Charge: Privatas do Caribe

Textos que defendem a privatização via OS, publicados hoje na Gazeta do Povo

FHC criou a privatização via OS no Brasil, copiado por Beto Richa no Paraná

Organizações sociais para quem?

Fernando Borges Mânica

A parceria com uma OS pode fazer com que sejam respeitados direitos, até o momento ignorados, e sejam materializados serviços que são hoje mal prestados ou inexistentes

O tumultuado processo de aprovação do projeto de lei paranaense das Organizações Sociais (OSs) trouxe para muitas pessoas a sensação de que tal lei promove verdadeira e ilegítima privatização do Estado. Mas essa sensação decorre da “forma” como a lei foi aprovada ou de seu “conteúdo”?

De início, insta ressaltar que a Constituição brasileira é pródiga na previsão de direitos aos cidadãos e na imposição de deveres ao Estado, muitos dos quais até o momento não foram materializados. Qual foi a última vez que você precisou de um serviço social do Estado? Você foi atendido de modo rápido, eficiente e satisfatório?

É ingenuidade imaginar que as OSs sejam panaceia para todas as falhas de atuação do Estado na ordem social. Mas, também, é ingenuidade pensar que uma estrutura pública integrada possa ser imune a desvios, ineficiência, apadrinhamento e corrupção. Não é porque aviões são usados em guerras e ataques terroristas que devemos deixar de usá-los como meio de transporte em determinados casos. Até porque os corruptos não precisam das OSs para desviar recursos. Eles já têm o Estado e fazem isso diariamente com cargos em comissão, com “funcionários fantasmas”, com a lei de licitações, com os convênios e por aí vai.

Nesse prisma, o terceiro setor deve atuar em áreas nas quais o Estado não atua ou não possui condições de atuar de modo satisfatório. A parceria com uma OS pode fazer com que sejam respeitados direitos, até o momento ignorados, e sejam materializados serviços que são hoje mal prestados ou inexistentes. Os melhores hospitais brasileiros são privados. E a maioria sem fins lucrativos. Por que não aproveitar seu know-how e fazer com que seus serviços sejam ofertados adequadamente a todos os brasileiros e não apenas à parcela da população mais aquinhoada?

A contratualização permite maior transparência, melhor controle e a possibilidade de comparação entre as atividades, os resultados e os custos de várias entidades que atuam na mesma área. Favorece a profissionalização, agilidade, flexibilidade, cobrança e responsabilização em caso de desvios, de modo muito mais incisivo do que ocorre em entidades públicas e em entidades privadas conveniadas. Não obstante, uma parceria com uma OS deve apenas ser celebrada nos casos em que, justificadamente, a participação privada ofereça tais vantagens. Por isso, a decisão pela parceria deve ser motivada e toda a execução do contrato deve ser transparente, sob pena de nulidade.

Ressalte-se que a Lei das OSs não vai mudar a realidade. O que pode mudá-la são as parcerias a serem celebradas. Que cada uma delas seja objeto de discussão pelo governo do estado, pelos detratores das OSs e, especialmente, pela sociedade civil organizada, que quer ver o direito de todos garantido acima de interesses egoísticos, ideológicos, fisiológicos ou partidários; por meio de serviços prestados com honestidade, transparência e eficiência.

Para que isso aconteça, outra parcela de entidades deve ganhar corpo no Brasil. Tratam-se das organizações não-governamentais (ONGs), que têm como foco a fiscalização do Estado e de suas parcerias. Junto de instituições como o Ministério Público e o Tribunal de Contas, o terceiro setor tem o dever de colaborar com a Administração Pública também na fiscalização dos serviços sob sua responsabilidade. Com o olhar atento da sociedade organizada e dos órgãos oficiais de controle, as OSs podem servir como poderoso instrumento de garantia de direitos sociais que, até hoje, são desrespeitados. Sem esse olhar coletivo, entretanto, as OSs poderão ser usadas para destruir edifícios e fazer implodir o regime jurídico que busca evitar utilização de recursos públicos para satisfazer interesses privados.

Sabe-se que o Estado é um mau prestador e um péssimo fiscalizador de serviços. Que a sociedade civil organizada o auxilie também em sua tarefa de fiscalização, por meio da realização de audiências públicas antes, durante e depois da celebração de parcerias com as OSs.

Com a participação ativa da sociedade organizada em um canal institucional e sob os holofotes da imprensa, o governo terá oportunidade de explicar e discutir detalhadamente os motivos pelos quais a gestão de uma atividade será (ou não) realizada por uma OS. Sem isso, a “forma” influenciará o “conteúdo” das parcerias, fazendo permanecer viva a sensação de que elas servem a interesses outros que não os dos cidadãos paranaenses.

