chinesa Ocean Shipping Company e organizações quase militares como a United Aircraft Corporation, da Rússia. Mas têm preferido diluir a participação. A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento define uma empresa estatal como aquela na qual o Estado possui mais de 10% das ações. Alguns governos dominaram a arte de controlar companhias com participações minoritárias: na Rússia, por exemplo, o Estado manteve “golden shares”em181 empresas.

As EEs ficaram mais produtivas, graças à mistura de um enxugamento criterioso e uma incansável reestruturação. Na China, o retorno sobre ativos aumentou de 0,7%, em 1998, para 6,3%,em 2006 (embora alguns digam que os números enganam). Também se tornaram mais internacionais: empresas que serviam apenas ao mercado doméstico, como a Baosteel e a Shanghai Electric, adentram o cenário global. Esses três desenvolvimentos -métodos sofisticados de controle, uso mais produtivo dos ativos e rápida globalização-caminham lado alado.

O núcleo duro do setor estatal são as petrolíferas nacionais: as 13 gigantes que controlam mais de três quartos das reservas mundiais de petróleo. Os governos continuam a manter mão pesada. O Estado chinês possui 90% das ações da PetroChina e 80% da Sinopec. Poucas companhias preservam a grande tradição de incompetência e contratação excessiva de pessoal patrocinada pelo Estado. A venezuelana Petróleos de Venezuela (PDVSA), que é crucial na máquina de favorecimentos do presidente Hugo Chávez, é um exemplo óbvio. Mais surpreendente é a Pemex, do México, que resistiu com êxito a numerosas tentativas de reforma. A Petronas, da Malásia, progrediu dramaticamente nos últimos cinco anos. A Aramco, da Arábia Saudita, que controla mais de um décimo do petróleo do mundo,etão bem administrada quanto a Exxon Mobil. A monarquia saudita enxugou a força de trabalho, trouxe administradores profissionais, terceirizou serviços auxiliares e formou alianças com companhias internacionais.

O mundo é o quintal deles Mais geralmente, companhias nacionais de energia não se satisfazem mais ao apenas permanecer em casa e extrair petróleo ou gás.

Aventuram-se no exterior de modo a conquistar futuras fontes de energia ou formar alianças com especialistas do setor privado. A Gazprom tem comprado companhias de petróleo e gás por todo o Leste da Europa e na Ásia. Em2008,adquiriu uma participação de 51% na Naftna Industrija Srbije, um a gigante sérvia de energia. As companhias petrolíferas chinesas têm fechado negócios por toda a África:em 2006, a Sinopec comprou um poço de petróleo angolano por 692 milhões de dólares.

O capitalismo de Estado também tem uma coleção de empresas que se situam no polo oposto da relação de propriedade das companhias energéticas: campeãs nacionais que formalmente são de propriedade privada, mas que desfrutam de apoio explícito ou encoberto de seus respectivos governos. As vezes, esses governos preferem exercer sua patronagem a companhia privada depois que ela se torna uma vencedora, ou a uma certa distância porque têm pouca experiência no setor, como na indústria de TI da China. Dos dois jeitos, o resultado final é uma nova classe de estatais: campeãs nacionais que podem não pertencer aos governos, mas ainda assim estão proximamente ligadas a eles.

A chinesa Lenovo gosta de pensar em si mesma como uma empresa privada de computadores, mas a Academia Chinesa de Ciências forneceu o dinheiro inicial para ela (e ainda possui um bocado de ações), e o governo interveio repetidamente para facilitar seu crescimento, inclusive quando ela adquiriu a divisão de computadores pessoais da IBM por 1,25 bilhão de dólares em2004. A brasileira Vale também se considera uma mineradora privada, mas o governo arrata como uma campeã nacional e recentemente levou seu presidente, Roger Agnelli, a se afastar. Há uma longa lista de campeãs nacionais que operam à sombra do Estado, incluindo as chinesas Geelynos automóveis, Huawei nos equipamentos de telecomunicação e haler na linha branca.

A riqueza das nações Os capitalistas de Estado não apenas tocam empresas, eles também administram enormes reservas de capital na forma de fundos de riqueza soberana (FRSs). O Leviatã está se tornando um capitalista financeiro além de um capitão da indústria.

