Paradoxos da pós-modernidade – Larissa Ramina

Ao mesmo tempo em que promove o desmantelamento do Estado social, o governo britânico paga a conta dos bancos responsáveis pela crise de 2008, os verdadeiros promotores do colapso no sistema financeiro internacional

Hoje na Gazeta do Povo

“Colapso do neoliberalismo sob o tacão dos ultra-neoliberais: é a treva!” – Maria da Conceição Tavares

Publicada no Carta Maior

“Não, não é um quadro com o de 1929. Aquele teve um ápice, com recidivas, mas ensejou um desdobramento político que inauguraria um outro ciclo, com Roosevelt e o New Deal. O que passamos agora é distinto de tudo isso”, diz a economista Maria da Conceição Tavares, em entrevista à Carta Maior. E adverte: “Todavia não menos grave e talvez mais angustiante. É um colapso enrustido, arrastado, latejante. Sim, você tem a comprovação empírica do fracasso neoliberal; mas e daí? São eles que estão no comando, ou será o quê esse arrocho fiscal nos EUA enfiado pelo Tea Party na goela do Obama? Vivemos um colapso do neoliberalismo sob o tacão dos ultra-neoliberais: isso é a treva!”

Por Saul Leblon (entrevista com Maria da Conceição Tavares no Carta Maior)

Continuar lendo

O caos da ordem – Boaventura de Souza Santos


Em Londres, estamos perante a denúncia violenta de modelo que tem recursos para resgatar bancos, mas não os tem para uma juventude sem esperança


Hoje na Folha de S. Paulo

Os motins na Inglaterra são um perturbador sinal dos tempos. Está a ser gerado nas sociedades um combustível altamente inflamável que flui nos subterrâneos da vida coletiva sem que se dê conta.
Esse combustível é constituído pela mistura de quatro componentes: a promoção conjunta da desigualdade social e do individualismo, a mercantilização da vida individual e coletiva, a prática do racismo em nome da tolerância, o sequestro da democracia por elites privilegiadas e a consequente transformação da política em administração do roubo “legal” dos cidadãos. Cada um dos componentes tem uma contradição interna.
Quando elas se sobrepõem, qualquer incidente pode provocar uma explosão de proporções inimagináveis. Com o neoliberalismo, o aumento da desigualdade social deixou de ser um problema para passar a ser a solução.
A ostentação dos ricos transformou-se em prova do êxito de um modelo social que só deixa na miséria a maioria dos cidadãos porque estes supostamente não se esforçam o suficiente para terem êxito.
Isso só foi possível com a conversão do individualismo em valor absoluto, o qual, contraditoriamente, só pode ser vivido como utopia da igualdade, da possibilidade de todos dispensarem por igual a solidariedade social, quer como agentes dela, quer como seus beneficiários.
Para o indivíduo assim construído, a desigualdade só é um problema quando lhe é adversa; quando isso sucede, nunca é reconhecida como merecida. Por outro lado, na sociedade de consumo, os objetos de consumo deixam de satisfazer necessidades para as criar incessantemente, e o investimento pessoal neles é tão intenso quando se têm como quando não se têm.
Entre acreditar que o dinheiro medeia tudo e acreditar que tudo pode ser feito para obtê-lo vai um passo muito curto. Os poderosos dão esse passo todos os dias sem que nada lhes aconteça. Os despossuídos, que pensam que podem fazer o mesmo, acabam nas prisões.
Os distúrbios na Inglaterra começaram com uma dimensão racial. São afloramentos da sociabilidade colonial que continua a dominar as nossas sociedades, muito tempo depois de terminar o colonialismo político. Um jovem negro das nossas cidades vive cotidianamente uma suspeição social que existe independentemente do que ele ou ela seja ou faça.
Tal suspeição é tanto mais virulenta quando ocorre numa sociedade distraída pelas políticas oficiais da luta contra a discriminação e pela fachada do multiculturalismo.
O que há de comum entre os distúrbios da Inglaterra e a destruição do bem-estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade comandadas por mercados financeiros? São sinais dos limites extremos da ordem democrática.
Os jovens amotinados são criminosos, mas não estamos perante uma “criminalidade pura e simples”, como afirmou o primeiro-ministro David Cameron.
Estamos perante uma denúncia política violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar bancos e não os tem para resgatar a juventude de uma vida sem esperança, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e mais irrelevante, dados o aumento do desemprego e o completo abandono em comunidades que as políticas públicas antissociais transformaram em campos de treino da raiva, da anomia e da revolta.
Entre o poder neoliberal instalado e os amotinados urbanos há uma simetria assustadora. A indiferença social, a arrogância, a distribuição injusta dos sacrifícios estão a semear o caos, a violência e o medo, e os semeadores dirão amanhã, genuinamente ofendidos, que o que semearam nada tem a ver com o caos, a violência e o medo instalados nas ruas das nossas cidades.


BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, sociólogo português, é diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de “Para uma Revolução Democrática da Justiça” (Cortez, 2007).

Balanço do governo Lula: Neoliberalismo versus Pós-Neoliberalismo

Por Emir Sader (Blog do Emir no Carta Maior)

O fim do governo Lula sinaliza um momento propício para um balanço do significativo debate diante da fisionomia inicial assumida pelo governo, responsável por rupturas que configuram o campo da esquerda brasileira desde então.

Continuar lendo

Professoras Larissa Ramina e Carol Proner criticam o neoliberalismo europeu

A coordenadora do curso de Direito da UniBrasil, Estefânia Barboza, e as autoras do texto Larissa Ramina e Carol Proner. Foto de Criselli Montipó

No Carta Maior

O desmonte da Europa Social

A crise econômica desnuda a ausência de perspectiva da política neoliberal de desregulamentação, da extensão do mercado e da privatização de importantes pilares do modelo social na Europa, afundado em uma grave crise de legitimidade. A paisagem social européia já não é mais a mesma.

