Amar o Corinthians é…

Hoje na Folha de S. Paulo (por Sandro Macedo, arte de Tiago Barra)

Janio de Freitas da Folha de S. Paulo diz que houve golpe no Paraguai

Hoje na Folha de S. Paulo

JANIO DE FREITAS

O golpe revelado

A ideia de que houve ação legítima no afastamento de Fernando Lugo desaba sob a prova da conspiração

UM DOCUMENTO da Embaixada dos Estados Unidos em Assunção para o Departamento de Estado, em março de 2009, desmente a alegação de que a derrubada de Fernando Lugo fosse a reação do Congresso à inaptidão presidencial ante o confronto armado de sem-terra e policiais.

Com três anos e dois meses de antecedência, o governo de Barack Obama estava informado, por sua embaixada, do golpe que era planejado sob o disfarce de “um julgamento político dentro do Parlamento”. Tal como veio a ser feito.

A ideia de que houve uma ação legítima e constitucional, no afastamento de Lugo, desaba sob a prova da longa conspiração.

A Constituição foi tão vítima do golpe quanto o presidente eleito. Os conspiradores planejaram uso fraudulento dos dispositivos constitucionais de defesa da democracia. Assim viriam a ludibriar os países vizinhos, e os acordos internacionais, com as aparências de uma medida parlamentar legal.

O documento confidencial da embaixada para o Departamento de Estado foi divulgado pelo Wikileaks, o “site” que os governos americano e inglês, sobretudo, vêm tentando silenciar, por suas revelações de documentos secretos comprovadores de práticas ilegais e imorais, principalmente, das potências.

No caso atual, vê-se que, apesar de informado sobre a conspiração desde cedo, o governo dos Estados Unidos não produziu nenhum indício de defesa da democracia paraguaia. E, logo após a derrubada de Lugo, foi o primeiro a dar mais do que indícios de apoio ao empossado Federico Franco, mais simpático aos Estados Unidos do que à América do Sul.

Um pouco mais tarde, a secretária Hillary Clinton fez um dúbio recuo, para algo parecido com indefinição. Não seria conveniente opor-se, tão depressa, à condenação imediata do “golpe parlamentar” feita por grande parte da América Latina.

O general Lino Oviedo é apontado, no documento americano, como um dos dois principais condutores da conspiração, com a companhia do ex-presidente Nicanor Duarte.

Oviedo é um desses tipos comuns de militares maníacos de golpismo: cucaracha típico. O que o fez passar anos no Brasil como fugitivo e, depois, como asilado, por fracassar na tentativa de golpe contra o então presidente Juan Wasmosy. Oviedo já se põe como candidato nas eleições presidenciais a ocorrerem, dizem, daqui a nove meses.

A divulgação que se deve ao Wikileaks vem facilitar a defesa, pelos países do Mercosul, da sua decisão de suspender o Paraguai como integrante da entidade.

O mesmo deverá ocorrer com o Paraguai e com o efeito Wikileaks na Unasul, união dos países da América do Sul, em sua próxima reunião.

Mas foi positivo que Brasil, Argentina e Uruguai limitassem a suspensão do Paraguai, no Mercosul, aos assuntos de natureza política, sem estendê-la aos compromissos econômicos e transações usuais. (Inclusive, do ponto de vista dos novos governantes paraguaios, o contrabando e os produtos falsificados).

Os bloqueios econômicos, tão ao gosto dos governos americanos, são perversos com os povos, não com os governantes.

O mísero Paraguai, com mais de metade da população em aguda pobreza, não tem que pagar pelos que o exploram.

Folha de S. Paulo quer que a Comissão da Verdade coloque no mesmo saco os torturadores da ditadura militar com os militantes que lutaram contra o autoritarismo

Veja o primeiro bloco do TV Folha de hoje, clique aqui.

ObsCena

Comissão de juristas pede imunidade para jornalistas. E para os blogueiros não jornalistas?

A comissão de juristas do Senado Federal criada para atualizar o Código Penal aprovou a imunidade para os jornalistas, que não poderão ser punidos ao fazer críticas, poderão emitir opinião desfavorável sem ser condenado por injúria ou difamação. A imprensa ficaria igualada aos críticos de literatura/arte/ciência, que já têm essa mesma imunidade.

Apenas será crime quando inequívoca a intenção de injuriar ou difamar. O desembargador José Muiños Piñeiro, integrante da comissão, disse o seguinte, segundo a Folha de S. Paulo de hoje:

“Nesses casos o ônus da prova fica invertido: quem se diz ofendido é que terá que provar na Justiça que aquela crítica não é jornalística, que há outra motivação de má-fé”.