O negócio de riqueza soberana foi iniciado décadas atrás pelos petro-Estados e por Cingapura. A Kuwait Investment Authority foi criada em 1953. Mas mais recentemente o negócio foi turbinado por dois desenvolvimentos: o pico nos preços de energia e a acumulação pela China de um vasto superávit em conta corrente. Atualmente, os

FRSs respondem por algumas das maiores reservas de capital do mundo. A Abu Dhabi Investment Authority controla 627 bilhões de dólares, o que a coloca na liga de alguns dos maiores fundos mútuos americanos. A empresa de operações estrangeiras Sama, da Arábia Saudita, controlava 473 bilhões de dólares em dezembro de 2011, a chinesa

Safe Investment Company, 568 bilhões, e a China Investment Corporation, 410 bilhões. No total, os fundos de riqueza soberana de todo o mundo controlam cerca de 4,8 trilhões de dólares em ativos,uma cifra que deve subir para 10 trilhões de dólares no fim desta década.

Os fundos de riqueza soberana existem em duas variedades: fundos de “poupança”, destinados a investimentos em aplicações produtivas, e fundos de “desenvolvimento”, que também promovem o desenvolvimento econômico. A China Investment Corporation concentrou-se na criação de uma carteira de ativos financeiros, por exemplo, enquanto os vários fundos de investimento de Abu Dabi têm se interessado mais em financiar o desenvolvimento econômico da região para prepará-la para o dia em que o petróleo se esgotar. Em2008, Abu Dabi criou um fundo que se especializou em investir em companhias de alta tecnologia, tanto em casa quanto no exterior. Em seu primeiro grande negócio, o emirado fez uma aliança com a Advanced Micro Devices (AMD), uma fabricante de chips americana, para formar uma produtora local de semicondutores, a GlobalFoundries.

A crise financeira de 2007/2008 deslocou a balança em favor do segundo tipo de fundo. Logo após a China Investment Corporation ser criada, em setembro de 2007, ela viu o dinheiro que colocou nos bancos de investimento americanos virar pó. Os FRSs dos petro-Estados acentuaram sua ênfase no investimento em ciênciae pesquisa. Fundos de riqueza soberana no Kuwait, Catar, Rússia, China, Cazaquistão e Irlanda foram solicitados a apoiar as instituições financeiras domésticas. Quase todos os fundos se interessam mais pela administração das companhias que possuem ao exigir, por exemplo, um assento no conselho.

Nasser Saidi, economista-chefe do Dubai International Financial Center, argumenta que a ascensão do mundo emergente vai forçar uma mudança no sistema financeiro global, de um modelo de sistema radial (com Londres e Nova York atuando como centros) para o de teia, com muitos centros interconectados. A crise de 2007/2008 acelerou dramaticamente esse processo: os FRSs agora preferem fazer grande parte de seus negócios entre si, em vez de passar por intermediários no mundo rico. Em 2009, a China Investment Corporation e a Qatar Investment Authority assinaram um acordo para uma joint venture. No ano seguinte, um consórcio de nove fundos, incluindo a Government of Singapore Investment Corporation, a China Investment Corporation e o Abu Dhabi Investment Council, investiu1,8 bilhão de dólares no BTG Pactual, um banco de investimentos brasileiro derivado do suíço UBS.

É possível para um país ter qualquer uma ou todas essas institui clube do capitalismo de Estado. A Noruega gaba-se da 13a maior companhia petrolífera do mundo em faturamento, aStatoil, e o terceiro maior

fundo de riqueza soberana, o Government Pension Fund, Com 560 bilhões de dólares em ativos, mas exige que ambos ajam como companhias comuns. Todos esses elementos podem ser combinados em uma variedade de formas. A próxima seção vai olhar para as diferentes formas que o capitalismo de Estado pode assumir.

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Tema e variações

Escolha seu modelo

O capitalismo de Estado Não é sempre igual

É facil para um visitante casual na China enganar,se e pensar que está em um país capitalista normal. As grandes cidades estão pontilhadas de Starbucks e escritórios da FedEx. Os jornais publicam histórias de pequenos empresários caindo nas garras de agiotas. Os executivos são transportados em Mercedes com vidros escurecidos. Esposas e amantes passam as tardes em aulas de “doga”-yoga com cães de estimação.

