Passado a Limpo

Por Georghio Tomelin

Contabilidade eleitoral. No Brasil a eleição de qualquer candidato, com viabilidade governativa, envolve uma quantidade enorme de recursos não-contabilizados. A capilaridade necessária para ganhar “licitamente” a eleição espalha milhões de recursos pelos rincões do País. Ou isto ocorre com dinheiro-frouxo nas mãos das lideranças locais ou com dinheiro-contabilizado através dos grandes meios de comunicação. É como se dá a capilaridade.

Formação simplória. A compreensão do processo político (de definição da “vontade” estatal) na leitura de ricos ou pobres, políticos ou “sedizentes apolíticos”, é simplista. A prática democrática ainda é muito recente entre nós. No Brasil temos o “negro racista”, a “mulher machista” e o “pobre capitalista”. Compramos como “abstratos” os discursos de auto-realização dos poderosos, e facilmente aderimos às razões de quem oprime, em desfavor do oprimido (“a culpa do estupro acaba recaindo no comprimento da saia dta moça e não na ação do bandido”).

Violinismo-político. Quem assume o Governo, com razões de direita ou de esquerda, acaba inevitavelmente tendo que governar com todas essas contingências, e em meio a uma classe-média de ignorantes-letrados e uma gestão de poderosos famintos. Daí o “violinismo” dos governos ditos progressistas: que seguram com a esquerda mas tocam com a direta. Sem acordo-político, sem entregar uma fatia do bolo para a elite estruturada, não há um mínimo de estabilidade para avanços. E carência política e consciência de classe não sempre andam juntas.

Faroeste suburbano-cangaceiro da política nacional. Nesse filme de pornochanchada política não existe mocinho nem cafetão-do-bem. Assim, em uma visão-poliana ou apaixonada da realidade, só haveria bandidos na política nacional. A partir de critérios abstratos ou de padrões teóricos do que é e do que não é ético, teríamos que afirmar que 99,99% da classe política nacional seria formada por bandidos. E se todos são: ninguém é.

Os machistas na política. As grandes decisões nacionais são regadas a uísque nos lupanares de Brasília ou das grandes cidades onde o coronelismo sobrevive. Mulher decidindo não tem vez. Dilma teve grande dificuldade de governar. Não só pela questão pessoal e da dificuldade de trato com a pessoa dela. Mas também porque mulher não entra nesse grande “clube”, em que se partem e repartem os prazeres que a “coisa pública” possibilita.

Os pobres na política. Já se tentou em outros momentos da política nacional e mundial coordenar a evolução patrimonial de quem entra na vida pública. Uma ideia seria o Partido ficar com todos os recursos e pagar ao eleito o que ele já vinha recebendo em sua carreira original. Isso não funciona, pois o eleito precisa frequentar os espaços em que são tomadas decisões. Tem que usar Armani, fumar charutos caríssimos, beber vinhos especiais e todos esses pequenos prazeres que o “apresentam” como um “igual”. Não basta a consciência de classe e ter a caneta na mão. Se não for um “igual” as decisões que tomar não andam ou serão sabotadas.

A escada dos ganhos sociais para muitos. Ao lado disso existe a atuação estatal séria em favor da maioria. Quando a elite tinha para si as escolas de ensino básico elas eram “de qualidade”. Na medida em que as classes trabalhadoras tiveram acesso, a elite migrou para a escola privada e a pública foi sucateada. O mesmo agora está acontecendo com as universidades. Virar o holofote do governo para os mais fracos é um risco: descontenta quem realmente tem poder de fogo para brindar ou para destruir. A escada de ganhos sociais tem degraus curtos.

Judiciarização televisionada. No passado simplesmente cortavam a sua cabeça quando você contrariava interesses. Hoje o sistema é mais fino. Destroem o indivíduo moralmente. O acusam de algo e ele vai passar anos se defendendo daquilo. Exaurem-se suas forças neste processo e ele acaba eliminado. Quão mais rápido os formadores da “opinião publicada” tiverem acesso ao circo montado, mais rápido será o efeito de castração. Se as “verdades” forem proferidas com vestes-talares então, tanto melhor. Amores e ódios togados governando!

Cultura Escravocrata vs. Patrimonialismo. Temos uma ferida aberta do passado. A meta do oprimido não é partilhar com os demais a luta pela melhoria, mas sim sair da situação de opressão. Existe uma repescagem feita pelos patrimonialistas entre os “escravos bem-comportados”. É o discurso da meritocracia: “esforce-se que você merecerá ser um igual”. Não existe País que tenha saído da dependência externa ou da miserabilidade ampla sem o resgate do passado social. A ideia de inclusão precisa ser trabalhada dia a dia. Fora disso, haverá sempre mais desigualdade e o prestígio de algumas poucas exceções individuais (que apenas confirmam a regra).