O relator da comissão de juristas, procurador Luiz Carlos Gonçalves, disse que:

“a liberdade de imprensa compreende inclusive o direito de fazer uma manifestação crítica”.

Pergunta que não quer calar: e para os blogueiros não jornalistas?

O grupo é formado por 17 especialistas, elaborará a proposta do novo Código Penal a ser entregue ao Senado, que iniciará a discussão do texto.

As propostas de Sócrates – Juca Kfouri

Hoje na Folha de S. Paulo

São Paulo, fevereiro de 1984

DOUTOR SÓCRATES Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira sempre foi uma figura especial, firme em seus princípios, mas incapaz de dizer não para qualquer proposta nova, mesmo que bizarra, desde que representasse algum ruído, algo incomum.

Ele topava, dedicava horas das suas folgas para atender e não cobrava um tostão, fazia por acreditar e por diversão.

Por isso, aceitou fazer fotos para a revista “Placar” como “O Pensador”, de Rodin, para simbolizar o cérebro do time do Corinthians que ele comandou entre 1978 e 1984, e como d. Pedro 1º, quando prometeu ficar no Brasil caso a emenda das eleições diretas fosse aprovada no Congresso Nacional no dia 25 de abril de 1984.

Era o seu Dia do Fico, que acabou frustrado e culminou com a ida para Florença, onde vestiu a camisa violeta da Fiorentina.

Essas são histórias, embora saborosas, já por demais conhecidas, que viraram capa da revista à época e foram fartamente comentadas em dezembro do ano passado, por ocasião de sua morte, aos 57 anos.

Menos conhecida, mas não menos saborosa, foi a noite em que ele aceitou ir ao programa que a revista mantinha na TV Abril, num horário comprado à TV Gazeta, em sua faixa nobre, entre 20h e 22h.

A ideia era a de que ele falasse sobre política, de um lado, e, de outro, o governador André Franco Montoro (1916-99) sobre futebol.

Estávamos em fevereiro de 1984, no auge da efervescência da campanha das Diretas-Já e da bem-sucedida “Democracia Corinthiana”.

Ambos toparam imediatamente e tratamos de produzir o programa da maneira mais simples possível, apenas pedindo ao governador de São Paulo que fosse sem paletó nem gravata e ao craque do Corinthians que, ao contrário, fosse de paletó e gravata.

Montoro aceitou sem pestanejar, ao contrário do Magrão, que disse que estava para nascer quem o fizesse se vestir daquele modo. Mas que ninguém se preocupasse, porque ele surpreenderia com uma indumentária original, que seria um sucesso.

Confesso ter tremido na base. Por conhecê-lo bem, temi que aparecesse de bermuda, chinelo de dedo e camiseta regata num cenário que era vazado e mostrava os entrevistados dos pés à cabeça.

Na verdade, menosprezei sua criatividade, porque minha ideia não seria nada original.

Eis que, em cima da hora do início do programa -ao vivo-, com Montoro já sentado na bancada do estúdio, microfone devidamente posto na camisa social, surge o Magro, vestido da maneira mais casual que pôde imaginar: de macacão!

Tive ímpetos de esganá-lo, mas Montoro ria tanto e o pessoal do estúdio festejava tanto que achei melhor relaxar e me concentrar no programa.

Que foi um show.

Ele quase não deixou o também alvinegro governador falar, tantas eram a propostas que tinha para a cidade de São Paulo, para o Estado dos paulistas e, é claro, para o país. Eu chamando o governador de governador e de senhor, ele chamando de Montoro e de você.

Até que não aguentei e, meio a sério, meio brincando, num intervalo, alertei o Magrão para o eventual excesso de informalidade.

Antes que ele saísse com uma das suas, Franco Montoro atalhou: “Ô Juca, ele acaba de ser bicampeão paulista com a ‘Democracia Corinthiana’. Pode me chamar do jeito que quiser”. E assim foi até o fim do programa.

Quatro anos antes, em dezembro de 1980, havíamos resolvido mostrá-lo pós-futebol, com 50 anos, como se fosse em 2004, devidamente paramentado como médico.

Ele mais uma vez topou passar um tempão sendo maquiado.

Quando, de fato, completou seu cinquentenário, mostrei a ele a foto e ele achou que estava melhor do que o retrato.

