Amanhã, 9h30, conferência de António José Avelãs Nunes sobre “O ‘fascismo de mercado’e o Estado Social, na UFPR

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Na Folha de S. Paulo de hoje.

República e desenvolvimentismo

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Novo desenvolvimentismo social é a melhor estratégia para alcançar a República, que é o objetivo de todos

A República somos nós; é a nação e o Estado brasileiro; é a solidariedade necessária entre todos os homens; é a esperança em um Estado mundial. A República representa os valores e os objetivos políticos que a humanidade construiu para si; é a segurança e a paz, é a liberdade individual que nos foi ensinada pelo liberalismo político, é o bem-estar econômico defendido pelo desenvolvimentismo, é a democracia e a justiça social propostas pelos socialistas; é a proteção da natureza e, mais amplamente, da “res publica”, defendida pelo republicanismo.

O novo desenvolvimentismo é a estratégia para promover o progresso ou o desenvolvimento, para alcançar aqueles grandes objetivos políticos definidos nos últimos 300 anos e para, assim, garantir direitos: os direitos civis, os direitos políticos, os direitos sociais e os direitos republicanos, estes definidos como o direito de cada cidadão de que o patrimônio público não seja capturado por interesses privados.

O principal instrumento que os homens têm para alcançar esses objetivos ou afirmar esses direitos é o Estado, ou seja, o sistema constitucional-legal e a organização que o garante. O segundo instrumento é a política, e o terceiro é o mercado.

Enquanto o Estado é a instituição maior de uma sociedade nacional, que coordena toda a vida social, o mercado é uma instituição regulada pelo Estado que é insubstituível quando se trata de coordenar um sistema econômico competitivo.

Na antiguidade o Estado era o instrumento da oligarquia militar e religiosa. A partir da Revolução Capitalista –a maior da humanidade desde o surgimento da agricultura e da formação das primeiras grandes civilizações– o Estado vem se tornando gradualmente democrático, fruto de muita luta. Desde então o mercado passou a complementar a coordenação do Estado.

O progresso ou o desenvolvimento sem adjetivos é um processo histórico que tem início quando a Revolução Industrial completa a revolução capitalista. A partir desse momento tem início o desenvolvimento econômico que abrirá espaço para a realização dos grandes objetivos que a humanidade definiu para si própria: segurança, liberdade individual, bem-estar econômico, justiça social e proteção do ambiente.

O desenvolvimento não nos é dado de presente. É fruto de construção social, que implica conflito e cooperação em sociedades de classes sociais. Implica luta de classes e possibilita coalizões entre elas.

A luta de classes almejava o socialismo, e não foi resolutiva. Já as coalizões de classe são hoje a forma de organização da sociedade através da qual a luta pelo desenvolvimento se dá. Ela se trava entre coalizões desenvolvimentistas formadas frouxamente por empresários, trabalhadores e burocracia pública, e coalizões liberais de capitalistas rentistas e financistas. A República é o objetivo de todos. Mas um novo desenvolvimentismo social sempre renovado é a melhor estratégia para alcançá-la.

Esta foi minha última coluna. Aproveitei-a para resumir os principais valores e crenças que me orientaram ao escrevê-la. Agradeço aos meus leitores, que me acompanharam durante esses anos, e à Folha, que a abrigou.

Idiotas, estúpidos e simpatizantes – Thomaz Wood Jr.

Na Carta Capital de 28 de março de 2012

O mundo dos negócios está cheio de babacas em altos postos. Portanto, é preciso ser estúpido para ter sucesso… Ou não?

A sacada foi de Tom McNichol, em texto veiculado no website da revista The Atlantic. Escreveu o autor: “Steve Jobs foi um visionário, um inovador brilhante que remodelou indústrias inteiras pela força de sua vontade, um gênio na capacidade de dar aos consumidores o que eles queriam, mas não sabiam que queriam. Ele foi também um babaca de primeira classe”.

Isso mesmo, leitor, o cultuado criador da Apple, super-herói dos negócios, fênix do empreendedorismo, mago dos produtos eletrônicos, foi, certamente, brilhante e carismático. Porém, revela a biografia escrita por Walter Isaacson, foi também petulante, rude e hipercontrolador. Na empresa, humilhava seus funcionários e assumia o crédito pelo trabalho dos outros. Não era muito melhor na vida pessoal: estacionava seu carro em lugares reservados para deficientes e evitou reconhecer a paternidade de sua filha. Em suma, era uma contradição ambulante.

A leitura da biografia de Jobs, best seller em vários rincões do planeta, talvez estimule alguns babacas que se acham gênios a exteriorizar sua estupidez. Quiçá, como sugere McNichol, a nova safra de livros de negócios nos brinde com títulos tais como: Os Sete Hábitos dos Babacas Altamente EficazesO Babaca minuto ou Quem Foi o Babaca que Mexeu no Meu Queijo? Aos quais poderíamos acrescentar: O Monge e o Executivo BabacaA Inteligência Emocional do Babaca e Babaquice para Dummies.

