Gibi: Betinho em “Meu querido aviãozinho”

Veja notícias sobre a compra milionária do avião de luxo pela Copel, para uso do governador Beto Richa (PSDB). O deputado estadual Tadeu Veneri (PT) está contestando a licitação na justiça, por meio de Ação Popular:

http://oestadodoparana.pron.com.br/politica/noticias/57294/

http://g1.globo.com/parana/noticia/2012/01/copel-compra-aeronave-que-estara-disposicao-do-governo-do-parana.html

http://www.gazetadopovo.com.br/blog/caixazero/conteudo.phtml?id=1211715

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2012/01/11/estatal-do-parana-compra-aviao-de-r-169-mi-oposicao-diz-e-para-governador-usar.htm

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Boaventura de Sousa Santos escreve novamente carta às esquerdas

Do Carta Maior

Quarta carta às esquerdas

A direita só se interessa pela democracia na medida em que esta serve aos seus interesses. Por isso, as esquerdas são hoje a grande garantia do resgate da democracia. Estarão à altura da tarefa? Terão a coragem de refundar a democracia para além do liberalismo? Uma democracia anticapitalista ante um capitalismo cada vez mais antidemocrático?

Boaventura de Sousa Santos

As divisões históricas entre as esquerdas foram justificadas por uma imponente construção ideológica mas, na verdade, a sua sustentabilidade prática—ou seja, a credibilidade das propostas políticas que lhes permitiram colher adeptos—assentou em três fatores: o colonialismo, que permitiu a deslocação da acumulação primitiva de capital (por despossessão violenta, com incontável sacrifício humano, muitas vezes ilegal mas sempre impune) para fora dos países capitalistas centrais onde se travavam as lutas sociais consideradas decisivas; a emergência de capitalismos nacionais com características tão diferenciadas (capitalismo de estado, corporativo, liberal, social-democrático) que davam credibilidade à ideia de que haveria várias alternativas para superar o capitalismo; e, finalmente, as transformações que as lutas socias foram operando na democracia liberal, permitindo alguma redistribuição social e separando, até certo ponto, o mercado das mercadorias (dos valores que têm preço e se compram e se vendem) do mercado das convicções (das opções e dos valores políticos que, não tendo preço, não se compram nem se vendem). Se para algumas esquerdas tal separação era um fato novo, para outras, era um ludíbrio perigoso.

Os últimos anos alteraram tão profundamente qualquer destes fatores que nada será como dantes para as esquerdas tal como as conhecemos. No que respeita ao colonialismo as mudanças radicais são de dois tipos. Por um lado, a acumulação de capital por despossessão violenta voltou às ex-metrópoles (furtos de salários e pensões; transferências ilegais de fundos colectivos para resgatar bancos privados; impunidade total do gangsterismo financeiro) pelo que uma luta de tipo anti-colonial terá de ser agora travada também nas metrópoles, uma luta que, como sabemos, nunca se pautou pelas cortesias parlamentares. Por outro lado, apesar de o neocolonialismo (a continuação de relações de tipo colonial entre as ex-colónias e as ex-metrópoles ou seus substitutos, caso dos EUA) ter permitido que a acumulação por despossessão no mundo ex-colonial tenha prosseguido até hoje, parte deste está a assumir um novo protagonismo (India, Brasil, Africa do Sul, e o caso especial da China, humilhada pelo imperialismo ocidental durante o século XIX) e a tal ponto que não sabemos se haverá no futuro novas metrópoles e, por implicação, novas colónias.

Quanto aos capitalismos nacionais, o seu fim parece traçado pela máquina trituradora do neoliberalismo. É certo que na América Latina e na China parecem emergir novas versões de dominação capitalista mas intrigantemente todas elas se prevalecem das oportunidades que o neoliberalismo lhes confere. Ora, 2011 provou que a esquerda e o neoliberalismo são incompatíveis. Basta ver como as cotações das bolsas sobem na exata medida em que aumenta desigualdade social e se destrói a proteção social. Quanto tempo levarão as esquerdas a tirar as consequências?

