Charge: Deus e Estado Laico X Religião na Política

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Ciência e religião – Mino Carta

As caridosas e sábias lições do cardeal Carlo Maria Martini

Editorial da Carta Capital de 18 de abril de 2012, por Mino Carta

Sou filho de um anticlerical agnóstico e de uma católica praticante. Meu pai, que poderia ser visto pelos anjos como “homem de boa vontade”, não hesitou em matricular os dois filhos no curso primário do colégio genovês das marcelinas, por serem elas, em plena Segunda Guerra Mundial, antifascistas. Tenho das freiras lembrança saudosa, embora as aulas de catecismo e relativas provas não fossem de pura diversão. Outras coisas valiosas aprendi com elas, e neste aprendizado não incluo o fato de ter sido competente coroinha, presa de uma ponta de exibicionismo a bem do justo exame de consciência.

A lição paterna, de todo modo, influenciou bem mais meus comportamentos do que a de minha mãe, e assim esclareço por que meu propósito é tocar em assuntos a envolverem fé religiosa e atitudes eclesiásticas. Espanta-me, confesso, que ao cabo de oito anos de debates, o Supremo Tribunal Federal somente agora decida se grávidas de fetos sem cérebro podem abortar sem risco de acabarem presas. E falamos de seres destinados ao oblívio em vida.

Quando, candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff aventou a possibilidade da descriminalização do aborto, foi grita geral. A ex-guerrilheira ousava além da conta e a ideia foi rapidamente abortada. Há muito tempo o aborto deixou de ser crime nos países mais civilizados e democráticos do mundo. Na Itália, cujo Estado e cuja Justiça foram afrontados pelo governo brasileiro no Caso Battisti, o aborto foi descriminalizado na década de 70, na época em que, segundo o ex-ministro Tarso Genro e eminentes juristas nativos, a Península era dominada por um governo de extrema-direita contra quem se insurgiam heróis da resistência como Cesare Battisti. Diante disso, o arco da velha descoloriu.

Não sei o que se pode esperar do nosso Supremo. Mas que aquela questão esteja em pauta, e em uma versão que não aceita perplexidades, é de pasmar. Leio um pequeno livro que a Editora Einaudi acaba de lançar na Itália, registra o diálogo entre o cardeal Carlo Maria Martini, figura extraordinária que concorreu à vaga papal com o então cardeal Ratzinger no Consistório de 2005, e o cientista Ignazio Marino. Observa Martini que a postura negativa e apriorística da Igreja diante das mudanças provocadas pelo progresso e pela técnica nunca foi bem-sucedida. Galileu docet, ensina, acrescenta.

Martini não tem dúvidas, e nem pode tê-las à luz da sua fé: na hora em que o espermatozoide penetra o óvulo, a vida começa. É como o toque de dedos entre Deus e Adão no afresco da Sistina. O Brasil é, porém, um Estado laico, nele quem professa algum credo religioso tem a mesma liberdade de decidir o destino da gravidez quanto o tem quem não professa credo algum. O professor Safatle escreveu a respeito uma coluna magistral há quatro semanas. E nem se fale da situação agora entregue à decisão do STF. No caso, mandam a lógica, a razão, o senso comum, por cima das crenças ou da falta delas.

Há inúmeros momentos exemplares no diálogo entre o cardeal e o cientista. Por exemplo. Pergunta Marino: “Não seria razoável encaminhar com urgência um debate internacional em busca de um equilíbrio entre o mundo da ciência e as diversas sensibilidades éticas e religiosas, superando com honestidade intelectual as atitudes dogmáticas?” Responde Martini: “Parece-me evidente que não podemos deixar de ouvir os cientistas (…), por isso é desejável que a discussão ocorra de forma serena e construtiva, não somente no que tange às células-tronco, mas, em geral, a respeito de temas éticos que com razão agitam almas e consciências”.

O cardeal não evita discorrer acerca da sexualidade, “campo obscuro, profundo, magmático, difícil de definir, parte da existência onde entra em jogo o subconsciente (ou o inconsciente?) e onde as explicações racionais podem defrontar-se, tanto no plano individual quanto no de grupos sociais e nas culturas, com uma resistência interior que não se deixa convencer”. Segundo Martini, existem dentro de cada um “cavernas obscuras e labirintos impenetráveis”. De mais a mais, “o filão evolutivo que inclui o homem não se esgotou, de sorte que não podemos prever facilmente os desenvolvimentos dos próximos milênios”. Temos, portanto, um cardeal evolucionista.

E vem à tona uma questão crucial, o homossexualismo. E o cardeal pronuncia algo inédito em relação às posições de sua Igreja. Ele se diz pronto a admitir que “a boa-fé, as experiências de vida, os hábitos adquiridos, o inconsciente e provavelmente alguma inclinação de nascimento podem levar à escolha de uma vida em parceria com alguém do mesmo sexo”. Diz ainda: “No mundo atual, esse gênero de comportamento não se presta, portanto, a ser demonizado ou condenado”.