Mas a for made capitalismo em exibição alié altamente idiossincrática. Os chefes das empresas são rotineiramente transferidos para concorrentes sem explicação. As sedes das companhias reservam espaços para representantes das Forças Armadas. E quanto mais fundo você olha, mais estranhas ficam as coisas. Em seu indispensável livro, opartido (sem edição em português), Richard McGregor observa que todos os chefes das 50 e poucas principais empresas da China têm ao lado de seus terminais da Bloomberg e fotos da família uma “máquina vermelha”que permite conexão instantânea (e criptografada) com o alto comando do Partido Comunista.

O que poderíamos chamar de “Estado do partido” exerce um grau de controle sobre a economia que não tem paralelo no resto do mundo do capitalismo de Estado. O partido tem células na maioria das grandes empresas -no setor privado assim como no estatal que possuem seus próprios escritórios e arquivos sobre os empregados. Ele controla a nomeação dos capitães de indústria e, nas empresas estatais (EEs), até dos office-boys. Promove reuniões que eclipsam os conselhos e frequentemente passa por cima das decisões tomadas por eles, particularmente na nomeação de pessoal. Costuma envolver-se no planejamento de negócios e trabalha com a administração para controlar a remuneração dos funcionários.

O Estado do partido exerce seu poder por meio de duas instituições: a Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais (CSAAE) e o Departamento de Organização do Partido Comunista. A CSAAE, que tem participação nas maiores companhias, é a maior acionista controladora do mundo e a instituição capitalista de Estado por excelência. Tem sido a ponta de lança da política de criação de campeãs nacionais ao consolidar e enxugar seu portfólio: o número de empresas sob sua supervisão diminuiu de 198, em2003, para 121, atualmente. Tem implementado a política do partido de criar uma “sociedade harmoniosa” ao regular os salários. Em2009, os chefes das EEs ganhavam em média 88 mil dólares e o mais bem pago, o presidente da China Mobile, recebia 182 mil dólares. Os altos salários têm sido uma grande fonte de desarmonia.

A CSAAE pode ser uma espécie de tigre de papel. Ela tenta há anos forçar as EEs a pagar dividendos maiores ao governo, com sucesso apenas limitado. Da mesma forma, ninguém acredita que o salário nominal dos chefes das EEs tem relação com sua remuneração real. No entanto, ninguém aplicaria o termo “tigre de papel” para o Departamento de Organização. Criado por Mao Tsé-tung, em 1924, ele tornou-se o departamento de recursos humanos mais poderoso do mundo.Nomeia o alto escalão das es tataís chinesas. Em 2004, redistribuiu entre elas os chefes das três maiores empresas de telecomunicação. Em 2009, promoveu o rodízio dos presidentes das três maiores viações aéreas. Em 2010, fez o mesmo com os chefes das três maiores petrolíferas, todas elas na lista da Fortune 500. Até os altos executivos mais bem-sucedidos das EEs chinesas são quadros em primeiro lugar, e se preocupam mais em agradar ao partido do que ao mercado global.

O Estado do partido reforçou seu poder ao criar grupos empresariais “verticais”. Na maioria dos mercados emergentes (inclusive na vizinha Hong Kong), os grupos empresariais são “horizontais”: as empresas se expandem para atividades adjacentes – companhias de telecomunicação para hotéis, companhias de navegação para imóveis-, de modo a explorar suas conexões locais. Na China, os grupos empresariais focam setores determinados. O Estado do partido estimula as empresas a se agruparem em conglomerados industriais ao lhes dar acesso preferencial a contratos e lançamentos de ações em Bolsa. Ele também as encoraja a criar subdivisões como uma holding doméstica, uma companhia financeira, um instituto de pesquisa e uma divisão estrangeira. A CSAAE normalmente fica com 100% das ações da holding. A holding, por sua vez, fica com uma participação menor como 60%-na divisão estrangeira. Isso torna possível para os grupos empresariais apresentar várias facetas distintas-por exemplo, uma voltada para dentro na for made holding e uma divisão internacional. Isso também permite que o Estado do partido exerça o controle sobre toda cadeia de empresas. Assim, a PetroChina pode parecer uma empresa ocidental comum, listada na Bolsa de Nova York. Mas é a divisão internacional do gigantesco grupo China National Petroleum Corporation, a cabeça estrangeira de um dragão, com corpo e razão de ser em Pequim.