Finalmente, a democracia liberal agoniza sob o peso dos poderes fáticos (Máfias, Maçonaria, Opus Dei, transnacionais, FMI, Banco Mundial) e da impunidade da corrupção, do abuso do poder e do tráfico de influências. O resultado é a fusão crescente entre o mercado político das ideias e o mercado econômico dos interesses. Está tudo à venda e só não se vende mais porque não há quem compre. Nos últimos cinquenta anos as esquerdas (todas elas) deram uma contribuição fundamental para que a democracia liberal tivesse alguma credibilidade junto das classes populares e os conflitos sociais pudessem ser resolvidos em paz. Sendo certo que a direita só se interessa pela democracia na medida em que esta serve os seus interesses, as esquerdas são hoje a grande garantia do resgate da democracia. Estarão à altura da tarefa? Terão a coragem de refundar a democracia para além do liberalismo? Uma democracia robusta contra a antidemocracia, que combine a democracia representativa com a democracia participativa e a democracia direta? Uma democracia anticapitalista ante um capitalismo cada vez mais antidemocrático?

 

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

Você conhece a história dos 5 heróis cubanos que estão presos nos EUA?

Como leitura para as férias, recomendo o livro “Os últimos soldados da guerra fria”, de Fernando Morais, da editora Companhia das Letras. O livro, que não tem uma gota de ficção, conta a história de cinco cubanos que estão presos nos Estados Unidos há mais de 10 anos.

Todos sabem que os Estados Unidos não toleram a existência de uma ilha há poucos quilômetros de Miami que vive um regime socialista desde 1959, quando Fidel Castro, Che Guevara e vários outros heróis derrubaram o ditador Fulgência Batista.

Desde então os EUA mantém um criminoso bloqueio econômico, patrocinou mercenários na infantil invasão da baia dos porcos, criou a rádio Martí (Ronald Reagan) para difundir propaganda anticastrista junto à população cubana, entre outras questionáveis tentativas de intromissão junto a política interna cubana.

A Lei do Ajuste Cubano (Lei dos Pés Secos), de 1966 no período de Lyndon Johson, estimulava o êxodo de cubanos, garantindo ao cubano de pisasse nos EUA um visto de residente permanente e um ano depois o green card. Por que o país não fez ou faz o mesmo com mexicanos e brasileiros que saem de seus países?

Com o fim da União Soviética na década de 90, país que comprova o açúcar cubano, Cuba teve que começar a se abrir para o turismo internacional, para manter o seu regime que garante saúde, educação e uma vida digna aos seus cidadãos.

Com isso, organizações de extrema-direta na Flórida, composta por cubanos contrários a revolução, como por exemplo a Fundação Nacional Cubano-America, criada em 1981 por sugestão do mocinho de foroeste Ronald Reagan, que já jogavam pragas nas plantações cubanas, interferiam deliberadamente nas transmissões da torre de controle do aeroporto José Martí de Havana, começaram também a patrocinar mercenários latino-americanos que colocavam bombas em pontos turísticos de Havana e das prais de Varadero, inclusive com a morte e ferimento de turistas.

Essas organizações são compostas por muitos fazendeiros cubanos que perderam suas terras com a revolução socialista, amigos dos presidentes norte-americanos, normalmente os republicanos, e de presidentes de direita da Amárica Latina, como Carlos Menem.

Contra o terrorismo na ilha patrocinado pela extrema-direita da Flórida e realizado por mercenários, o governo cubano organizou a operação Vespa, e encaminhou espiões cubanos para Miami para investigarem as organizações terroristas, infiltrados entre os cubanos moradores nos EUA. Esses espiões não iriam investigar o governo norte-americano, mas apenas as organizações privadas terroristas.

Além de investigar o terrorismo contra o turismo da ilha os espiões também iriam investigar outros tipos de terrorismo, como por exemplo atentados contra aviões de passageiros cubanos que mataram vários inocentes. Alguns terroristas chegaram a ser presos mas foram indultados pelo presidente George Bush (pai) e outros presidentes latino-americanos de direita, ou tiveram seus processos arquivados por juízes conservadores de Miami.

