Tá legal, eu contesto o argumento

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Por Anísio Homem

Há dias o Blog do Tarso publicou o texto do advogado e professor de direito, Wilson Ramos, Xixo, como é conhecido. O texto se chama “Tá legal, eu aceito o argumento”.

O título parece querer indicar que o autor se resigna em aceitar o que ele avalia como uma opção do povo – demonstrada nos resultados eleitorais das eleições municipais de outubro último – pela direita. Diz Ramos, em passagens de sua análise:

“…é certo que a maioria da população escolheu a Direita (…) O povo decidiu experimentar governos de Direita (…) A maioria da população… decidiu votar na direita estadofóbica, demofóbica, homofóbica, neoliberal e meritocrata”.

E, numa acusação ainda mais contundente à maioria da população (onde se incluem os trabalhadores, os jovens, ou seja, todo o tipo de explorados e oprimidos desse país), afirma:

A população, sem saber, se tornou fascista…”

Para chegar a este libelo acusatório, Wilson Ramos esquece de colocar em sua balança de julgamento os verdadeiros resultados eleitorais, contornando a enxurrada de abstenções, votos nulos e brancos, que tornaram os eleitos (quase sem exceção nas capitais e grandes cidades) escolhas de minorias. É o caso do Rio de Janeiro, por exemplo, onde Crivella, mesmo no segundo turno, perdeu feio para os 47% do “voto em ninguém”, o que somados aos votos em Freixo mostram a real baixa popularidade desse reacionário. Mesmo em Curitiba, Greca se elegeu com o apoio de uma minoria de votantes.

Dito isso, parece que Ramos acusa sem provas (apenas por errada convicção) o povo de ter aderido ao fascismo e mais… se tornado… fascista, mesmo que inconscientemente. Não deixa de ser intelectualmente intrigante que o autor enxergue na recente disputa eleitoral um movimento fascista partidariamente organizado a quem o povo eventualmente tenha dado a maioria do seu voto.

Me parece que o erro de Wilson Ramos reside no fato de fazer uma enorme confusão entre dois aspectos do fenômeno eleitoral. Pois, se é verdade que o “voto em ninguém” (rejeição ao atual sistema político e aos partidos instituídos) teve enorme relevância no resultado das eleições, não deixa de saltar aos olhos a acachapante derrota do maior partido de esquerda do país, o PT, que perdeu 10 milhões de votos dos 16 milhões conquistados na eleição municipal anterior. Esses 10 milhões de votos não foram irrigar o crescimento eleitoral da direita – que não cresceu – e sim alimentar de forma predominante o enorme contingente das abstenções, votos nulos e brancos.

É muito interessante como em seu texto Wilson Ramos registra, de maneira deformada, essa questão:

“…a população fez uma escolha por valores antagônicos àqueles de esquerda (…) a maioria da população…tornou-se anti-esquerda”.

Colocadas as coisas numa outra ordem, diferente da sugerida por Ramos, poderíamos dizer o seguinte:

– A esquerda, a cúpula do PT, fez uma escolha de governar com valores e medidas políticas antagônicas aos interesses da maioria do povo, que elegeu, por 4 vezes consecutivas, para a presidência da República candidatos do partido, aspirando com isso a substanciais mudanças sociais no país.

Nessa outra maneira de ver não é que “a maioria da população tornou-se anti-esquerda”, foram os líderes de esquerda quem se afastaram de uma verdadeira política de esquerda, distanciando-se do povo. Senão vejamos: onde foram parar, nos 13 anos de governos do PT, as reformas de base tão almejadas desde 1964? Onde foram parar as reestatizações, principalmente a da Vale do Rio Doce, que foi um crime de lesa-pátria tão absurdo como a entrega agora do pré-sal? Em quais escaninhos foram engavetadas as investigações sobre a privataria tucana? Onde, em que desvão da vida, foi enterrada a reforma da mídia? E a Constituinte soberana que o PT tinha colocado na agenda nacional já no final da década de 80 e retomado em junho de 2013? E a reforma agrária que poderia ter avançado com a atualização dos índices de produtividade da terra? E os compromissos da “carta aos brasileiros”, de junho” de 2002, costurada por Palocci com o mercado financeiro, que está longe de pertencer ao epistolário de esquerda? Quem pode esquecer que Crivella, Maluf, Renan, Sarney, Sérgio Cabral, Ricardo Barros, o banqueiro Meirelles e até o próprio Temer faziam parte da tal coalizão de governo que… asseguraria a governabilidade? E como não lembrar das medidas de ajuste fiscal contra a classe trabalhadora já nos primeiros meses do segundo mandato de Dilma, tão criticadas pela CUT?

O problema na análise errada de Wilson Ramos é sua conclusão com ar de ressentimento:

Não há o que possamos fazer agora para mudar a percepção que a população tem a respeito da esquerda, do PT, ou de seus aliados (…) Há que esperar até que a maioria do povo, sofrendo os efeitos das políticas neoliberais, experimentando as consequências da ausência de políticas públicas para coletivos vulneráveis, realizando a destruição meio-ambiental inerente ao capitalismo sem limites, sentindo na pele o que significa a terceirização, o congelamento dos gastos sociais (PEC 241), e os malefícios do “governo dos juízes”, sinta saudades do que teve de 2003 a 2016”.

Em minha opinião, há muito o que fazer agora “para mudar a percepção que a população tem a respeito da esquerda”, e isso só vai acontecer se o PT – o maior partido da esquerda – se somar desde já, e de forma autocrítica, à maioria do povo em sua luta contra os planos de austeridade que Temer e os golpistas querem impor a mando do grande capital. Se isso não acontecer, o povo não só não sentirá saudades do partido como o verá, e com razão, como dispensável para suas lutas sociais.

As “condições objetivas” (os motivos) para o acirramento e não o apaziguamento das lutas estão aí, anunciadas nos planos regressivos do governo usurpador e contra o qual haverá certamente reação popular, como já mostram os fortes indícios das ocupações estudantis e outras manifestações. O que resta saber é se as condições subjetivas – a consciência de classe das lideranças dos trabalhadores e da juventude, de suas organizações políticas e sindicais – serão capazes de ajudar esse movimento a somar forças e se unificar em ações e campanhas nacionais coordenadas. Assistir de camarote que “o povo se exploda” achando que assim ele fatalmente venha a suplicar mais à frente a volta de uma esquerda expectante, é a pior das orientações, ainda mais quando é essencial se incentivar a renovação na participação política transformadora.

Quanto ao conselho do autor de que “quem puder deve aproveitar esse período…para tentar ser feliz, conviver mais em família, desfrutar momentos com amigos, praticar esportes, ler bons livros, essas coisas prosaicas que, militantes de esquerda, sempre postergamos”…concordamos que realmente quem puder, mesmo tendo que defender seu ganha-pão, seu salário e seus direitos…deve tentar ser feliz, educar-se e fortalecer-se fisicamente para enfrentar estes tempos de nevoeiro.

Aliás, por falar em navegar nas tormentas, talvez caiba bem terminar esse texto com um trecho de um poema do poeta russo Klebnikov:

“Ai do marujo que tomar o ângulo errado de marear por uma estrela: ele se despedaçará nas rochas, nos bancos de areia sob o mar”.

Marear pela estrela do PT exige o esforço de buscar o ângulo certo para não afundar o barco, mesmo quando não seja essa a intenção.

Anísio Homem – é escritor e militante do PT, publicou livros de política, poemas, literatura policial e satírica

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