Passar a limpo o passado. Desse conjunto de compreensões simplistas dos atores sociais surge a visão agressiva de que a depuração precisa recair sobre algum indivíduo (é a ideia de bode-expiatório). O passado escravocrata segue presente nas relações sociais modernas brasileiras. Quem tentar mudar as peças neste tabuleiro será eliminado. O feitor e o capataz mais “eficientes” sempre foram os de origem humilde, pois tinha no passado o medo de retorno à situação anterior. Compreender o que está ocorrendo hoje, em continuidade ao nosso passado histórico, vai nos ajudar a dar passos importantes quando a situação política se acomodar no futuro.

Georghio Tomelin (advogado e doutor em Direito pela USP) – 07.04.18

FOI só “UM” ERRO?

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FOI UM ERRO a primeira guerra. A Liga das Nações já nasceu esfacelada em 1919.

FOI UM ERRO a segunda guerra. E ainda ganharam os americanos que são exterminadores…

FOI UM ERRO dividir a Alemanha em 49, pois repetiu a mesma burrice do tratado de Versalhes de 1919.

FOI UM ERRO o tratado de Spykes-Picot, pois não há zona-de-influência-secreta que suplante o que as mães contam aos filhos.

FOI UM ERRO invadir o Iraque (que não tinha armas de destruição em massa). E Saddam produzia seus 3 milhões de barris-dia a um custo muito menor.

FOI UM ERRO eleger Bush e sua equipe de narco-petroleiros (que nos vendem drogas e petróleo inclusive fornecidos pelos ISIS).

FOI UM ERRO romper com o Bin Laden que era cria dos americanos (e quem pariu Matheus…).

FOI UM ERRO seguir no Iraque extraindo menos do que 2,5 milhões de barris-dia e ainda fabricar 700 mil viúvas (John Pilger: “The war you don’t see”).

FOI UM ERRO aderir ao discurso norte-americano dos direitos humanos que só serve para justificar o aniquilamento de inocentes.

FOI UM ERRO bombardear sistematicamente inocentes na Síria e no Iraque nos anos 2010.

FOI UM ERRO não ouvir o apelo dos refugiados e a voz das almas que ainda hoje são trucidadas na Ásia Menor.

FOI UM ERRO não dar apoio … deixar de dar apoio … omitir socorro … compactuar com o auto-extermínio interno.

FOI UM ERRO o ocidente criar condições para o comando-de-ordem-unida do novo Califado do ISIS (do ISIL, do “Levante”, do ” ei “, do DAESH ou seja lá o que for).

FOI UM ERRO pensar que o espólio de Bin Laden, de Saddan ou de qualquer neuro-neo-califa pode ser disputado pelo ocidente (e não internamente).

FOI UM ERRO acreditar que Vito Andolini não iria voltar para se vingar do assassino-familiar em Corleone na Sicília (revejam o “Poderoso Chefão”).

FOI UM ERRO acreditar que as 700 mil viúvas do Iraque iriam pregar resignação a seus filhos sobreviventes (e que não haveria vingança).

FOI UM ERRO decidir ampliar os ataques-in-loco como resposta aos ataques-in-França (ou aos demais fornecedores de tropas).

FOI UM ERRO pensar que os ataques-in-França são feitos por homens sem coragem, sem fé ou sem moral (só porque não é a nossa).

FOI UM ERRO fabricar o “inimigo” e encurralar seus “soldados-kamikaze”, que sem rota de fuga se tornam “terroristas”.

FOI UM ERRO ameaçar de morte o soldado-suicida que já está morto…e agora seguir acreditando que isso vai diminuir a violência (terrorista amedrontado?).

FOI UM ERRO e segue sendo um erro querer fragmentar mais este “califado”, pois isso vai apenas reabrir a luta pelo seu espólio no Iraque e na Síria (espalhando mais ataques terroristas).

Enfim: depois de tantos erros, e de uma declaração de guerra franco-americana (o Brasil não deve mandar tropas) contra um inimigo invisível (com CINCO MIL suspeitos catalogados vivendo em solo francês), e conhecendo a estratégia que vão utilizar (e já ameaçaram utilizar), COMO PRETENDER enfrentar essa situação toda sem alterar a normalidade da vida urbana da principal cidade turística do mundo?

Será que FOI mesmo só UM ERRO ?

