Acúmulo de erros desvela um projeto fracassado
No Jornal Brasil de Fato
Eduardo Sales de Lima, da Redação
Um engenheiro de 48 anos morreu eletrocutado na obra da futura estação Fradique Coutinho, da Linha 4 – Amarela do Metrô, na zona oeste de São Paulo. O acidente ocorreu no dia 1º de fevereiro, quando a vítima fazia manutenção na subestação do local. Segundo relato de testemunhas, Ricardo Martins encostou sem querer em um equipamento energizado e levou uma descarga de 20 mil volts.
“O Ricardo era um profissional extremamente competente, pressionado pelos prazos a fazer a manutenção da estação Fradique Coutinho. Ele mesmo já deu aulas para técnicos metroviários. Como é que um cara com profundo conhecimento técnico e teórico sofre um acidente desses? Ele estava pressionado, com sobrecarga de trabalho”, comenta o diretor do Sindicato dos Metroviários do Estado de São Paulo, Ciro Morais, que explica a morte: “Ele era terceirizado de uma linha privatizada”.
Entretanto, essa não foi, nem de longe, a maior tragédia que envolve a Linha 4 – Amarela do metrô paulista. Em janeiro de 2007, ocorreu um desmoronamento no canteiro de obras das estação Pinheiros e uma cratera foi aberta. Sete pessoas morreram.
Para Moraes dos Santos, esses e inúmeros outros acidentes têm a ver com uma trama sobretudo estrutural. “Esse projeto tucano, em que a iniciativa privada deve fazer a gestão das coisas públicas, não é recente, e vem antes mesmo do governo de Mário Covas [1995-2001]”. Ele conclui que todos os erros na construção e na manutenção da Linha Amarela estão diretamente relacionados a esse projeto privatista dos subsequentes governos tucanos.“Desde o início de sua construção, a tônica da Linha Amarela tem sido de mortes, obras embargadas, laudos que apontam falhas técnicas, esquema ilegal de contratações e cumplicidade do Ministério Público e do Tribunal de Contas do Estado”, explica.
Fracasso
“Essa concessão inclusive foi um contrato de pai pra filho. Se não tivesse uma capacidade, um número de usuários que não garantisse o lucro, o Estado ainda tinha que fazer um repasse desse subsídio para garantir aquele lucro previsto no contrato”, afirma Moraes dos Santos.
Segundo ele, a garantia de lucro a essas empreiteiras no Brasil, não somente em São Paulo, pode ser explicado, em parte, pelo fato de que existe um conluio dos financiamentos de campanha. E todo esse lucro não vem somente da concessão, como conta a economista Ceci Juruá. “Eles recebem muitas ajudas do governo, que a gente, de fora, não consegue enxergar. Por exemplo, eles importam materiais livres de impostos. Eles têm a vantagem de que quem não está dentro da empresa não pode saber a dimensão”, acrescenta. De acordo com ela, o serviço que eles prestam fica no limite “para que a população não faça grandes protestos”. Cinco das maiores empreiteiras do país formam o consórcio da Linha Amarela, e venceram a licitação. São elas: a Norberto Odebrecht, a Andrade Gutierrez, a Queiroz Galvão, a Camargo Corrêa e a OAS.
Linha do tempo da construção da Linha Amarela
2007 – Em janeiro, houve um desmoronamento no canteiro de obras da estação Pinheiros, na Linha 4 – Amarela do Metrô, e uma cratera foi aberta. Sete pessoas morreram no local.
2008 – Vem à tona investigação do governo suíço que aponta que, em 1997, a Alstom começou a pagar propinas a brasileiros. Esse dinheiro facilitava a aprovação de contratos de compra de equipamentos para hidrelétricas e para o Metrô do estado de São Paulo.
2010 – Em 21de setembro, pane atinge 250 mil pessoas e para a cidade de São Paulo.
2011 – O engenheiro Ricardo Martins, de 48 anos, morre eletrocutado na obra da futura estação Fradique Coutinho, na Linha 4 – Amarela do Metrô, na zona oeste de São Paulo.