Os espiões cubanos foram presos nos EUA, alguns participaram do programa de delação premiada e foram soltos, mas Gerardo Viramóntez Hernández, Tony Guerrero, Ramón Urso Labañino, Fernando Rubén Campa González e René González negaram que estivessem espionando o governo dos EUA, foram condenados por juri composto por moradores de Miami, onde 74% de sua população é  favóraveis as ações armadas promovidas contra Cuba, e até hoje estão na prisão nos EUA.

Um ex-assessor de segurança nacional de Jimmy Carter disse que “Um julgamento de agentes de inteligência cubanos em Miami será tão justo quanto seria o julgamento de agentes da inteligência de Israel em Teerã”.

Um das alegações para a condenação dos heróis cubanos foi que com suas informações, um avião com 4 mercenários de Miami foi derrubado por MIGs cubanos, avião que estava irregularmente em território cubano.

Para detalhes e outras histórias interessantes, recomendo a leitura do livro!

Fernando Morais utilizou informações de 5 sites:

http://www.antiterroristas.cu

http://www.cubadebate.cu

http://www.foia.ucia.gov

http://www.freethefive.org

http://www.huffingtonpost.com

http://www.pedropan.org

http://www.thecuban5.org

Isto não está no livro, mas informo que um dos 5 heróis cubanos presos nos EUA foi liberado da prisão no dia 07 de outubro de 2011 e agora ficará sob liberdade vigiada. Depois de 13 anos preso, René Gonzalez foi libertado e terá que aguardar por 3 anos em solo estadunidense para poder ter visto e então regressar a Cuba.

Pérolas das entrevistas com os pré-candidatos a prefeito de Curitiba na Gazeta do Povo

Fábio Camargo (PTB) disse que já andou bastante de ônibus! Ãhã…

Angelo Vanhoni (PT) pareceu menos candidato e mais entusiasta de alianças.

Gustavo Fruet (PDT) foi o único que fez questão de deixar claro que torce para um time de futebol, o Coritiba.

Ratinho Júnior (PSC) quer copiar Madrid: a quantidade de chafarizes.

Ratinho Júnior disse que uma lembrança de Curitiba que não existe mais é o Zoológico do Passeio Público. Mas o Zoo ainda existe!

Renata Bueno (PPS) destacou como personagem histórico de Curitiba o Oil Man. Então o meu é o “tio” que vende sorvete nos estádios gritando “abacaxiiiiiiii!”

Fábio Camargo, Gustavo Fruet e Ratinho Júnior citaram como personagem importante de Curitiba o Jaime Lerner. Será que eles esqueceram o trágico governo Lerner (1995-2002), com as privatizações, tentativa de privatização da Copel, pedágio escorchante e denúncias de corrupção? Lerner chegou a ser condenado por um aditivo contratual com as concessionárias mas a ação prescreveu.

E, infelizmente, o prefeito Luciano Ducci se recusou em participar das entrevistas. Medo?

Entrevista com Tadeu Veneri na Gazeta do Povo

Foto de Henry Milléo/Gazeta do Povo

“Temos cada vez mais uma cidade do espaço privado”

Tadeu Veneri (PT), deputado estadual

Publicado em 11/01/2012 | CAROLINE OLINDA

O deputado estadual Tadeu Veneri diz não abrir mão de disputar internamente a indicação do PT para ser candidato à prefeitura de Curitiba. Contra essa vontade, aparece a ala majoritária do partido, que já indicou a intenção de fazer uma aliança e apoiar a candidatura de Gustavo Fruet (PDT). Além desse grupo, Veneri ainda tem como pedras no caminho os deputados federais Dr. Rosinha e Angelo Vanhoni, que também se colocam como pré-candidatos petistas.