Larissa Ramina e Carol Proner

Continuar lendo

Editorial da Gazeta do Povo defende privatização e prega o Estado Mínimo

O editorial do jornal paranaense Gazeta do Povo defende hoje a privatização e prega o Estado Mínimo. Parece até que estamos na década de 90 do século passado e que o Governo vencedor das eleições é o de Fernando Collor ou de FHC.

Ainda bem que cada vez mais a velha mídia perde sua força, principalmente devido a democratização da internet. A velha mídia defende o Estado fraco para a resolução dos problemas sociais e Estado forte para manter a “ordem” e garantir os lucros do grande capital.

Ainda bem que com o fortalecimento da Democracia é o povo que define o futuro da nação, e não a velha mídia, que muitas vezes tem saudades de períodos ditatoriais ou neoliberais.

Data venia Gustavo Binenbojm!

O professor Gustavo Binenbojm, em texto abaixo transcrito, exalta o voto neoliberal-gerencial do Ministro do STF Luiz Fux na ADIn das organizações sociais, tão tratada aqui no Blog do Tarso. É uma pena que um Ministro da área do Processo Civil seja paradigma para Binenbojm para o que ele chama de “arejamento” e a “evolução” do Direito Administrativo brasileiro. Diz que apenas os “modernos publicistas do país” acompanham o seu ideário.

Como assim não há um modelo de Estado único na nossa Constituição? Como assim o tamanho e a formatação do Estado brasileiro dependerão das opções de nossos políticos? Nossa Constituição é “dúctil”?

Concepções ideológicas ultrapassadas? Como os neoliberais enchem a boca para falar em Democracia!

É óbvio que não há reserva constitucional para o desempenho de serviços sociais pelo Estado. A iniciativa privada é livre para prestar serviços sociais. Mas os aparelhos estatais de saúde e educação, se estatais, devem ser geridos pelo Estado! Aqui não cabe privatização/delegação dos serviços sociais!

A Administração Pública, ao repassar a gestão de um hospital estatal para uma Organização Social não está praticando fomento público.

Ele termina o texto com a lapidar frase-título “A era do Direito Administrativo como religião já era”. Qual a proposta? Parece o retorno da proposta de morte do Direito Administrativo, típica dos privatistas. Abaixo o texto citado:

A era do Direito Administrativo como religião já era

Por Gustavo Binenbojm

Última obra de historiador inglês defende a social-democracia e ataca o neoliberalismo

O historiador londrino Tony Judt, falecido em 2010

Ontem na Gazeta do Povo

Resenha: Individualismo sem limite

No livro O Mal Ronda a Terra – Um Tratado sobre as Insatisfações do Presente, publicado há pouco pela Objetiva, o historiador Tony Judt (foto) diz que o individualismo sem limites é a causa de muitos infortúnios no mundo. Ele seria o “mal” que ronda a Terra.

Para combatê-lo, o autor reconhece não existir armas adequadas, mas a que poderia chegar perto de ter efeito é a social-democracia. Judt era um intelectual de esquerda que não hesitava em desancar os defensores do neoliberalismo.

Continuar lendo

Bresser Pereira sai do PSDB por entender que o partido é de direita, assume que teve uma recaída neoliberal durante o Governo FHC, mas não assume que sua reforma administrativa gerencial foi neoliberal

Faz tempo que o transporte coletivo em Curitiba não funciona mais, com o trânsito totalmente parado nos horários de pico. Hoje estava no trânsito estático da cidade, indo para a Universidade Positivo, e li pasmo a entrevista com Luiz Carlos Bresser Pereira, abaixo transcrita. Fiquei de queixo caído! Nunca havia percebido tamanha sinceridade num entrevistado.

Bresser Pereira informa que saiu do PSDB por entender que o partido é de direita, assume que teve uma recaída neoliberal durante o Governo FHC, e que caiu no conto da globalização, pois “ninguém é de ferro”.

A única falha na entrevista é no momento em que não assume que sua reforma administrativa como Ministro do MARE do Governo FHC foi neoliberal. Diz que sua reforma gerencial era essencialmente para fortalecer o Estado social, o que não é verdade. Sobre o tema ver meu livro Terceiro Setor e as Parcerias com a Administração Pública: uma análise crítica.

Bresser diz ainda que os ricos odeiam a democracia, que FHC nunca foi nacionalista e confessa que foi na reunião do Consenso de Washington. Também informa que apoiou várias privatizações de FHC, a não ser a do setor elétrico, por ser monopólio. E que no período que foi diretor do Pão de Açúcar perdeu as garras e seu caráter crítico.

Veja a entrevista completa: Continuar lendo

Neoliberalismo

A Constituição versus o Consenso de Washington

A esquerda necessita apropriar-se da bússola que remete ao Estado de bem-estar social, ainda por atingir, para legitimar-se diante do legalismo das novas classes médias, moral e politicamente conservadoras, com o intuito de receber o seu apoio ativo.

Por Luiz Marques (Carta Maior)

Continuar lendo

Mais um texto de Emir Sader sobre o neoliberalismo

Neoliberalismo – a cara do capitalismo contemporâneo – e pós neoliberalismo

O capitalismo passou por várias fases na sua história. Como reação à crise de 1929, fechou-se o período de hegemonia liberal, sucedido por aquele do predomínio do modelo keynesiano ou regulador. A crise deste levou ao renascimento do liberalismo, sob nova roupagem que, por isso, se auto denominou de neoliberalismo. Continuar lendo