Georghio Alessandro Tomelin

Dilma não perdeu de 7 a 1 para o Aécio

O genial cartunista Jean na Folha de 27.10.2014

O genial cartunista Jean na Folha de 27.10.2014

Por Georghio Tomelin, advogado em São Paulo

A reeleição do projeto do PT para o Brasil foi muito sofrida. Lembrou bastante a tragédia do sete a um para a Alemanha na Copa. Digo isto porque a seleção brasileira sofreu um apagão igual aos petistas de carteirinha e os sem bandeira.

O PT construiu um discurso de oposição, com propostas sólidas, nos anos que antecederam à primeira eleição de Lula. Na PUC/SP assistimos, em paralelo a isso, o desmonte dos núcleos do PT e o fim dos debates internos. No último dia em que fizemos campanha pela Erundina (ainda no PT) lá na PUC tivemos que segurar os alunos (hoje eleitores do Aécio) que queriam jogar rolos de papel higiênico molhado nela, quando entrava no Centro Acadêmico de Serviço Social (os badboys estavam no 3º andar).

Lula criticou os 300 picaretas e depois fez um acordo com eles. Isto não impediu o Brasil de mudar. Rompemos brancamente com o FMI. Criou-se uma economia solidária e o impulso do bolsa-família nas pequenas comunidades é notável e passível de ser medido. O impacto nos aeroportos (com a direita sofrendo com o “pobre-agora-voa”) e no acesso aos bens de raiz e de consumo é algo maravilhoso (o sonho do carro zero e da casa própria foi realizado para milhares de pessoas). O acesso à universidade (com o ProUni), às escolas técnicas, e a possibilidade real de algum tipo de atendimento de saúde público (com SAMU, Mais-Médicos, etc, etc.) têm ampla aprovação social.

Se tudo isso é verdade, porque então os petistas quase morreram de infarto ontem? Quem estava na sala sigilosa do TSE viu Aécio “matematicamente quase eleito” até 89% das urnas apuradas, e ele foi mesmo avisado disso, mandando chamar FHC, Serra et caterva para a “festa da vitória”. O que de errado o PT fez, que não conseguiu comunicar todas as melhorias para a sociedade? O curioso é que estas melhorias impactam mais na classe rica do que na menos favorecida, pois o entorno social mais justo diminui criminalidade e melhora a qualidade dos serviços.

Ao lacerdismo da imprensa (com discurso maniqueísta e moralista) o PT respondeu com a idealização da corrupção. Os números, é claro, estão a favor do PT (mensalão 70 milhões vs. Metro de São Paulo com sumiço de 500 milhões; Petrobras/Passadena com 1 Bi contra 4 Bi entregues aos acionistas da Sabesp no lugar de investir em água). Claro que não adiantou gritar isso, pois contra a mídia a gente no máximo empata: não ganha nunca!

Houve então falha de comunicação do PT para com a sociedade? Ou a direção se acabrunhou? O Prefeito Haddad escondido embaixo das faixas vermelhas derrapantes de bicicleta pouco fez pela campanha (só apareceu depois da vitória para discursar). Em São Paulo poucos eram os adesivos do PT ou faixas em carros. Eu mesmo tive grandes problemas ao comunicar sozinho e muitas vezes isolado minha opinião (sobretudo em frente aos clientes, pois sou advogado em São Paulo que é a sede da Veja). Houve até um episódio de um ex-advogado de Lula (que se fantasiava de Karl Marx e só por isso foi nomeado ao STF) que fez um vídeo declarando apoio a “Aécio pelo fim da corrupção do Governo Lula”. Uma vergonha. Uma dupla vergonha: Lula nomeou um cara desse, que sempre fingiu ser de esquerda, e agora como advogado manda mensagens para a sua “nova” clientela apoiando-se nas costas de Lula: “venham a mim, sou ex-ministro, mas estou aqui para orientar vocês sobre as verdades internas do PT”. Apostasia pura que a cegueira de Lula consentiu!

A verdade é que o Governo Lula foi sucedido por uma geração de assessores (sem base popular, sem formação em política, sem estímulo ou necessidade para dar a cara para bater) que ficaram inebriados pela legitimidade popular do Chefe (e os frutos fáceis que daí recolheram). Ao menor aperto, saem todos correndo (ou correm para debaixo da saia do novo chefe-de-mercado, como fez o Karl Marx tupiniquim do STF). O Governo “Dilma 1” foi o Governo Porta-Fechada. Não recebeu Congressistas, não conversou com os Sindicatos, não debateu com a Academia, não discutiu com as forças sociais reais.