E estava mesmo.

Não imaginávamos que seria por tão pouco tempo.

Folha de S. Paulo acompanha os grandes acontecimentos da vida de José Serra: ele se negou comer testículos de peru

Foto de Sergio Carvalho/Folhapress

Sem saber como fazer para o pré-candidato a prefeito de São Paulo José Serra (PSDB) aparecer, a Folha de S. Paulo fez uma matéria informando que ele se recusou comer testículos de peru em feira da Associação Paulista de Supermercados (Apas).

Jornalismo de primeira!

Folha de S. Paulo auto-censura matéria com letras garrafais contrária a Beto Richa

Matéria com letras garrafais da edição impresa nacional da Folha de S. Paulo que divulga frase infeliz do governador do Paraná, Beto Richa (PSDB)

Sim, sou assinante da Folha de S. Paulo desde quando era criança. Recebo a edição nacional impressa da Folha em Curitiba, que fica pronta na madrugada para ser enviada para todo o Brasil, antes da edição distribuída na capital de São Paulo.

A edição nacional da Folha divulgou com letras garrafais a frase infeliz do governador do Paraná Beto Richa (PSDB), que disse que pessoas que têm curso superior se insubordinam, não aceitam cumprir ordens, conforme a imagem acima, na página C3 do caderno Cotidiano.

Eis que, muito estranhamente, a edição digital disponível na internet para assinantes, que também é a edição distribuída em São Paulo, a matéria, antes bastante vistosa e com texto longo, foi diminuída de tamanho e retirada a foto de Beto Richa, conforme imagem abaixo, sendo invertida com a matéria do assalto à casa do jornalista Milton Jung.

A Folha de S. Paulo deve justificar essa ação que poupou o deslize de Beto Richa para milhões de pessoas, principalmente em São Paulo. Beto Richa pretende ser o candidato a vice de Aécio Neves (PSDB) em 2014, nas eleições presidenciais, e perder votos no maior colégio eleitoral do país não seria bom para suas pretensões eleitorais.

Informo que vou encaminhar essa denúncia para o Ombudsman da Folha e para os blogueiros progressistas de todo o país.

Edição digital da internet da Folha de S. Paulo, que diminui a matéria negativa ao tucano Beto Richa.

Paraná passa vergonha nacionalmente

A famosa frase do governador do Paraná Beto Richa (PSDB) “outra questão é a insubordinação, uma pessoa com curso superior muitas vezes não aceita cumprir ordens de um oficial ou um superior” percorreu todo o Brasil.

O jornalista responsável pela coluna Caixa Zero da Gazeta do Povo, Rogério Galindo, foi o primeiro a fazer ampla divulgação da frase infeliz do governador na rádio CBN, o que segundo ele, no twitter, pela primeira vez um único post do seu blog passou de 50 mil visitas, um novo marco para o Caixa Zero. Foi divulgado pelo twitter e pelo facebook em todo o Brasil. Hoje a Folha de S. Paulo divulgou também o absurdo falado pelo governador (ver post crítico sobre o tema).

Charge do Angeli: Reunião do DEM

Hoje na Folha de S. Paulo

Folha de S. Paulo utiliza TV Cultura, pública, para criticar povão “brega” nos aeroportos

Luiz Felipe Pondé

O jornal Folha de S. Paulo, que utiliza espaço na TV Cultura de São Paulo, uma TV Pública, por meio do programa TV Folha, via reportagem do filósofo e autor de livros Luiz Felipe Pondé, critica o aeroporto de Guarulhos, dizendo que parece um “churrasco na laje”, uma “rodoviária”, por causa de pessoas que compram muito nos Estados Unidos. Só faltou o jornalista dizer que isso não é “chique”, mas disse que isso é “brega”. Uma reportagem com a cara da elite paulistana. Eles podem fazer compras no exterior, classes antigamente subalternas não podem.

Brócolis e má-fé – Paul Krugman

Folha de S. Paulo de sábado

Decisão sobre reforma da saúde pode ser novo golpe para a imagem da Suprema Corte norte-americana

Ninguém sabe o que a Suprema Corte dos EUA decidirá sobre a lei de reforma da saúde do presidente Obama. Mas parece provável que o tribunal derrube a compra obrigatória de planos de saúde pelos cidadãos e possivelmente a lei inteira.

Caso a cláusula que impõe a compra compulsória seja derrubada, seria muito mais difícil aplicar a lei, e rejeitar o texto por inteiro significaria negar cobertura de saúde a 30 milhões de americanos ou mais.

