Nas ruas: golpistas e vândalos sim, sociedade civil organizada não

ObsCena

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Seguindo concepção de Antonio Gramsci, o Brasil é uma sociedade ocidental, com uma relação equilibrada entre a sociedade política e a sociedade civil. O centro da luta de classe está na chamada “guerra de posição”, na qual a sociedade civil, de forma progressiva e consensual vem conquistando espaços para buscar exercer sua hegemonia e para chegar ao poder na sociedade política (Estado em sentido estrito). Sobre o tema ver meu livro “Terceiro Setor e as parcerias com a Administração Pública: uma análise crítica” (Fórum, 2ª ed., 2010).

O que o Movimento Passe Livre de São Paulo sempre fez lutando coerentemente pela tarifa zero para o transporte coletivo, e sua atuação vencedora pela diminuição dos valores das tarifas em São Paulo, gerou o início das manifestações nas ruas por parte de aproximadamente 6% da população brasileira, na sua maioria da classe-média.

O que o MPL e alguns outros movimentos fizeram no início foi uma guerra de posição. Mas a partir do momento que os movimentos sociais, os partidos políticos, as organizações não-governamentais saíram das manifestações, o que sobrou foi um amontoado de golpistas de um lado e de outro lado de vândalos. Pesquisa aponta que entre eles, apenas 6% da população, seus candidatos à presidência em 2014 são Joaquim Barbosa (o Imperador do STF) e Marina Silva (ex-PT, ex-PV, por enquanto PAREDE – Partido da Rede).

Os golpistas querem o impeachment totalmente injustificado da presidenta Dilma Rousseff (PT). Os vândalos querem destruir ou saquear bens públicos e privados. Os golpistas e vândalos querem o fim da democracia representativa.

Claro que ainda em algumas capitais ou cidades do interior do país ainda há um resquício de manifestações politizadas. Mas nas grandes capitais não há mais meio termo: a não ser em dias de jogos do Brasil com torcedores, nas ruas estão apenas os golpistas ou vândalos.

À esquerda e aos cidadãos não golpistas resta pensarmos em como aperfeiçoar a democracia representativa com uma reforma política que crie o financiamento público de campanha e fortaleça partidos políticos que não são de aluguel, o fortalecimento dos sindicatos representativos, de ONGs sérias. Temos que pensar na democratização das mídias, numa reforma tributária que tribute os ricos e desonere a classe-média e os pobres. Numa educação e saúde estatal com mais recursos.

Recentemente vivemos mais de 20 anos numa ditadura e apenas estamos construindo nossa democracia. Viva a democracia. Fora para a imbecilidade.

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Por que a juventude da classe-média está perdida e sem perspectiva?

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A juventude rica não tem grandes problemas. Vai herdar as riquezas de seus pais. Seus pais não pagam impostos. As empresas de seus pais sonegam impostos. Não há imposto para grandes fortunas no Brasil e se existisse muitos tributaristas dizem que haveria várias brechas para escaparem do imposto. São privilegiados. Foram educados pelas babás e professores de escolas privadas caríssimas. Fizeram intercâmbio no exterior. Se não estudarem em universidades públicas têm vaga garantida nas universidades privadas devido à sempre garantida bolsa-papai. Se tiverem problemas com drogas ou psicológicos pela desatenção paterna vão ter os melhores psiquiatras, psicólogos e outros profissionais a disposição. Se nada der certo no Brasil, Miami está logo ali para uma vida boa.

A juventude pobre no Brasil tem cada vez mais perspectivas. Milhões de brasileiros saíram da miséria nos últimos dez anos e outros milhões de pobres foram para a classe-média, ou a chamada “classe C”. Se seus avós eram analfabetos, se seus pais tinham menos condições sociais na ditadura militar, nos anos 80 ou na década perdida neoliberal de 90, os jovens pobres hoje podem avistar um horizonte com os programas econômicos e sociais governamentais, conforme prevê a Constituição Social e Democrática de Direito de 1988.

E os jovens da “velha-classe-média”? Não os filhos da nova-classe-média, da classe C, mas os filhos da antiga classe-média? Não têm as ótimas perspectivas dos jovens ricos e a luz no fim do túnel dos pobres. Não sabem o que aconteceu durante a ditadura militar. Seus pais, cada vez mais alienados, não educaram seus filhos para que eles lessem mais e assistissem menos TV. Tudo o que seus pais deixaram de ganham de presente na infância, fizeram questão de presentear seus filhos, que não sabem o que é um “não”.

Os filhos da classe-média ganhavam seus carrinhos e helicópteros de brinquedo que queriam. Mas agora quando crescem não podem comprar ou ganhar os mesmos carros e helicópteros.

Seus pais acomodados não lutaram, não fizeram política, por uma educação e saúde pública e estatal de qualidade. Os filhos da classe-média estudam em escolas e universidades privadas, as quais na sua maioria ensinam que a competição é mais importante do que a colaboração, que as empresas privadas são mais confiáveis do que a Administração Pública.

Os filhos da classe-média não sabem a importância da política. Não sabem a importância da democracia representativa. Não sabem como lidar com a democracia participativa.

Eis que agora os filhos da classe-média estão nas ruas. Óculos Ray Ban, alguns falsificados e outros verdadeiros, bolsas Louis Vuitton, algumas verdadeiras outras falsificadas.

Sem ideologia. Não sabem o que é esquerda ou direita. Confundem política com política partidária.

Não têm bagagem política. Seus pais não debateram política com eles. Eles sabem lidar bem com seus iPhones, iPads, iQualquer coisa, mas não sabem contra ou a favor do que lutar.

Muitos desses jovens chamam seus papais e mamães para questionar qualquer problema em suas universidades.

Muitos desses jovens nunca participaram de uma reunião de condomínio, de partido político, de centro acadêmico. Suas turmas não escolhem nem representante de turma.

Muitos são contrários ao Bolsa Família, pois seus pais não são beneficiários do programa. Mas acham certo o Terceiro Setor fazer assistencialismo.

O capitalismo fez esses jovens acreditarem que serão felizes se puxarem o tapete de seu semelhante. Que apenas serão felizes se forem consumidores, e não cidadãos. Que podem comprar, e não conquistar a felicidade. Por isso cada vez mais casos de depressão entre os jovens. Suicídios. Jovens mais preocupados com a beleza, com a imagem, do que com o conteúdo. Seus pais querem que eles sejam empreendedores e não pessoas boas.

Seus pais chamam os políticos de ladrão mas pagam propina para os policiais não aplicarem uma multa de trânsito. Seus pais chamam o prefeito, o governador ou o presidente de mentiroso, mas ensinaram as crianças a mentirem a idade para pagarem menos em restaurantes ou cinemas.

Pareço não acreditar na juventude? Pelo contrário! Continuo lecionando e blogando porque acredito na juventude. Acredito que essa juventude possa ser melhor do que a geração de seus pais. Acredito que essa juventude possa sim sair de frente da TV, do Facebook, do Google e do Wikipédia e possa ler mais livros, discutir mais política, questionar mais pelo interesse público e não apenas por seus próprios interesses. Acredito!

Sou cético com relação aos seus pais. Mas acredito na juventude.

Primeiro passo: democratização dos meios de comunicação, para que a velha mídia não influencie tão negativamente nossa juventude e os pais da juventude.

Segundo passo: reforma tributária que garanta imposto zero para os pobres, menos impostos para a classe-média e bem mais impostos para os ricos.

Terceiro passo: reforma política que garanta o financiamento público de campanha, para que o dinheiro tenha menos influencia em nossas eleições.

E viva a Democracia! Os jovens de hoje serão os governantes de amanhã.