O Kremlin como capitalista em chefe

Na última década, a Rússia experimentou um notável fortalecimento do poder do Estado, que parecia prestes a se desmanchar no período de “privatização selvagem” de Boris Yeltsin. O Kremlin acabou por transformar empresas dispersas em campeãs nacionais. A Aeroflot reabsorveu as viações aéreas separadas nos anos 1990. A Russian Technologies englobou centenas de estatais, muitas com pouco a ver com tecnologia. O governo também renacionalizou indústrias privatizadas na década de 1990. A Rosneft, companhia de petróleo, tomou a maior parte da Yukos de Mikhail Khodorkovsky, que já foio homem mais rico da Rússia, e a Gazprom comprou a Sibneft de Roman Abramovich.

O resultado é que o Estado russo mais uma vez fiscaliza os altos níveis da economia – desta vez por meio de ações, em vez de diretamente.

O Estado possui grandes lotes de ações das maiores companhias, induin do a Transneft, companhia de dutos; a Sukhoi, fabricante de aeronaves; a Rosneft; o Sberbank; a Unified Energy Systems; a Aeroflot, e a Gazprom.

O Kremlin também estabeleceu controle sobre os oligarcas russos, reduzindo os outrora rottweilers a trêmulos chlhuahuas e transformando empresas supostamente privadas em órgãos do Estado. A brutal perseguição e prisão de Khodorkovsky ajudou a instilar obediência, e periodicamente o Estado exibe sua mão de ferro ensanguentada aos oligarcas. Eles obsequiosamente assumem a conta de obras públicas (como as Olimpíadas de Inverno de 2014) e mantêm-se afastados da política.

Os oligarcas do setor privado foram substituídos no coração das empresas por “burogarcas” do setor público, a maioria deles ex-oficiais da KGB de laços estreitos com Vladimir Putin que passaram a última década a acumular poder (embora não participações nos negócios). Putin, atualmente primeiro-ministro, é o presidente do conselho de supervisão do Vnesheconombank, banco de desenvolvimento estatal. Igor Sechin, o vice-primeiro-ministro, foi presidente da Rosneft até que Dimitri Medvedev, presidente da Rússia, ordenasse aos ministros que abandonassem as chefias dos conselhos de estatais em 2011 para arrumar a situação. Essas pessoas formam o conselho da “Rússia Inc.”, “empresa” chefiada por Putin, dominada pela KGB e dedicada a controlar os ativos mais lucrativos, do petróleo e gás à energia nuclear, diamantes, metais, armamentos, aviação e transporte.

O resultado é uma forma altamente incomum de capitalismo, dominado por um punhado de empresas gigantescas e controlado por um panelinha de oficiais dos serviços de segurança. Duas companhias controladas pelo Estado, Sberbank e Gazprom, respondem por mais de metade do giro do mercado de ações russo. O capitalismo russo ainda seria concentrado mesmo se o Kremlin não fosse tão implacável. As companhias de petróleo e gás, que respondempor20% do PIB do país e 60% das exportações, prosperam com economias de escala e alcance. A infraestrutura precária estimula a integração vertical; as metalúrgicas, por exemplo, compram portos para escoar sua produção a tempo. Ainda assim, tanto poder político em tão poucas mãos aumentou enormemente a concentração.

Essa forma tão essencialmente russa de capitalismo de Estado tem, não obstante, abraçado o mercado global. As companhias de petróleo e gás têm comprado empresas similares no estrangeiro ou lançado ações em Bolsas no exterior. Em julho de 2006, a Rosneftlevantou11 bilhões de dólares ao vender 15% de suas ações na Bolsa de Londres. Os fundos de riqueza soberana da Rússia se interessam particularmente em comprar companhias estrangeiras, em parte porque as próprias práticas russas nos negócios são nebulosas. E os homens de negócios russos compraram um bocado de propriedades no exterior, particularmente em Londres.

