Por que me tornei a favor das cotas para negros

Cotas para negros: por que mudei de opinião. Juiz federal, mestre em Direito e ferrenho opositor das cotas explica as razões que o fizeram mudar de ideia

O escritor e Juiz Federal William Douglas, que era ferrenho opositor das cotas para negros, explica as razões que o fizeram mudar de ideia

Da Revista Fórum e Pragmatismo Político

Por William Douglas, juiz federal (RJ), mestre em Direito (UGF), especialista em Políticas Públicas e Governo (EPPG/UFRJ), professor e escritor, caucasiano e de olhos azuis

Roberto Lyra, Promotor de Justiça, um dos autores do Código Penal de 1940, ao lado de Alcântara Machado e Nelson Hungria, recomendava aos colegas de Ministério Público que “antes de se pedir a prisão de alguém deveria se passar um dia na cadeia”. Gênio, visionário e à frente de seu tempo, Lyra informava que apenas a experiência viva permite compreender bem uma situação. Continuar lendo

Brasileiros aprovam cotas raciais e sociais

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O Instituto Paraná Pesquisas/Gazeta do Povo mostra que a maioria dos brasileiros apoiam as cotas raciais (48,5% a 45,6%) e as cotas sociais (73,9% e 22,7%).

Mas infelizmente os brasileiros apoiam mais as cotas sociais do que as raciais. A Gazeta informa que segundo o professor de Física da UFSC, Marcelo Tragtenberg, membro do programa de acompanhamento das ações afirmativas da universidade, isso ocorre porque se acredita, “erroneamente”, que as cotas sociais incluem automaticamente alunos negros: “Constatamos em simulações na UFSC antes (2006) e depois das cotas (2012) que se as ações afirmativas valessem somente para escolas públicas, o porcentual de negros na universidade não mudaria. A política de bônus da USP somente para escolas públicas durante os quatro primeiros anos não mudou significativamente o porcentual de negros e a universidade agora adota também bônus para pretos, pardos e indígenas”. A professora do Departamento de Ciências Sociais da UEL e pós-doutora em relações raciais, Nilza Maria da Silva, também defende as cotas raciais: “Embora nos últimos anos tenham havido mais discussões sobre as questões raciais, muitos brasileiros ainda não acreditam na existência do racismo, portanto, para essa parcela da população as cotas não têm sentido. Ainda existe a crença na democracia racial”.

Entre os brasileiros que menos defendem as cotas raciais e as sociais são os pertencentes a uma elite que teve a oportunidade de concluir o ensino superior. Ainda não perceberam que desde 1988 nossa Constituição da República exige a redução das desigualdades sociais e raciais.

Viva as cotas raciais e sociais! Enquanto existir desigualdade no Brasil.

Essa conversa não é sobre você

Por Tâmara Freire

Querido estudante branco, de classe média, que faz cursinho pré-vestibular particular: eu sei que é difícil quando alguém nos faz enxergar nossos próprios privilégios, mas deixa eu tentar mais uma vez.

Eu (e mais uma penca de gente, me arrisco a dizer) não me importo com o quão “difícil” será para você entrar naquele curso de medicina mega concorrido com o qual você sonha, porque, simplesmente, esta conversa não é sobre você.

Eu sei que praticamente todas as conversas deste mundo são sobre você e você está acostumado com isso, então deve ser um baque não ser o centro das atenções. Mas, seja forte! É verdade: nós não estamos falando sobre você.

Quando você chora pelo sonho que agora parece mais distante de se realizar, suas lágrimas não me comovem. Porque o que me comove são as lágrimas daqueles que nascem e crescem sem qualquer perspectiva para alimentar o mesmo sonho que você. É sobre essas pessoas que estamos falando e não sobre você.

Quando você esperneia pelos mil reais gastos todos os meses com a mensalidade do seu cursinho e que agora se revelam “inúteis”, eu não me comovo. Porque o que me comove são as milhares de famílias inteiras que se sustentam durante um mês com metade da quantia gasta em uma dessas mensalidades. É sobre essas pessoas que estamos falando, não sobre você.

Quando você argumenta que, na verdade, seus pais só pagam seu cursinho porque trabalham muito ou porque você ganhou um desconto pelas boas notas que tira, eu não me comovo. Porque o que me comove são as pessoas realmente pobres, que mesmo trabalhando muito mais do que os seus pais, ainda assim não podem dispor de dinheiro nem para comprar material escolar para os filhos, quem dirá uma mensalidade escolar por mais barata que seja. É sobre essas pessoas que estamos falando, não sobre você.

