‘O mercado invadiu quase tudo’: entrevista com Michael J. Sandel no O Globo
No Brasil para palestras sobre novo livro, filósofo americano critica interferência da lógica financeira na vida pública e particular
A empresa americana LineStanding.com apresenta-se como líder “em ajudá-lo contra a multidão”. Por meio dela, lobistas pagam para que alguém fique na fila de audiências no Congresso, ajudando-os a passar à frente de, por exemplo, representantes comunitários. É também por dinheiro que se tenta despertar o gosto pela leitura em crianças de várias escolas americanas: elas recebem US$ 2 por cada livro lido. Viciadas em drogas recebem para ligar as trompas, assim como obesos ganham dinheiro para emagrecer e tabagistas para parar de fumar. Compram-se óvulos, aluga-se um útero (mais barato na Índia do que nos EUA), vende-se sangue.
Tantos e tão surpreendentes exemplos são usados como argumentação contra o “preocupante nascimento da sociedade de mercado, para a qual quase tudo está à venda”, segundo o filósofo americano Michael J. Sandel, em seu mais novo livro: “O que o dinheiro não compra: os limites morais do mercado” (Civilização Brasileira, tradução de Clóvis Marques).
Popstar da filosofia atual, Sandel, de 58 anos, foi eleito pela revista “Newsweek” o estrangeiro mais influente este ano… na China. Tudo por conta do curso “Justiça” — disponível em livro (“Justiça: o que é fazer a coisa certa”) e no site Justice Hard. No curso, acompanhado por mais de 15 mil alunos de Harvard, Sandel usa exemplos cotidianos para ilustrar o pensamento de Aristóteles, Kant e John Stuart Mill, discutindo temas como ética, moral e a política como veículo para atingir o bem comum.
Esta semana, Sandel visitou São Paulo, Fortaleza e Brasília, onde deu concorridas palestras de quatro horas, adaptando à realidade do país suas inquietações relacionadas ao triunfalismo da economia de mercado (“É justo Neymar ganhar R$ 3 milhões por mês para jogar no Santos enquanto um professor do ensino médio ganha R$ 1 mil?”, perguntou). Sandel conversou com O GLOBO depois da palestra em São Paulo.






