Dado o que está em jogo, seria de esperar que os juízes fossem cuidadosos. Na verdade, porém, o segundo dia de audiência sugeriu que os juízes mais hostis à lei não compreendem, ou optam por não entender, como o seguro-saúde funciona.

E o terceiro dia foi ainda pior, pois pareciam estar abraçando qualquer argumento, por mais precário, que pudesse ser usado para rejeitá-la.

Um juiz comparou a compra de um plano à de um brócolis, com a implicação de que, se o governo tiver o poder de obrigar os cidadãos a comprar o primeiro, teria direito de impor a compra do segundo. A relação horrorizou especialistas.

Por quê? Quando as pessoas optam por não comprar brócolis, não tornam o produto indisponível para aqueles que o desejam. Mas, quando as pessoas não fazem um plano a não ser que adoeçam -que é o que ocorre se a compra não for obrigatória-, o agravamento do pool de risco resultante dessa decisão torna os planos mais caros, e até inacessíveis, para as demais.

Como resultado, um setor desregulamentado de seguro-saúde não funciona -e nunca funcionou.

Além disso, juízes conservadores pareciam defender a interpretação de que uma expansão do programa financiada pelo governo federal, e da qual os Estados decidam participar porque recebem assistência federal, representaria abuso de poder, simplesmente porque os Estados dependeriam dessa assistência.

A juíza Sonia Sotomayor parecia inconformada com o argumento. “Portanto, vamos dizer ao governo federal que, quanto maior o problema, menores os seus poderes? E que, se o governo conceder tamanhas verbas, perde o direito de estruturar o programa como deseja?” E ela estava certa: a alegação não faz sentido -a não ser que o objetivo seja destruir a reforma da saúde usando qualquer argumento disponível.

Como disse, não sabemos como isso vai terminar. Mas é difícil evitar uma sensação agourenta -e a impressão de que a fé do país na capacidade da Suprema Corte de se erguer acima das disputas políticas, já tão abalada, sofra novo golpe.

Tradução de Paulo Migliacci

Livro “A Privataria Tucana” continua entre os 4 livros de não-ficção mais vendidos do Brasil, segundo Folha de S. Paulo

TV Folha estreou hoje na TV Cultura. Faltou o TV Carta Capital, o TV Caros Amigos…

O programa TV Folha estreou hoje na TV Cultura (exibido no Paraná pela TV Educativa E-Paraná) e será exibido todos os domingos, das 20 às 20h30. Melhor do que as outras besteiras que existem no mesmo horário na TV aberta, mas com os méritos e falhas do jornal Folha de S. Paulo escrito.

A TV Cultura (TV estatal do governo do Estado de SP) também convidou a revista Veja e os jornais Valor e O Estado de S. Paulo. É possível esse tipo de procedimento segundo a Lei 8.666/93, é uma espécie de credenciamento (inexigibilidade de licitação por inviabilidade de competição). O problema são os critérios para a escolhas dos meios de comunicação. Por que não fazer convites também para as revistas Carta Capital e Caros Amigos?

Livro “A Privataria Tucana” continua como o 5º livro mais vendido de não-ficção no Brasil, segundo Folha de S. Paulo de hoje

Justiça de SP condena site que copiou texto da Folha

Hoje na Folha de S. Paulo

O ’24HorasNews’ deve retirar reprodução indevida do ar e pagar indenização

Diretor Jurídico da Folha afirma que não pode ser aceito o desrespeito ao direito autoral do jornal

DE SÃO PAULO

A Justiça de São Paulo condenou a Amel Comunicações a pagar indenização de R$ 50 mil à Empresa Folha da Manhã S/A, que edita a Folha, por danos morais pela violação de direito autoral. Cabe recurso contra a sentença.

A decisão determina ainda que o site “24HorasNews”, de propriedade da Amel Comunicações, retire do ar “toda e qualquer matéria” produzida pela Folha, com multa diária de R$ 500 por eventual descumprimento da sentença.

“A decisão é um precedente favorável a todos os jornais e proprietários de conteúdos, e não só à Folha, na proteção de seu conteúdo”, diz Orlando Molina, diretor Jurídico da Empresa Folha da Manhã S/A.

O “24HorasNews”, portal de notícias de Cuiabá (MT), no dia 12 de julho de 2011 republicou sem autorização reportagem produzida pela Folha e publicada no caderno Mercado. O site atribuiu à sua Redação a produção do texto.