Quando você muito benevolente até admite que alunos pobres tenham alguma vantagem, mas acredita ser racismo conceder cotas para negros ou outros grupos étnicos eusa até os dois negros que você conhecem que conseguiram entrar numa universidade pública sem as cotas, como exemplo de que a questão é puramente econômica e não racial, eu não me comovo. Na verdade, eu sinto uma leve vontade de desistir da raça humana, eu confesso, mas só para manter o estilo do texto eu preciso dizer que o que me comove é olhar para o restante da sala de aula onde esses dois negros que você citou estudam e ver que os outros 48 alunos são brancos. E olhar para as estatísticas que mostram a composição étnica da população brasileira e contatar a abissal diferença dos números. É sobre os negros que não estão nas universidades que estamos falando, não sobre você ou seus amigos.

Se a coisa está tão ruim, que tal propormos uma coisa: troque de lugar com algum aluno de escola pública. Já que não é possível trocar a cor da sua pele, pague, pelo menos, a mensalidade para que ele estude na sua escola e se mude para a dele. Ou, seja a cobaia da sua própria teoria. Já que você acredita que a única ação que deveria ser proposta é melhorar a educação básica: peça para o seu pai investir o dinheiro dele em alguma escola, entre nela gratuitamente junto com alguns outros alunos, estude nela durante 12 anos e então volte a tentar o vestibular. Ah, você não pode esperar tanto tempo? Então, porque os negros e pobres podem esperar até mais, já que todos sabemos que o problema da má qualidade da educação básica no Brasil não é algo que pode ser resolvido de ontem pra hoje?

Então, por favor, reconheça o seu privilégio branco e classe média e tire ele do caminho, porque essa conversa não é sobre você. Já existem espaços demais no mundo que têm a sua figura como estrela principal, já passou da hora de mais alguém nesse mundo brilhar.

Cotistas têm desempenho melhor do que os demais estudantes

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Uerj e a Universidade de Campinas – Unicamp fizeram estudos que mostraram que o desempenho médio dos estudantes que entraram nas instituições de ensino superior devido às cotas é superior ao resultado dos demais alunos.

A Uerj, em 2003, verificou que 49% dos cotistas foram aprovados em todas as disciplinas no 1º semestre do ano, contra 47% dos demais estudantes. Em 2010 a Uerj divulgou estudo que constatou que desde a instituição das cotas, o índice de reprovações e a taxa de evasão totais permaneceram menores entre os beneficiados das cotas.

A Unicamp em 2005 constatou que a média dos cotistas foi melhor que a dos demais colegas em 31 dos 56 cursos. Os cotistas se destacaram em Medicina, um dos mais concorridos, no qual a média dos que vieram de escola pública ficou em 7,9 e os demais 7,6.

Em 2006 os egressos de escolas pública tiveram média melhor em 34 cursos.

Ministro Relator do STF, Lewandowski, vota pela constitucionalidade das cotas raciais

Ministro Ricardo Lewandowski. Foto de Tarso Cabral Violin / Blog do Tarso

O Ministro do Supremo Tribunal Federal – STF Ricardo Lewandowski, relator da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF 186, julgou hoje totalmente improcedente o pedido feito pelo Partido Democratas – DEMO contra a política de cotas étnico-raciais para seleção de estudantes da Universidade de Brasília – UnB. Amanhã os demais ministros votarão.

Leia o voto na íntegra

O Blog do Tarso defende as cotas raciais. Veja artigo do professor Túlio Vianna

Na Revista Fórum

Cotas da igualdade

Debate sobre as cotas raciais nas universidades brasileiras trouxe de volta velhos clichês como a suposta “democracia racial” brasileira e o reducionismo econômico, que insiste em negar a diferença de tratamento entre brancos e negros da mesma classe social

Por Túlio Vianna

De todas as ficções com as quais o sistema capitalista se legitima, a mais hipócrita delas é a da igualdade de oportunidades. A meritocracia é uma ficção que só se realizaria se não houvesse heranças. No mundo real, ninguém começa a vida do zero; somos herdeiros não só do patrimônio, mas da cultura e da rede de relacionamentos de nossos pais. Alguns já nascem na pole position, com os melhores carros; outros se digladiam na última fila de largada em calhambeques não muito competitivos.

Quem é o melhor? O piloto que vence a corrida largando na pole position e com o melhor carro ou aquele que largou em último e chega com seu calhambeque em segundo lugar? Quem tem mais mérito? O candidato que estudou a vida inteira em excelentes escolas particulares e passou em primeiro lugar no vestibular ou aquele que passou em último, tendo estudado somente em escolas públicas, enquanto trabalhava oito horas por dia para ajudar seus pais? Continuar lendo