Durante a campanha conversei com muita gente afinada com o PT e outros com o PSDB. É uma tragédia o que os orgânicos do PT pensam do próprio PT. Muitos não têm densidade para defender os programas do próprio Governo. Assim também os tucanos de ocasião: a grande maioria apoia as ideias e projetos do PT mas está completamente cega ou desinformada pelo trabalho da mídia em favor dos interesses corporativos dos patrões e patrocinadores. A falta de formação da militância levou a isso, pois o embate se deu no corpo a corpo nas redes sociais e poucos dos que apoiavam Dilma ou Aécio sabiam realmente defender ou diferenciar os dois modelos. Virou porradaria total, como bem representou o cartunista Jean.

Hoje é o primeiro dia depois da eleição. Ou bem as pessoas que estão perto do Governo acordam para a necessidade de requalificar a militância e repensar a legitimidade do PT perante a sociedade, ou 01.01.2019 será ainda mais tenebroso, até porque, nesse ritmo, parece claríssimo para mim que este é o último mandato do PT na Presidência da República.

Boa sorte a Dilma no novo Governo !

FHC e as Drogas

Por Georghio Tomelin, advogado em São Paulo

O combate às drogas preocupa todos os que possuem filhos. Ontem à noite (23.10.2014), o Senador Aécio Neves trouxe no programa eleitoral a ideia de colocar as Forças Armadas para combater o narcotráfico. O tema das drogas precisa sim ser debatido com seriedade. Nisso ele tem razão.

O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso é sabidamente um defensor do abolicionismo das figuras criminais que envolvem o tráfico e o uso de drogas. Esta ideia já foi defendida por outras autoridades mundiais como, por exemplo, Milton Friedman (o que mesmo que disse “não existe almoço grátis”, frase tantas vezes repetida por Ralph Nader e muitos outros entre nós).

A ideia de FHC é simples e corretíssima. O grama da cocaína, por exemplo, já chegou a gravitar perto do preço do grama do ouro. Foi aí que Friedman declarou: “não dá para lutar contra alguém que planta ouro em arbustos”. Ou seja, com a margem de lucro muito alta o traficante é mais poderoso do que a polícia. A única coisa que pode desarmar o traficante é o barateamento do produto. Com o preço alto o traficante compra as autoridades encarregadas da repressão e adquire armamentos. Abolir o crime e liberar as drogas faria o preço cair e assim também a violência daí advinda.

O resto é educação. Já conseguimos aumentar a porcentagem de crianças de baixa renda nas escolas e Universidades, e agora precisamos educar os de alta renda (pois são eles que consomem as drogas em maior porcentagem). Educação é a solução. Violência só leva a mais violência.

E as Forças Armadas? O que dizer da ideia contrária à de FHC: aumentar a repressão em vez de abolir (como propõe o ilustre Senador Aécio). O primeiro problema é que não existe como criar um cordão sanitário no entorno do tráfico. Ele se mescla com todos os setores da sociedade. Não é uma doença, mas sim uma “festa” que cerca muitos jovens de todas as classes (os EUA já tiveram um Presidente viciado em drogas, e foi uma catástrofe cujos efeitos rondam os americanos até hoje).

Por sinal, o modelo de colocar o exército dos Países para correr atrás das drogas é o modelo norte-americano de combate para os demais Estados que julgam seus aliados (pois eles mesmos têm o DEA – Drug Enforcement Administration – e não fazem isso). Qual a plano dos norte-americanos para nós?

Nos EUA, eles possuem muito armamento obsoleto estocado, por conta da Guerra Fria (lembremos os escândalos com as armas no Vietnã e Afeganistão). Tais armas são ainda muito eficazes, mas os meninos de lá (os “mariners” que fizeram 700 mil viúvas no Iraque) não possuem mais treinamento para utilizar tais armas (hoje utilizam potentes miras-laser outros e outros aparatos mais modernos).

Qual então o plano dos americanos para tais armas? Vender, é claro. Vender para os países alinhados. Vender para o “combate às drogas”. Assim, o governo deles venderia parte das armas para o governo brasileiro (sob a forma de “convênio” para o combate conjunto das drogas) e outra parte “por debaixo dos panos” para a guerrilha urbana (algo que os EUA já fizeram muitas vezes, como todos sabemos).

Uma tal sistemática, num País grande como o Brasil, poderia contaminar toda a América Latina e fazer consumir rapidamente as armas estocadas nos EUA, hoje sem utilidade para eles.

Tudo isso para dizer: “viva FHC e sua posição contra as drogas”. Ele está de parabéns. Temos um ex-presidente corajoso que enfrenta o tema de cabeça erguida e sem medo (melhor do que o seu par que “fumou mas não tragou”). Abaixo o tráfico e a cocaína nos Governos. Abaixo a ideia de colocar nossos jovens recrutas (sem o preparo necessário) para combater as drogas.