Não consigo escapar a uma derradeira reflexão: o mundo de hoje não mereceria um papa Martini em vez de um papa Ratzinger? Certas desventuras, infelizmente, não acontecem por acaso.

Verissimo fala sobre religiões e eleição estadunidense

Hoje, em vários jornais do país, como O Globo e Gazeta do Povo

Religiões – Luis Fernando Verissimo

Se for eleito, Mitt Romney será o primeiro presidente mórmon dos Estados Unidos, ou, que eu saiba, de qualquer outro país. A Igreja Mórmon foi criada no século dezenove pelo americano Joseph Smith, que a baseou em contatos pessoais que teve com Deus e com Jesus Cristo e em mandamentos que recebeu das mãos de um anjo chamado Morôni, na forma de tabletes de ouro.

Quando John Kennedy candidatou-se a presidente dos Estados Unidos diziam que ele jamais se elegeria, pois um católico teria que ser mais leal ao Papa do que à Constituição do país. Kennedy se elegeu e, no seu curto governo, nunca consultou o Papa sobre nenhum assunto de Estado. Hoje ninguém parece ter um temor igual com relação à religião de Romney. A religião tem mesmo estado ausente nos debates entre os republicanos que querem ser candidatos à Presidência. Talvez porque Romney não seja um mórmon praticante. Sua religião permite a poligamia, por exemplo, e ele só tem uma mulher. Se bem que, depois de elegerem Barack Obama, os americanos provavelmente não hesitariam em experimentar esta outra novidade: três ou quatro primeiras-damas em vez de uma!

A religião de cada um é questão de cada um e não deve mesmo fazer parte do embate político, e o mundo e a vida são coisas tão misteriosas que nenhuma teoria sobre de onde viemos, para onde vamos e quem pagará a corrida é mais improvável ou menos absurda do que outra. Toda a civilização cristã se baseia em mitos e milagres apenas mais antigos do que os relatados por Joseph Smith. Mas não há como não se assustar com o poder crescente em nossas vidas do fundamentalismo, que é a religião no seu estado impermeável. O poder real no Irã não é o do presidente Ahmadinecoisa e dos políticos, é dos aiatolás e suas mentes medievais. Uma minoria ortodoxa insiste em fazer de Israel uma teocracia sem concessões, e o radicalismo do lado palestino não é menor. O fanatismo religioso islâmico inquieta e a reação ao terror também. E o mais assustador é tudo que as pessoas estão dispostas a acreditar — ou tudo que uma mente religiosa está predisposta a aceitar, de pastores pilantras a martírios suicidas. O sono da razão gera monstros, diz aquela frase numa gravura do Goya. O sono da razão parece ficar cada vez mais profundo, na noite atual.

Como Romney ainda não foi chamado a falar da sua religião, não se sabe como seria uma hipotética intervenção do anjo Morôni nas suas decisões, na Presidência. Por via das dúvidas, é melhor torcer pelo Baraca.

Esposa de Kaká detona a Igreja Renascer e critica o fanatismo religioso

Casal Sonia e Estevam Hernandes, donos da Igreja Renascer em Cristo, jogador Kaká e a sua esposa, Caroline Celico,

Mulher de Kaká desabafa: “era heroína da fé, mas tratava mal quem trabalhava para mim em casa”

Do Vírgula

Carol Celico, esposa do jogador Kaká, resolveu quebrar o silêncio e falar sobre o desligamento do casal da Igreja Renascer, ocorrido há cerca de um ano. Em entrevista à revista “Istoé”, a ex-pastora afirmou que cresceu e aprendeu com os erros cometidos no passado.

“Não penso mais como aquela Carol, mais imatura, influenciável. Quero seguir o meu caminho com as minhas próprias pernas. Esse foi o motivo pelo qual saí da Renascer”, afirmou Carol.

A mulher de Kaká ainda falou da relação com sua mãe, Rosângela Lyra, católica e empresária da moda, que tentou conter o fanatismo de sua filha.

“Ela quis me proteger da Renascer. Tentou me afastar da igreja, mas sempre que ela tentava, eu entrava mais e mais. Cheguei a jogar fora as coisas dela de santo, a quebrar uma pulseirinha. Me envolvi completamente, fui fanática”, revelou.

Em 2009, no auge de seu fanatismo pela igreja, Carol chegou a afirmar que Deus havia dado dinheiro ao Real Madrid para contratar seu marido. “Me arrependo profundamente dessa declaração. Escutei de uma pessoa e repeti”, disse.

“Foi um baque perceber que estava querendo agradar mais a pessoas do que a Deus. Olhando as atitudes dos meus líderes, percebi situações em que a palavra não condizia com a atitude. Na igreja, eu era superheroína da fé, superpastora, mas chegava em casa tratava mal a pessoa que trabalhava para mim”, completou.