Após essa data, o “24HorasNews” repetiu o procedimento com dezenas de outras reportagens da Folha.

No processo judicial, a Empresa Folha da Manhã S/A argumenta que a Lei de Direitos Autorais assegura os direitos morais e patrimoniais do veículo de imprensa que obtém a notícia e realiza a pesquisa, a redação e a edição do artigo jornalístico.

A petição diz ainda que, para transcrever a reportagem, o “24HorasNews” deveria ter adquirido os direitos e atribuído os créditos à Folha e à repórter responsável.

“A Folha vem adotando medidas para impedir o uso indevido do seu conteúdo por terceiros. O jornal investe na produção de conteúdo e o desrespeito ao seu direito não pode ser aceito”, diz Molina.

Na sentença, o juiz Airton Pinheiro de Castro, da 12ª vara cível central de SP, diz que a prova documental evidencia o “total desrespeito aos direitos autorais” da Folha.

A empresa Amel Comunicações não apresentou defesa no processo judicial.

Crise beneficia os mais ricos, diz o geógrafo David Harvey

Harvey durante debate no Fórum Social Mundial, em 2009. Foto de Janduari Simões - 29.jan.2009/Folhapress

Hoje na Folha de S. Paulo

Crise beneficia os mais ricos, diz geógrafo

Para David Harvey, a lógica das políticas de austeridade é perpetuar o desastre econômico e concentrar mais o poder

Professor vê ascensão do nacionalismo e diz esperar movimentos mais sólidos contra a desigualdade no mundo

ELEONORA DE LUCENA

DE SÃO PAULO

As políticas de austeridade perpetuam o desastre econômico. E há uma lógica por trás disso: os ricos e poderosos se beneficiam da crise, que provoca mais concentração de renda e de poder político. A análise é do geógrafo marxista David Harvey, 76.

Professor de antropologia da Universidade da Cidade de Nova York, ele fala da ascensão do pensamento de direita e espera a emergência mais sólida de movimentos contra a desigualdade.

“Até pessoas muito ricas, como Warren Buffett, reconhecem que a desigualdade foi longe demais”, afirma.

Harvey estará no Brasil nesta semana para debates em São Paulo e no Rio e para o lançamento de seu livro “O Enigma do Capital”.

Folha – Como analisa a crise?

David Harvey – As crises não são acidentes. São fundamentais para o funcionamento do capitalismo. O capital não resolve as crises, mas as move de um lugar para o outro.

Que mudanças ocorrerão?

A China está além do limite e terá problemas difíceis. Há superprodução e superinvestimento e haverá fortes pressões inflacionárias.

Como avalia o caso da Grécia?

A Grécia terá que declarar moratória e deixar o euro. No curto prazo, pode ser traumático, mas a Argentina decretou moratória e voltou mais forte. É preciso sair do euro para fazer o que a Argentina fez: desvalorizar a moeda.

Qual o impacto dessa crise na política?

A visão da direita é muito nacionalista. Há a emergência do nacionalismo não só na Grécia, mas em outras partes, o que pode se mover para ditaduras. Há uma transferência de riqueza do povo para os bancos, e o povo protesta em muitos países.

A crise ampliará a diferença entre ricos e pobres?

Nos EUA, os dados mostram que a desigualdade de renda cresceu de forma notável com a crise. Cresce também a desigualdade de poder político. Há muitos movimentos no mundo contra a desigualdade.

Mas a direita cresce.

Sim. Não é só a direita que está crescendo, mas um movimento nacionalista, que também existe na esquerda. Uma das respostas políticas é tentar cortar as ligações com a globalização e buscar um programa de autonomia local e de autodeterminação local, demandas que estão na esquerda e na direita.

Isso pode levar a guerras?

Gerará mais tensões. Podemos ver conflitos militares regionais, não o tipo de guerra dos anos 40. Por exemplo, o Brasil tem uma versão disso nos conflitos das favelas do Rio de Janeiro.

E o que deve ser feito?

É preciso que haja um movimento político que enfrente a questão sobre qual deve ser o futuro do capital. Não vejo nenhum movimento fazendo isso de forma coerente. É o que tento estimular.

E o que o sr. defende?

Acredito que os trabalhadores precisam ter o controle do seu processo produtivo. Eles deveriam se auto-organizar em fábricas, locais de trabalho, nas cidades. A ideia é que associações de trabalhadores possam regular sua produção e suas decisões. É preciso também ter um mecanismo de coordenação, o que é diferente dos mercados.