Capitalismo dos petro-Estados

Petróleo e água podem não se misturar, mas petróleo e realeza misturam-se muito bem para criar o capitalismo dos petro-Estados. Os monarcas do Oriente Médio usam o petróleo para se manter solventes há décadas. Mas nos últimos tempos adotam uma abordagem notavelmente sofisticada para gerenciar as economias, com administração profissional.

Os Al-Maktoums, que governam Dubai, criaram a Dubai

World, uma enorme holding estatal, para tocar os seus projetos.

Os sauditas entregaram a administração cotidiana de suas maiores companhias, Saudi Aramco e Saudi Basic Industries, a administradores profissionais. A petror realeza também virou uma entusiasmada praticante da modernização patrocinada pelo Estado. Os Al-Maktounis lançaram a tendência, porque desde o começo nunca tiveram muito petróleo. Respondem por menos de 5% do PIB do emirado, e deram a Dubai um aeroporto de nível internacional, um importante centro financeiro e uma série de “vilas do saber” e “centros do silício”. Até a conservadora Arábia Saudita constrói quatro cidades voltadas para a tecnologia.

Mas o modelo de modernização do Golfo de cima para baixo foi assolado por duas familiares maldições: compadrio e bolhas. Há um limite para o que administradores podem fazer para evitar que a realeza local prejudique as empresas. A Gulf Air, do Bahrein, e a Kuwait Airways têm sido um problema. A Dubai World acumulou 80 bilhões em dívidas ao construir o arranha-céu mais alto do mundo e uma ilha artificial em forma de palmeira. Dubai teve de ser socorrido pelo vizinho Abu Dabi.

Os problemas do compadrio e da corrupção se mostraram ainda mais nocivos em outras partes do Oriente Médio. No Egito, Hosni Mubarak, presidente até a Primavera Árabe, entregou a administração das companhias estatais a incompetentes, enquanto assegurava que seus aliados se dessem bem com as privatizações. Na Argélia, as EEs são notórios antros de patronagem e funcionam apenas a 50% da capacidade. Na Síria, a maioria esmagadora das 250 principais EEs está no vermelho há muitos anos.

O Leviatã como investidor minoritário

O Brasil é o membro mais ambíguo do time do capitalismo de Estado: uma democracia que também adota muitas características do capitalismo anglo-saxão. Mas vale a pena examiná-lo por duas razões. Primeiro, é um catavento do capitalismo de Estado, uma liderança nas privatizações na década de 1990 que agora força sua maior mineradora, a Vale, a segurar trabalhadores que não precisa e obriga empresas menores a embarcar em uma consolidação subsidiada. E segundo, inventou uma das ferramentas mais afiadas do repertório do capitalismo de Estado.

O Brasil passou a maior parte de sua história moderna a perseguir uma modernização conduzida pelo Estado. Uma pesquisa no começo da década de 1980 mostrou que o País tinha mais de 500 EEs. O Brasil lançou um esforço de privatização nos anos 1990 para lidar com a hiperinflação, déficits em disparada e uma esclerose generalizada. Mas recentemente ele moveu-se em uma nova direção. O governo despejou recursos em um punhado de campeãs estatais, particularmente de recursos naturais e telecomunicações. Também criou um novo modelo de política industrial: substituiu a propriedade governamental direta por indireta por meio do Banco nacional de Desenvolvimento Econômico e Social(BNDES) e sua subsidiária de investimentos (BNDESPar) e trocou o controle majoritário por minoritário ao adquirir ações de uma ampla gama de diferentes empresas. Sergio Lazzarini, do (Insper) Instituto de Ensino e Pesquisa, e Aldo Musacchio, da Harvard Business School, batizaram o modelo de “Leviatã como Acionista Minoritário”.

O modelo de acionista minoritário tem várias vantagens. Limita a capacidade do Estado de usar as EEs para recompensar clientes ou conduzir políticas sociais. Os acionistas privados têm poder suficiente para criar barulho. Mas também dá ao Estado mais influência em troca do seu dinheiro. Em 2009, as participações da BNDESPar valiam 53 bilhões de dólares, ou apenas 4% do mercado de ações. Mas o Estado tinha uma grande influência em todo o Brasil corporativo. Os professores Sergio Lazzarini e Aldo Musacchio também mostraram, em um estudo detalhado de 296 empresas negociadas na Bolsa de São Paulo, entre 1995 e 2003, que esse modelo pode aumentar o retorno das companhias sobre seus ativos. As empresas brasileiras normalmente sub investem em equipamentos para aumentar a produtividade, porque os mercados de capital são muito subdesenvolvidos. As participações estatais as proveem de recursos que não poderiam conseguir em outros lugares.