Precisamos que nossos amigos, que tenham contato com a cúpula da campanha de Aécio, o façam voltar atrás dessa ideia de apoio ao aumento da violência. Precisamos que o Senador Aécio leia FHC (de preferência os livros do sociólogo FHC, antes do “esqueçam o que eu escrevi”). Em 2014, de volta ao Senado, se adotar esta linha, Aécio poderá provar que é realmente contra o uso das drogas.

Crime Ambiental em São Paulo

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Por Georghio Tomelin, advogado em São Paulo

Estamos vivendo um crime ambiental sem precedentes em São Paulo. Desde que começou esta crise hídrica, tomamos muitas medidas de economia de água. A conta global do prédio onde moro caiu de 5 mil por mês para 1300, e agora 800 reais. Claro que o desconto concedido pela Sabesp ajudou muito na redução da despesa (e essa foi uma importante iniciativa do Governo do Estado que incentivou algumas pessoas).

Também paramos de usar as descargas dos vasos sanitários (50 litros por vez), dando prioridade para água recolhida do banho e das pias (com baldes e bacias de todos os tamanhos) para a função de descarga. Isso reduziu muito o gasto de todo o prédio. Passamos a tomar banhos rapidíssimos (ligando rapidamente a água no começo e no final) e paramos de lavar tudo o que não fosse extremamente necessário.

Enfim. Digo isso para demonstrar que o tema me preocupa. Com crianças pequenas não dá para ficar sem água. A responsabilidade é todos nós, e a falta de chuvas não tem precedentes.

Em São Paulo penso que elegemos “rapidamente” o Gov. Alckmin do PSDB para que ele pudesse começar imediatamente o rodízio de água. Somente o rodízio pode salvar a Cantareira do risco de extinção. Esses limites de volume morto (nunca utilizado antes) protegem a represa. A tal reserva é o que mantém viva a represa. Se não houver gestão séria da área, o terreno seco impede a retomada do acúmulo de água.

Aquela área da represa pode sim se transformar num deserto, e nunca mais voltar a encher. É um problema do ciclo das águas. Por esta razão está havendo tanto conflito entre o Governo do Estado (Sabesp), o Ministério Público e a Agência Nacional de Águas. O manancial precisa ser protegido e gerido de maneira responsável, o que não está sendo feito pelo Governo do Estado.

Se somos muitos em São Paulo. Se construímos demais. Se impermeabilizamos a cidade toda, temos que arcar com os ônus que criamos. No prédio onde moro, todos estamos suportando já a consequência da irresponsabilidade coletiva. Ninguém tem culpa individualmente, mas o síndico tem que se movimentar.

O mais grave nisso tudo é a postura do Síndico-Mor do Estado de SP, retratada na charge da Folha de São Paulo de 18.10.2014. O médico Alckmin está rasgando o diploma que possui (começo a duvidar que tenha mesmo se formado em medicina). A falta de planejamento da Sabesp é algo indizível, para quem administra a água da maior cidade do mundo abaixo da linha do Equador.

A Sabesp (Companhia de Água de São Paulo) não tem nenhum projeto-piloto (ainda que experimental), por exemplo, de dessalinização da água do mar. Utilizar a água do mar 20 anos atrás era caríssimo e quase impossível. Hoje é plenamente viável e já é feito com custos muito reduzidos em vários países. A Sabesp recebeu do Governador do PSDB a diretiva de NEGAR a falta d’água, para não atrapalhar o quadro eleitoral, e assim vem fazendo. Quanta irresponsabilidade!

Quem retorna para casa um pouco mais tarde a noite, vê os caminhões-pipa circulando por todas as ruas (na cidade de São Paulo há restrição de circulação durante o dia). Apesar disso, a mídia pouco fala do tema (e a charge de hoje da FSP é um verdadeiro milagre). O preço do caminhão-de-água (com 10 mil litros em média) pulou de 400 para 600, mil e 1200 reais (em algumas regiões). E a Sabesp continua negando o racionamento. E avança no volume-morto, arriscando secar o leito da represa (o que mata sua função).

Se o rodízio de água tivesse começado antes (em fevereiro, março ou mesmo julho de 2014) quando todo este quadro já era passível com previsões meteorológicas, várias pessoas mais teriam tomado consciência, e começado a poupar água. Isto porque a realidade é triste, mas as pessoas são assim: só se movem quando “a água começa a bater na bunda” (e aqui ela está faltando).

Vamos ficar parados? O risco de perder votos para o PSDB em São Paulo é maior para o Governador do que a saúde da sua população? Reaja !