Isso não é tarefa do Estado?

Historicamente o Estado tem que fazer isso, mas muitas pessoas não confiam no Estado, pois ele é muitas vezes corrupto e foi desenhado essencialmente para benefício do capital, não em benefício do povo. É preciso pensar numa forma alternativa de coordenação e organização.

Em “O Enigma do Capital” (2010), o sr. propõe criar um “partido da indignação” contra um “partido de Wall Street”. Como vai essa ideia?

Há muitas diferenças entre os movimentos pelo mundo. Nos EUA, o movimento “Occupy” é pequeno e fragmentado e não está maduro em termos de força política. Isso poderá ser mudado.

Em “O Novo Imperialismo” (2003), o sr. fala da questão da hegemonia dos EUA. Como vê isso hoje?

Os EUA continuarão a ser um poder significativo, mas não da forma que foram nos anos 70 e 80. Haverá poderes hegemônicos regionais. O Brasil será um deles. China, Índia e Alemanha também.

O consumismo é ainda a chave para a paz social nos EUA, como o sr. diz no mesmo livro?

Austeridade reduz o padrão de vida, o consumo, a produção e o emprego. Torna as coisas ainda piores. Mas EUA e Europa estão engajados na política da austeridade, e isso está perpetuando a crise. Mas há uma lógica por trás na perpetuação da crise: as pessoas poderosas e influentes se beneficiam dela. Os ricos estão indo muito bem. Portanto, perpetuar a crise é uma forma de perpetuar seu crescente poder e sua crescente riqueza.

Em “The Limits to Capital” (1982), o sr. descreve a dinâmica do capital. O poder das finanças cresce com a crise?

Sim. O capital financeiro é hoje importante como nunca foi. Mais ativos serão fornecidos ao setor bancário. Quando é preciso mais dinheiro, o Fed [banco central dos EUA] aparece com um trilhão de dólares e joga no mercado.

Portanto, não há limite à capacidade de criar o poder do dinheiro. Há limites em muitas outras áreas: recursos naturais, produção de commodities etc. Não há limite ao poder do capital financeiro.

O sr. está otimista?

Sou otimista no sentido de que acredito que as pessoas vão reconhecer que há limites sérios no capitalismo e que é preciso considerar modos alternativos. De outro lado, a volatilidade é tanta que as pessoas podem tomar direções malucas, o que pode levar a autoritarismos e a sérias rupturas na economia.

As ideias que o sr. defende não podem ser consideradas utópicas?

Pode ser. Mas mesmo o pensamento dominante está começando a reconhecer que o nível de desigualdade que existe hoje não pode ser sustentado. Até pessoas muito ricas, como Warren Buffett, reconhecem que a desigualdade foi longe demais.

Leia a íntegra da entrevista
folha.com/no1053440

Colunista da Folha de S. Paulo diz que nas privatizações o capital costuma sair mais gordo, e o público, não raro, sai parasitado

Hoje na Folha de S. Paulo

VINICIUS TORRES FREIRE

Eu concedo, tu privatizas…

…nós desconversamos com essa querela entre PSDB e PT, cada um a seu modo amigo do grande capital

“A PRIVATIZAÇÃO não é uma questão ideológica.” É o que dizia mais uma vez Fernando Henrique Cardoso, posto num dos lados do debate ideológico suscitado pela mais recente privatização conduzida por governo petista, a dos aeroportos.

A conversinha que se ouviu desde que se leiloaram os aeroportos é ideológica no sentido mais barato da expressão. E no mais caro também. A querela vulgar obscurece um assunto mais importante, o da reorganização da propriedade da grande empresa no Brasil, que se tornou ainda maior com apoio do Estado.

Privatizações, sociedades com entes estatais ou paraestatais, subsídios, proteções tarifárias, apoio estatal às alianças privadas em vários meganegócios: os meios utilizados pelos governos são vários, tanto faz se petistas ou tucanos. Os fins são bem semelhantes.

Tudo isso serviu para reorganizar a posse da grande empresa, torná-la mais resistente à competição externa ou até mais produtiva ou ino vadora. Mas os primeiros beneficiados são os donos do grande capital.

Considere-se a lista das maiores empresas brasileiras (por faturamento, na publicação “Valor 1000”).

A Petrobras é a número 1. A Vale, privatizada sob FHC com sócios estatais, é a número 2. A JBS-Friboi (número 3) é uma “múlti brasileira” criada nos anos Lula com apoio do BNDES. O Pão de Açúcar (5) quase teve a tal ajuda oficial no ano passado, para comprar o Carrefour (11).