Apesar dos casos de Jobs e de outros gênios que se comportam frequentemente como babacas, contudo, não se pode afirmar que haja causalidade entre uma característica e outra. Robert Sutton, um professor de gestão da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e autor de um livro sobre o tema – The No Asshole Rule: Building a civilized workplace and surviving one that isn’t –, acredita que a presença de idiotas na empresa envenena o ambiente e induz à saída de bons funcionários. Sutton define idiotas como indivíduos que propositalmente fazem seus colegas se sentirem mal sobre si mesmos, hostilizando especialmente os mais fracos.

Então, se idiotas, estúpidos e congêneres são ruins para o ambiente organizacional e para os negócios, como explicar o caso Jobs? E como explicar dezenas de outros casos? De fato, é difícil encontrar uma organização que não tenha pelo menos um babaca na diretoria, eventualmente no posto de primeiro executivo.

Certo nível de babaquice é natural e aceito. Somos frequentemente tolerantes em relação às excentricidades e excessos de amigos e colegas. E eles com os nossos. Nas empresas, o nível de tolerância à babaquice aumenta com a distância relativa entre o babaca e o tolerante (primeiro axioma). Presidentes são modestos babacas com seus diretores, mas podem ser tornar tremendos babacas com gerentes juniores. Além disso, menor o nível na pirâmide, maior o nível exigido de tolerância (segundo axioma). Na base, encontra-se o hipertolerante estagiário, que atura a babaquice de todos acima dele e só consegue ser babaca com seu irmão mais jovem, ou com seu cachorro. Mas o seu dia de glória chegará.

Devemos aceitar que nem todos os estúpidos são estúpidos em tempo integral. Os babacas mais experientes aprendem a dosar sua babaquice para obter o melhor efeito. Alternam momentos de fúria intimidadora com outros de relativa ternura, para cativar os corações mais sensíveis e sossegar os estômagos mais frágeis. Quando no topo, costumam contar com ajudantes de ordem, que limpam os destroços que deixam no caminho. Além disso, a estupidez pode ter ao menos uma vantagem: ajudar a fazer o paquiderme corporativo andar, enfrentando grupos de poder e desafiando o status quo.

Pergunta-chave: qual será o efeito da canonização de Jobs e da popularidade de sua biografia? McNichol não acredita que a nova bíblia dos negócios afete o comportamento de gestores de nível médio, de temperamento equilibrado. O mais provável é que torne patrões que já são estúpidos ainda mais estúpidos, piorando o clima em suas empresas.

O autor toca um ponto importante. Livros de negócios, especialmente os mais populares, não são comprados para ser lidos. Eles servem principalmente para adornar estantes e garantir ao comprador algumas “tiradas” para conversas de corredor. O conteúdo é quase sempre óbvio e o sucesso vem do eco que provoca nas estepes desoladas das mentes dos executivos: “Puxa, é exatamente o que eu penso!”

Nesse sentido, a premonição de McNichol deve ser considerada com seriedade. A eventual leitura, dinâmica e seletiva, da biografia de Steve Jobs pode captar apenas os vícios do personagem, ajudando a justificar e promover os vícios similares do babaca leitor. Preparai-vos, tolerantes do mundo!

Pasárgada Maculada – Thomaz Wood Jr. – Carta Capital

Na Carta Capital de 29/02/2012

Pesquisa aponta quatro comportamentos viciosos, comuns entre executivos, que minam o comprometimento com o trabalho

Os livros de gestão e as revistas de negócios parecem ser editados em uma ilha da fantasia. O tom, criado por escritores, jornalistas e editores, é ufanista. Os textos são comumente laudatórios. Na Pasárgada corporativa, ninfas e efebos aspiram postos executivos, empreendedores audaciosos encontram potes de ouro e empresários experientes revelam risonhos como chegaram ao topo. Nesse mundo encantado, o trabalho duro move as carreiras e o mercado recompensa as empresas virtuosas. A estética da Pasárgada corporativa é pe-culiar. Sua paisagem destaca arranha-céus envidraçados, pátios repletos de contêineres coloridos, campos geometricamente cultivados, linhas de montagem robotizadas e executivos mirando o horizonte. Da Pasárgada corporativa, foram banidos os jogos de poder, os golpes baixos e os lobbies escusos. De lá, todos os sujos, feios e malvados foram deportados.

Vez por outra, entretanto, a mídia da Pasárgada corporativa abre espaço para tratar de desvios e desviantes. Uma edição recente da revista McKinsey Quarterly trouxe artigo de Teresa Amabile, uma professora de Harvard, escrito em parceria com Steven Kramer, um pesquisador independente, sobre o comportamento vicioso de alguns líderes. Segundo os autores, muitos executivos de alto nível rotineiramente minam a criatividade e a produtividade de seus liderados. Amabile e Kramer analisaram mais de 800 diários eletrônicos de profissionais envolvidos com projetos de inovação em sete empresas. A investigação resultou na identificação de quatro comportamentos sabotadores.