Apesar de toda essa disputa interna, o deputado afirma que o PT manterá a unidade na eleição. “Sabemos que não há a menor possibilidade de nós crescermos no processo eleitoral se não tivermos unidade.”

Quem é

Tadeu Veneri (PT)

– Nasceu em União da Vitória (PR), em 1953.

– Está no terceiro mandato como deputado estadual.

O pré-candidato Gustavo Fruet (PDT) afirma que negocia com o PT uma aliança. Como está a situação do partido em relação à eleição de 2012?

Por todo o carinho que tenho pelo Gustavo, há um equívoco nessa afirmação dele. Não há negociações com o PT. Ele está negociando com pessoas do PT e com uma ala. Oficialmente, o PT tem um calendário para decidir por ter candidatura própria. Se o Gustavo está entendendo que está negociando com o PT, alguma coisa está errada nessa conversa. Em nome do PT, não há negociação. Temos um calendário produzido pelo diretório nacional e não vai ser um dirigente que vai se sobrepor ao partido. Seria uma situação surreal nós acharmos que pessoas individualmente são maiores que o processo coletivo.

Mas a cúpula do partido tem defendido haver um único candidato da base.

A cúpula tem o direito e a legitimidade de querer o que ela quiser, desde que ela passe pelos pressupostos internos partidários. Ela pode ter desejos e isso é legítimo. Mas daí a você ter esse desejo transformado em realidade, tem um caminho chamado partido. E eu não abro mão de disputar internamente a candidatura.

Ter várias candidaturas de oposição diminui a possibilidade de derrotar o atual prefeito?

Se a disputa for polarizada, eu não tenho a menor dúvida de que quem ganha é o candidato que estiver no governo, seja o candidato que for, seja do partido que for. Porque você polariza entre continuar com a administração ou romper com essa administração. Tem a vantagem também de toda a estrutura da máquina pública, que é considerável, a vantagem das relações construídas com segmentos empresariais e com segmentos da sociedade que a oposição tem dificuldades de atingir. Essa disputa feita entre um candidato de oposição e um de situação leva o candidato que tem uma avaliação de governo positiva e uma avaliação pessoal positiva a vencer no primeiro turno. Então, nós entendemos que se o PT tiver candidatura própria, o PPS, o PDT, o PMDB e enfim, se todos os partidos que têm condições de fazer questionamentos sobre a cidade, o resultado disso será melhor para todos nós. Incluindo o prefeito Luciano Ducci (PSB). Isso porque, se eleito numa situação que, de alguma forma o leve a assumir compromissos explicitados publicamente, seu governo terá um perfil muito melhor.

O PT tem hoje três pré-candidatos colocados. Isso enfraquece uma possível candidatura do partido?

Não. Eu acredito que nós três [além do próprio Veneri, também são pré-candidatos do partido os deputados federais Dr. Rosinha e Angelo Vanhoni] temos claro que qualquer um que venha a ser o indicado será o indicado do partido. E sabemos que não há a menor possibilidade de nós crescermos no processo eleitoral se não tivermos unidade. E a unidade se dá, não no discurso, se dá na prática. Temos um tempo para fazer a divergência e para a multiplicidade de opiniões que antecedem as decisões.Mas temos de ter unidade na ação.

Já pensa em alguma inovação para a cidade?

Curitiba foi aprisionada em alguns pressupostos que particularmente eu não concordo. Um deles é que Curitiba é conservadora, que sempre foi desse jeito e não tem como mudar. Dessa forma, se aprisiona a alma da cidade e se repete isso indefinidamente pa­­ra que as pessoas realmente acreditem que não há, por exemplo, como ter um processo que substitua o automóvel por um sistema de transporte mais eficiente […]. Esse é um pressuposto que, me parece, está muito presente. Então, as coisas que nós gostaríamos de alterar seriam essas relações entre as pessoas que olham o ônibus talvez como um castigo e fazer com que o ônibus passe a ser um direito.

Qual a opinião do senhor sobre o projeto do metrô?