A Telemar/Oi (7) é um grupo imenso criado na privatização das teles sob FHC (com ajuda estatal). O conglomerado ficou ainda maior com a ajuda de Lula, que mudou leis a fim de permitir a compra da Brasil Telecom e autorizou mais entrada de dinheiro estatal na megatele.

A Braskem (9) é uma associação da Odebrecht com a Petrobras. A empreiteira começou a engordar no negócio da petroquímica com as privatizações dos anos 1990.

A Eletrobras (8) é a estatal elétrica returbinada pelos governos do PT e sócia das grandes empreiteiras na geração de eletricidade.

A Brasil Foods (12) resultou da quase quebra da Sadia (que brincava com derivativos loucos), engolida pela Perdigão (dos fundos de pensão de estatais) e financiada pelo BNDES, mais uma “campeã brasileira” do setor de alimentos.

Daí vem uma penca de múltis estrangeiras, estatais e ex-estatais privatizadas sob FHC e Itamar Franco (1993-94), como teles e siderúrgicas, sempre com dedo estatal.

A Embraer (39), quase falida em 1994, foi privatizada para um banco e, bidu, fundos de pensão de estatais. A empresa é ótima, mas não voaria alto sem bilhões de crédito subsidiado para suas exportações.

O conjunto dessas histórias de “parcerias público-privado” dá para encher livros. Há conexões mais complexas: por exemplo, como o Estado auxilia grupos a se associarem em vários ramos de negócios ou a ganharem pedações do mercado.

Um ótimo livro, de Sérgio Lazzarini (“Capitalismo de Laços”, Campus Elsevier, 2010), desembaraça parte dessa história difícil.

O resumo da ópera aqui destas colunas é mais simples. “Privatização” ou “concessão”, seja qual for o eufemismo ou a propaganda ideológica do momento, trata-se quase sempre de simbiose entre governos e empresas, relação da qual o capital costuma sair mais gordo. O público, não raro, sai parasitado.

vinit@uol.com.br

Frustração e ódio à democracia – Paulo Ghiraldelli Jr

Carlos Lacerda, símbolo do udenismo

Hoje na Folha de S. Paulo

Não é porque a classe média conservadora não tem porta de quartel para bater que ela não deve ser vista como fomentando algo perigoso

Lula repetiu Vargas, mas com mais sucesso. Nossa democracia atual imita um pouco a de 1945-1964, mas com menos melodrama. O elo entre elas é a oscilação do “udenismo”. Eu explico.

Após 1945, segundo o figurino democrático, Vargas criou dois partidos: o PSD (Partido Social Democrático) e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Com o primeiro, agarrou funcionários públicos e parte dos setores agrários. Com o segundo, acolheu os sindicalistas.

Na oposição, ficou a UDN (União Democrática Nacional), que de um ideário liberal inicial foi para uma bandeira única: o combate à corrupção. “Udenismo” e “moralismo” tornaram-se sinônimos.

Quando, nos anos 1980, o Brasil iniciou seu caminho sem volta para o fim do regime militar, as oposições ganharam espaço por meio do PMDB e do PT. Ainda que o PT tivesse uma série de propostas, o discurso ético e moral era o seu carro chefe. O PMDB dizia que aquilo não era política, apenas um “udenismo” com capa de esquerda.

Com o PT participando de cargos executivos, o discurso ético perdeu força. O termo já era cadáver quando, com o mensalão de 2005, o PT acabou com a possibilidade de apresentar qualquer discurso moral. O PT enterrou seu apelido de “udenista” do modo mais irônico possível.

Foi então que uma parte da classe média, de mentalidade conservadora, agarrou o discurso moralista, contra a corrupção. Não tendo nenhum partido próprio, foram ao PSDB. Atônito, o PSDB terminou por aceitá-los e, por isso mesmo, como havia ocorrido com a UDN, acabou se distanciando das parcelas mais amplas da população.

Afinal, após 2005, Lula recolheu os cacos do PT pós-mensalão e então realmente começou a governar. Com Mantega à frente, ele fez vingar o programas de bolsas, o PAC e toda uma política de ampliação do mercado interno, anulando a má herança do governo FHC e, ao mesmo tempo, sabendo aproveitar a estabilidade da moeda que o ex-presidente havia deixado.

