“Falido” aos 72, Requião diz que humor na blogosfera é essencial

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por Luiz Carlos Azenha do Viomundo

O senador Roberto Requião (PMDB-PR) sugeriu, durante o Segundo Encontro de Blogueiros, Redes Sociais e Cultura Digital do Paraná, que ativistas digitais e militantes políticos usem o humor, a ironia e o sarcasmo em seus espaços para desconstruir a mensagem da direita e enfrentar o pensamento único da grande mídia.

Segundo Requião, blogs muito intelectualizados correm o risco de afastar novos leitores ou de falar apenas para os mesmos. A observação veio num dia em que vários participantes falaram sobre o risco de a blogosfera se tornar uma “igrejinha”.

A blogueira Maria Frô, por exemplo, saudou a presença de militantes que vão organizar um encontro apenas entre blogueiros de saúde, em São Paulo, uma novidade que demonstra que mais e mais gente se apropria das ferramentas disponíveis no espaço digital para se organizar e reivindicar.

Antes, o blogueiro Eduardo Guimarães demonstrou preocupação com o tema, lembrando que milhões de brasileiros já se informam prioritariamente pelas redes sociais e que o número de internautas cresce diária e velozmente.

As mesas do encontro foram marcadas por outra constatação: a de que o poder da Globo e seus veículos associados vem crescendo no Brasil, ainda que o principal veículo das Organizações enfrente perda de audiência. É que, como lembraram Eduardo Guimarães e este que vos escreve, a Globo hoje se utiliza — com sua tradicional competência organizativa — de todas as plataformas de informação disponíveis para chegar ao público.

Como exemplo, lembrei a notícia segundo a qual a emissora contratou mil artistas para participar das Fun Fest da Copa do Mundo, as festas que acompanharão os jogos nas cidades-sede em 2014. As Organizações montaram uma empresa de eventos exclusivamente para isso. Ou seja, a Globo ganha dinheiro com a transmissão da Copa, com os patrocinadores da Copa, com os jogadores da Copa, com a abertura da Copa, com os torcedores da Copa…

Requião disse aos participantes que não acredita que o problema da imensa concentração midiática no Brasil — com certeza, uma das maiores do mundo — será enfrentado pelo governo Dilma, mesmo num eventual segundo mandato. O senador sugeriu que se faça uma tranfusão de 10% do sangue da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, para sua colega brasileira Dilma Rousseff.

Na Argentina, Kirchner conseguiu aprovar uma Ley de Medios que barra o avanço do grupo monopolista local, o Clarín, equivalente argentina das Organizações Globo.

[Leia aqui sobre as leis de mídia na América Latina]

Requião, o tuiteiro mais influente do Senado brasileiro, disse aos presentes que cuida pessoalmente de sua conta no Twitter, mas que seu perfil no Facebook é administrado por assessores. Ele foi instado pela blogueira Maria Frô a investir mais no Face. O senador foi definido como um “meme vivo”. Memes são mensagens básicas, equivalentes a manchetes de jornais, que pela facilidade de compreensão e poder de fogo recebem grande número de compartilhamentos.

O senador paranaense é reconhecido pelo estilo direto no Twitter:

Requião descreveu sua tentativa de aprovar no Senado uma lei que garanta o direito de resposta, que está na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado. Depois de receber apoio praticamente unânime, o projeto passou a enfrentar dificuldades, com o acréscimo de emendas que poderiam descaracterizá-lo.

Algumas emendas vieram de senadores que anteriormente haviam dado apoio completo à ideia. O projeto deverá ser analisado na sessão da próxima quarta-feira, mas sem a presença de Requião, que estará no Paraguai como observador de eleições locais.

Requião não especulou sobre se os senadores foram vítimas da chamada “síndrome de abstinência do Jornal Nacional”.

Ao falar das dificuldades enfrentadas pela blogosfera, especialmente o cerco judicial — ele dividiu a mesa com o autor do blog do Tarso, multado em 106 mil reais pelo TRE-PR, a pedido do candidato Luciano Ducci, por colocar no blog uma enquete eleitoral –, Roberto Requião disse que chega aos 72 anos de idade “falido”, depois de ter gasto 800 mil reais com a Justiça.

“Sou o político mais processado do Brasil”, afirmou, “mas nunca por corrupção”. Um dos processos, segundo o senador, foi movido por um político a quem denunciou por corrupção, que alegou que a sentença de condenação por falcatruas ainda não havia transitado em julgado.

Outra ação, movida pelo Ministério Público Federal, diz respeito à TV Educativa do Paraná. Durante o governo estadual de Requião, a emissora transmitia a chamada Escola de Governo, na qual integrantes do Executivo estadual debatiam e prestavam contas sobre ações de governo. Em caso de condenação, Requião disse que teria de ressarcir aos cofres públicos — pelo tempo usado na TV Educativa — valores que ultrapassam “em mais de dez vezes” todo o seu patrimônio.

Requião disse que, na época, entusiasmado com o programa Brasil Nação, que debatia temas nacionais na TV Educativa, chegou a procurar o ex-presidente Lula para sugerir que se fizesse o mesmo em nível nacional. O então presidente pediu que o então governador do Paraná fosse ao ministro da Casa Civil, José Dirceu. Procurado, Dirceu afirmou que o governo já tinha “sua TV”. Dirceu disse a Requião, segundo este, que era “a Globo”.

No encontro de blogueiros, o senador paranaense também se disse descrente dos partidos políticos brasileiros e criticou o governo Dilma. Segundo ele, a presidente está fazendo o que nem mesmo o tucano Fernando Henrique Cardoso fez em seus dois mandatos. Em caso de aprovação da MP dos Portos, que tramita no Congresso, o BNDES será autorizado a financiar a privatização (aqui, um discurso do senador a respeito do tema).

Requião afirmou que Dilma só pensa na reeleição, não tem um projeto de desenvolvimento nacional coerente e apela às concessões à iniciativa privada numa tentativa de bombar o PIB.

Questionado pela plateia, disse que não se trata de “correlação de forças”, nem de uma suposta aliança conservadora das bancadas ruralista e evangélica, nem do fato de que o PT não tem maioria no Congresso, ao contrário de forças políticas que sustentam ou sustentavam Hugo Chávez, Evo Morales, Cristina Kirchner ou Rafael Correa. As medidas conservadoras de Dilma, segundo Requião, são formuladas “na cúpula do governo”.

Requião falou sobre a importância da coragem na política. Citou um exemplo caseiro. Foi quando, durante uma campanha eleitoral no interior do Paraná, criticou o projeto de uma estrada que destruia o meio ambiente e foi vaiado por eleitores (mais tarde, descobriu, obteve 72% dos votos na região).

Apesar das críticas, Requião diz que se considera da base do governo e não vê opção para 2014. Sobre o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, a quem chamou de Dudu Beleza, o senador disse que “Eduardo está muito à direita, muito à direita” de Dilma. Sem entrar em detalhes, afirmou que um dos motivos para não apoiar o líder do PSB vem do fato de que ele, Requião, foi relator da CPI dos Títulos Públicos, popularmente conhecida como CPI dos Precatórios.

Abaixo, uma entrevista em áudio com o senador e o registro, em vídeo, da mesa de sábado à noite do BlogProg do Paraná:

http://new.livestream.com/accounts/3591652/events/2024211/videos/16421069

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