O metrô é importante. Mas o metrô é para daqui a dez anos. Engana-se aquele que pensa que, em três anos, o metrô estará sendo utilizado como em todas aquelas fotografias belíssimas, com a limpeza que se pretende, com todas as linhas funcionando. Não é verdade. E daqui a três anos vão dizer: “Olha, não deu certo agora. E vamos esperar mais três”. Aliás, a Linha Verde era para estar inteira pronta há oito anos. Acho que se faz muito da política da empulhação, do processo de mistificar essa cidade como se fosse perfeita, e não se discute o que acontece para que se tenham índices tão diversos e situações tão diferentes. Uma cidade onde as pessoas andam o tempo inteiro com os vidros dos carros fechados, uma cidade que está se “enguetando” [criando guetos] cada vez mais em condomínios fechados, se fechando em prédios com cercas, com grades, com cachorros. Você está tirando dos parques, das praças e transferindo esse espaço público para o espaço privado. Você olha os shoppings como o único lugar em que pode andar sossegado aos sábados e aos domingos à noite. É o caos. Porque você separa a cidade. E, quando você parte a cidade, não pode pedir para aqueles que ficam de fora que não tentem entrar.

Mas essa não é uma característica exclusiva de Curitiba. Acon­tece em cidades grandes de todo o país.

É do país, mas é muito específica de Curitiba. Curitiba tem uma dificuldade muito grande de olhar para si mesma. As pessoas que aqui estão têm uma dificuldade muito grande de reconhecer que nós temos problemas e a primeira forma de você resolver o problema é reconhecer que ele existe. Quando se fala dos problemas de Curitiba, automaticamente quem está no poder, até mesmo a parte intelectual da cidade, entende que você está falando mal da cidade. Mas se ignora que você está gastando R$ 40 milhões para um eixo urbano interno da cidade e a 10 quilômetros do centro você não tem condições de andar porque as calçadas não existem. Quem se beneficia do que a cidade produz? Como se beneficia do que a cidade produz? […] Temos cada vez mais uma cidade do espaço privado, com aqueles que podem e que fazem, e aqueles que não podem, mas que querem fazer. E aí as coisas se complicam.

Quais as soluções para melhorar o sistema de transporte público e o trânsito?

Sou contra penalizar o motorista do transporte individual sem que ele tenha a opção do transporte público. Se você tivesse um transporte público de excelência, poderia fechar parte das ruas do centro de forma a dificultar que o transporte individual prevaleça sobre o transporte público. Também poderia ser aberta a possibilidade para que as pessoas pudessem ir para o seu local de interesse e ter um tempo para voltar sem ter de pagar nova passagem. Também se tivéssemos uma cultura de o terminal ser um espaço onde as pessoas possam se encontrar, onde tenha um bicicletário correto, um estacionamento correto, onde se tenha segurança, obviamente que as pessoas iriam preferir andar de ônibus. Não num processo curto e imediato, mas num processo de médio e longo prazo. Mas, se nós não pensarmos o que queremos de Curitiba para daqui 30, 40 ou 50 anos, não vamos conseguir pensar o que queremos de Curitiba para daqui seis meses.

Estaria disposto a ampliar as ciclofaixas?

Não é lógico que uma cidade que tem quase 2 milhões de habitantes use todas as suas vias ou 99% delas com estacionamentos para carros. Se você tem estacionamento dos dois lados da via, por que você não pode ter estacionamento em um dos lados e do outro ter espaço para a bicicleta? Mas não basta ter ciclovias ou ciclofaixas sem que se coloque nas empresas um alojamento correto para que a pessoa possa trocar de roupa, tomar um banho, se achar necessário.

Quem é o curitibano?

Uma pessoa extremamente generosa.

E como definir Curitiba?

Também uma cidade extremamente generosa. Generosa porque recebe a tudo e a todos. Por isso que virou essa bagunça que ela é.

O que o senhor viu em outras cidades que adaptaria a Curitiba?

Temos experiências geniais em cidades do mundo todo na parte cultural, como em Barcelona, Porto Alegre e São Paulo.