Mas essa astuta versão de capitalismo de Estado está atualmente correndo perigo de exceder suas possibilidades. A descoberta da Petrobras, em novembro de 2007, de enormes reservas de petróleo enterradas profundamente sob o leito do Atlântico encheu a cabeça dos políticos de sonhos sobre grandes projetos. A mudança no equilíbrio mundial de poder dos Estados Unidos para a China também ajudou a persuadir muitos brasileiros de que o futuro está no capitalismo de Estado. O resultado foi um surto de intervencionismo insensato. O governo está tentando forçar a Petrobras a usar caros fornecedores locais de equipamentos apesar de dúvidas quanto à sua competência. Ele tirou Roger Agnelli de seu cargo de CEO da Vale a despeito de seu formidável histórico. E também deu para criar campeãs nacionais por meio de fusões forçadas: a BRF (Sadia e Perdigão)no setor de alimentação; a Oi (que foi obrigada a comprar a Brasil Telecom)nas telecomunicações; a Fibria (VCP e Aracruz) no papel e celulose. Até os modelos mais sofisticados de capitalismo de Estado não estão a salvo de políticos excessivamente zelosos.

A nova elite

Todas essas variedades de capitalismo de Estado têm uma coisa em comum: os políticos têm muito mais poder do que sob o capitalismo liberal. Em regimes autoritários, eles podem reestruturar setores inteiros com uma canetada. Até mesmo nas democracias como o Brasil eles podem dizer às maiores empresas o que fazer. Na China, os prepostos do partido podem tocar as maiores empresas do país (e os chefes das EEs às vezes podem conseguir altos postos no partido). Na Rússia, eles podem administrar as maiores companhias ao mesmo tempo que têm assento no governo. Mas, não obstante, há limites para o poder do Leviatã.

Empresas estatais frequentemente têm um bocado de liberdade operacional. Edward Steinfeld, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts que passou muitos anos no conselho da China National Offshore Oil Corporation,lembra que ar elação da companhia com os chefes políticos tinha “menos a ver comum rígido controle de cima para baixo do que com sinais confusos, ambiguidade e até mesmo silêncio total”.

Essas empresas também podem exercer bastante influência sobre seus supostos mestres políticos. As EEs da China tiveram sucesso em frustrar as tentativas de fazer com que pagassem mais dividendos.

Pode-se dizer que as companhias estatais de energia têm mais influência sobre a política energética nos países de capitalismo de Estado que as companhias de energia privadas nos países liberais. Tomando uma bebida, os russos vão especular entusiasmadamente se é o Kremlin que manda na Gazprom ou se é a Gazprom que manda no Kremlin.

As empresas estatais também estão produzindo uma geração mais sofisticada de administradores: pessoas que aprenderam sobre administração nas melhores escolas do mundo, que trabalharam no exterior e que têm uma visão muito menos míope do mundo que seus predecessores. Katherine Xin, da China Europe International Business School (CEIBS), em Xangai, diz que muitas EEs querem que seus administradores tenham uma formação de nível internacional. A Baosteel está mandando seus administradores seniores para MBAs executivos há mais de uma década. Ela também traz acadêmicos da escola de administração IMD da Suíça para dar cursos específicos. A CNPC tem mandado seus executivos promissores para MBAs nos Estados Unidos desde 1999. Katherine Xin aponta que a versão chinesa da Harvard Business Review é leitura obrigatória para os altos escalões das companhias estatais.

Os membros dessa nova geração de administradores estão transformando também a administração do setor público, conforme alternam entre o domínio corporativo e o governo. Atualmente, há 17 proeminentes líderes políticos chineses que já exerceram altos cargos nas grandes EEs. Reciprocamente, 27 proeminentes líderes empresariais estão servindo no Comitê Central do partido. Se o capitalismo de Estado permite aos políticos moldar as empresas, ele também permite às empresas moldar os políticos.

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