O primeiro comportamento sabotador é a emissão de sinais de mediocridade. Ocorre quando a alta gestão estabelece uma agenda audaciosa de mudanças, baseadas em inovações em produtos e serviços. No entanto, no dia a dia, os executivos continuam se preocupando com os gastos com o cafezinho. Amabile e Kramer citam o caso de uma das empresas pesquisadas, na qual a alta gestão fomentou a formação de equipes autônomas multifuncionais, voltadas para o desenvolvimento de produtos inovadores. No entanto, na prática, os executivos cerceavam a liberdade dos grupos e preocupavam-se somente com redução de custos.

O segundo comportamento sabotador foi denominado ironicamente de desordem de déficit de atenção estratégica. Toda empresa precisa monitorar continuamente o ambiente para poder definir suas ações. Deve identificar mudanças no comportamento dos consumidores, movimentos dos concorrentes, tendências econômicas e tecnológicas. A realidade, na prática, é bem diferente. Em muitas organizações, o ambiente é monitorado de forma aleatória, informações irrelevantes são supervalorizadas e fatos relevantes são ignorados. Muitas ações são definidas, mas poucas são implementadas e raras são acompanhadas. As mudanças de direção são constantes e mal comunicadas, gerando sensação de falta de rumo e descrédito.

O terceiro comportamento sabotador é o isolamento crônico. Muitos executivos agem como se liderassem exércitos bem treinados e disciplinados, operando com metas claras e sob padrões bem definidos. Vivem em uma redoma protegida, à qual só chegam boas notícias. Entretanto, fora da redoma, impera o caos e a gestão lembra antigos filmes-pastelão. Processos e normas existem apenas para inglês ver. Os gestores intermediários promovem guerras fratricidas e muitas iniciativas importantes perecem sob o fogo amigo.

O quarto comportamento sabotador é o desvirtuamento de objetivos ambiciosos. Seguindo a pregação de seus gloriosos gurus, a alta gestão divulga uma visão audaciosa de futuro e informa objetivos agressivos, comumente envoltos com um forte apelo emocional para os funcionários. No entanto, tais declarações frequentemente não passam de retórica, com pouco significado para a linha de frente. As visões de futuro costumam ser tão extremas que são vistas como inviáveis. Forma-se, então, um vazio, que alimenta o cinismo e a inércia.

Esses quatro comportamentos têm efeitos negativos sobre os profissionais e sobre o desempenho das empresas. E interferem na relação que cada indivíduo constrói com seu trabalho e com a organização. Algumas empresas vergam sob o peso da inépcia de seus executivos sabotadores. Perdem talentos e clientes.

Veem seu desempenho definhar até fechar as portas. Outras vencem os anos sem abandonar os vícios. Como explicar? Talvez sejam menos viciosas que -suas concorrentes, ou compensem os vícios com algumas virtudes ou truques. A maior força da Pasárgada corporativa é fazer seus habitantes acreditarem que realmente vivem em Pasárgada.

Não confie quando alguns políticos se disserem de esquerda

Folha de S. Paulo de domingo

A Folha de S. Paulo de domingo divulgou a pesquisa Legislativa Brasileira (2009) que foi analisada no livro “O Congresso por Ele Mesmo” (UFMG, 2011, organizado por Timothy Power e Cesar Zucco Jr).

A pesquisa realizada com 139 congressistas em 2009 mostra que nos últimos 20 anos a esquerda brasileira acabou aceitando muitas das políticas econômicas propostas pela direita.

Em 1990 72% dos congressistas que se diziam de esquerda defndiam maior presença do Estado na economia.

Em 1997, segundo a obra, com a voga neoliberal, o índice caiu para 47% e se mantém estável até hoje.

Para Cesar Zucco, professor da Universidade Rutgers (EUA), os dados indicam que muitos congressistas se dizem de esquerda sem de fato defenderem posições tradicionalmente de esquerda: “A esquerda veio para o centro, mas a direita continuou mais ou menos igual. O resultado é que, apesar de haver mais cadeiras ocupadas pela esquerda, o Congresso se percebe mais de centro e vê menos diferenças entre os polos ideológicos“.

Para David Samuels, professor da Universidade de Minesota (EUA), o PT é o maior responsável por esse movimento: “Afora o PT, nunca houve posições muito distintas entre os partidos. Quando o PT chega ao governo, razões pragmáticas levam a legenda para o centro. Com isso, a convergência no Congresso é acentuada”.

Segundo a classificação que os congressistas fazem dos partidos, praticamente todas as legendas de esquerda são vistas hoje mais à direita que em 1990, e as de direita, mais à esquerda, conforme quadro acima.

O quadro abaixo mostra que cada vez mais congressistas que se dizem de esquerda preferem o sistema econômico de mercado,  menos predomínio estatal ou puramente estatal.

A convergência na economia. Apoio a economia de mercado diminui entre congressistas que se posicionam à direita e aumenta na esquerda. Folha de S. Paulo de domingo

Ou seja, políticos de partidos como o PSDB e PPS apenas se dizem de esquerda, mas na verdade são de centro-direita ao apoiarem a economia de mercado. Políticos de vários estado do PSB também defendem a economia de mercado, como o prefeito Luciano Ducci de Curitiba. E até alguns políticos do PT são de centro-direita ao apoiarem o fim do Estado Social e Democrático de Direito e apoiarem mais mercado, mais neoliberalismo e menos Estado.