Assim, Lula se tornou uma quase unanimidade nacional. Quase unanimidade porque o discurso moralista, o “udenismo”, ainda que minoritário e completamente ideológico -talvez até hipócrita-, tem lá o seu folêgo. Quando começa a perder gás, a imprensa acha mais um naco podre no governo, pondo Dilma a dar vassouradas aqui e ali.

A classe média conservadora, vendo a sua impotência eleitoral ganhar clímax nos fracassos do PSDB, vai para a internet para “fazer política com as próprias mãos”.

Despeja na rede toda a sua frustração e seu ódio à política democrática. Nesse tipo de onda, as pessoas começam a querer punições sem investigações acuradas, alimentando uma postura autoritária.

Para eles, a democracia passa a ser vista como algo ruim, uma vez que ela parece só dar vitórias ao Lula ou, digamos, aos setores populares. Aliás, esse tipo de ódio não está distante do que sempre existiu no interior do “udenismo”. Eis a minha conclusão, em forma de alerta: não é porque esses setores não possuem porta de quartel para bater que eles não deveriam ser vistos como fomentando algo perigoso.

PAULO GHIRALDELLI JR., 54, filósofo e professor da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), é autor de “A Filosofia como Medicina da Alma” (editora Manole)

Europeus em crise aplicam neoliberalismo, e não Keynes

Publicado na Folha de S. Paulo de 31.12.2011

Keynes estava certo

Por PAUL KRUGMAN

O teste tem vindo de países europeus como Grécia e Irlanda, que tiveram que impor austeridade fiscal

“O momento de expansão, e não de retração, é a hora certa para o Tesouro Nacional ser austero.”

Foi o que disse John Maynard Keynes em 1937, quando o BC americano estava a ponto de provar que Keynes estava certo ao tentar equilibrar o orçamento cedo demais, fazendo a economia americana entrar em profunda recessão.

Um governo que adota política de cortes numa economia em depressão faz a queda ser pior; a austeridade deve esperar até que a recuperação esteja bem encaminhada.

Infelizmente, no fim de 2010 e início de 2011, políticos e governantes em muitas partes do ocidente acreditavam que sabiam mais, e que nós deveríamos focar em deficits e não em empregos, ainda que nossas economias tivessem acabado de se recuperar da depressão pós-crise financeira. Agindo de forma anti-keynesiana, acabaram provando que Keynes estava certo mais uma vez.

Ao declarar que a economia keynesiana foi vingada, estou indo contra o saber convencional. Especialmente em Washington, a incapacidade do pacote de estímulos de Obama de gerar grande número de empregos é geralmente vista como prova de que gastos governamentais não conseguem produzir empregos.

Mas aqueles de nós que fizeram as contas corretamente perceberam desde o início que a Lei de Recuperação e Reinvestimento de 2009 era restrita demais, dada a profundidade da queda. E também previmos o consequente retrocesso político.

Portanto, o verdadeiro teste para a economia keynesiana não veio dos tépidos esforços do governo americano para impulsionar a economia, que foram largamente contrabalançados por cortes em níveis estaduais e municipais.

O teste tem vindo de países europeus como a Grécia e a Irlanda, que tiveram que impor severa austeridade fiscal como condição para receber empréstimos de emergência -e têm sofrido perdas econômicas do mesmo nível da Grande Depressão. Isso não deveria acontecer, segundo a ideologia que domina grande parte do nosso discurso político.

Em março passado, a parte republicana do Comitê Econômico Conjunto do Congresso divulgou relatório que ridicularizava as preocupações de que cortes em um momento de queda poderiam piorar a situação, argumentando que os cortes aumentariam a confiança de consumidores e de mercados, e isso sim poderia levar a um crescimento mais rápido, não mais lento.

A insistência em cortes imediatos continuou dominando o cenário político, com efeitos maléficos sobre a economia. É verdade que não houve novas grandes medidas de austeridade do governo federal, mas vimos muita austeridade “passiva” à medida que o pacote de estímulos de Obama saiu de cena e governos estaduais e municipais sem liquidez continuaram fazendo cortes.

Você poderia argumentar que Irlanda e Grécia não tinham escolha quanto à imposição de austeridade a não ser fazê-lo ou declararem-se inadimplentes e deixar o euro.

Mas outra lição de 2011 foi que os EUA tinham e têm uma escolha; Washington pode estar obcecado com a questão do deficit, mas os mercados financeiros estão, sim, sinalizando que nós deveríamos tomar mais empréstimos.


Tradução de THOMAS MUELLO