O curitibano é tímido ou fechado?

Quem acha que o curitibano é tímido ou fechado nunca foi a um estádio de futebol.

O senhor costuma andar de ônibus?

Eu uso o Inter 2 todas as manhãs às 8h30. Mas é muito confortável para eu vir porque eu não venho às 6 horas ou ao meio-dia. E essa linha, no trecho que eu pego, que é do Colégio Militar ao Centro Cívico, é mais tranquila.

Frustração e ódio à democracia – Paulo Ghiraldelli Jr

Carlos Lacerda, símbolo do udenismo

Hoje na Folha de S. Paulo

Não é porque a classe média conservadora não tem porta de quartel para bater que ela não deve ser vista como fomentando algo perigoso

Lula repetiu Vargas, mas com mais sucesso. Nossa democracia atual imita um pouco a de 1945-1964, mas com menos melodrama. O elo entre elas é a oscilação do “udenismo”. Eu explico.

Após 1945, segundo o figurino democrático, Vargas criou dois partidos: o PSD (Partido Social Democrático) e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Com o primeiro, agarrou funcionários públicos e parte dos setores agrários. Com o segundo, acolheu os sindicalistas.

Na oposição, ficou a UDN (União Democrática Nacional), que de um ideário liberal inicial foi para uma bandeira única: o combate à corrupção. “Udenismo” e “moralismo” tornaram-se sinônimos.

Quando, nos anos 1980, o Brasil iniciou seu caminho sem volta para o fim do regime militar, as oposições ganharam espaço por meio do PMDB e do PT. Ainda que o PT tivesse uma série de propostas, o discurso ético e moral era o seu carro chefe. O PMDB dizia que aquilo não era política, apenas um “udenismo” com capa de esquerda.

Com o PT participando de cargos executivos, o discurso ético perdeu força. O termo já era cadáver quando, com o mensalão de 2005, o PT acabou com a possibilidade de apresentar qualquer discurso moral. O PT enterrou seu apelido de “udenista” do modo mais irônico possível.

Foi então que uma parte da classe média, de mentalidade conservadora, agarrou o discurso moralista, contra a corrupção. Não tendo nenhum partido próprio, foram ao PSDB. Atônito, o PSDB terminou por aceitá-los e, por isso mesmo, como havia ocorrido com a UDN, acabou se distanciando das parcelas mais amplas da população.

Afinal, após 2005, Lula recolheu os cacos do PT pós-mensalão e então realmente começou a governar. Com Mantega à frente, ele fez vingar o programas de bolsas, o PAC e toda uma política de ampliação do mercado interno, anulando a má herança do governo FHC e, ao mesmo tempo, sabendo aproveitar a estabilidade da moeda que o ex-presidente havia deixado.

Assim, Lula se tornou uma quase unanimidade nacional. Quase unanimidade porque o discurso moralista, o “udenismo”, ainda que minoritário e completamente ideológico -talvez até hipócrita-, tem lá o seu folêgo. Quando começa a perder gás, a imprensa acha mais um naco podre no governo, pondo Dilma a dar vassouradas aqui e ali.

A classe média conservadora, vendo a sua impotência eleitoral ganhar clímax nos fracassos do PSDB, vai para a internet para “fazer política com as próprias mãos”.

Despeja na rede toda a sua frustração e seu ódio à política democrática. Nesse tipo de onda, as pessoas começam a querer punições sem investigações acuradas, alimentando uma postura autoritária.

Para eles, a democracia passa a ser vista como algo ruim, uma vez que ela parece só dar vitórias ao Lula ou, digamos, aos setores populares. Aliás, esse tipo de ódio não está distante do que sempre existiu no interior do “udenismo”. Eis a minha conclusão, em forma de alerta: não é porque esses setores não possuem porta de quartel para bater que eles não deveriam ser vistos como fomentando algo perigoso.

PAULO GHIRALDELLI JR., 54, filósofo e professor da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), é autor de “A Filosofia como Medicina da Alma” (editora Manole)