Fernando Borges Mânica, doutor em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo (USP), é professor titular de Direito Administrativo da Universidade Positivo e professor de Direito Municipal da Universidade Tuiuti do Paraná. Também é membro da Comissão de Direito do Terceiro Setor da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional do Paraná (OAB-PR).

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A lei e o espírito da lei

Mário Messagi Júnior

O processo foi profundamente antidemocrático e abre brechas para o pior uso possível das OSs

Organizações Sociais (OSs) não são, necessariamente, uma má solução de gestão pública. Uma avaliação justa deve levar em conta não apenas a lei, mas o espírito que a preside, a forma como a lei é implantada, os mecanismos que ela cria ou deixa de criar. OSs podem ser uma boa solução, mas a forma como o governo Beto Richa está trilhando este caminho é, no mínimo, temerária.

As OSs fazem parte de um movimento que cresce cada vez mais de ampliação do terceiro setor, que engloba também Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) e Organizações Não Governamentais (ONGs). Essas entidades atuam em áreas relevantes e de interesse público e muitas vezes cumprem funções de Estado. Materializam ação pública, mesmo que sejam de natureza jurídica privada. Por isso, exige-se delas prestação de contas como se públicas fossem.

Em 1998, o governo Fernando Henrique Cardoso, do mesmo PSDB do governador Beto Richa, pelas mãos do ministro Bresser Pereira aprovou a Lei 9.637, que instituía o Programa Nacional de Publicização. O espírito do texto permitir a qualificação de OSs, para realizarem ações públicas.

As OSs são organizações privadas credenciadas por interesse direto do Estado. Estão assim muito mais próximas da política estatal e atuam por contrato de gestão. OSCIPs e ONGs são também entes privados, mas estão mais distantes das atividades centrais do estado. Firmam parcerias através de convênios e recebem, assim, recursos públicos para executar suas ações, com dever de prestar contas. OSCIPs estão mais distantes do núcleo central de ação do Estado e não podem receber espaço físico, estrutura ou servidores públicos para executar suas finalidades. Orbitam em torno do Estado, mas distantes dele. OSs podem receber servidores públicos cedidos, espaços físico (como hospitais) e estrutura para realizar suas ações. Foi esta distinção fundamental que fez o governo estadual optar por este caminho.

O modelo de controle público sobre OSs, como diz a cartilha do antigo Ministério da Administração e Reforma do Estado (MARE) em 1998, era finalístico e não processualístico. Ou seja, não são os procedimentos que são avaliados prioritariamente, mas os resultados. A ideia não é ruim. A Lei 8.666, que regula as licitações, tem um modelo processual. Quem conhece os procedimentos sabe muito bem como burlar a lei.

Mas o modelo finalístico não funciona em si. Depende da forma como ele é executado. OSs devem ter um conselho de administração composto por até 30% de representantes da sociedade civil e, no máximo, 40% de representantes do poder público. A abertura deste conselho para a participação efetiva da sociedade civil, dando acesso a todos os gastos e procedimentos é fundamental para que não haja corrupção. O que impede os desvios é a transparência do Estado, não a burocracia a portas fechadas. Na cartilha do Mare, a participação da sociedade civil no Conselho é prioritária: “As OSs tornam mais fácil e direto o controle social, por meio da participação nos conselhos de administração dos diversos segmentos representativos da sociedade civil”.

Com a pressa do governo, a composição do Conselho não foi definida, nem houve qualquer avanço na forma de participação da sociedade civil ou na definição do modelo de compras ou do Plano de Cargos e Salários. Nenhum desses aspectos fundamentais foi discutido. Os trabalhadores não têm ideia de como será o sistema de contratação e o que acontecerá com os contratados pela CLT, que são um bom contingente dos empregados em saúde no estado. O modelo de compras também não foi debatido. O processo foi profundamente antidemocrático e abre brechas para o pior uso possível das OSs.

Os salários pagos por essas organizações, que atuam no setor público com recursos públicos, podem ser aviltantes se seguiram a lógica privada que guia as empresas de terceirizações, ferozes perseguidoras do máximo de lucro. O recurso para compra de materiais e serviços pode ser utilizado sem nenhum controle público, longe de olhos incômodos da sociedade civil.

Espero que nada disso aconteça, que o governo mostre o alto espírito público que preside suas ações, mas os sinais emitidos até agora apontam para o sentido contrário. Tudo indica um processo de terceirização efetiva, mesmo usando entes jurídicos que, apesar de privados, devem ser públicos.

Mário Messagi Júnior, jornalista, é doutor em Ciências da Comunicação e foi gestor da área de Comunicação da UFPR de fevereiro de 2009 a julho de 2011.

Enquanto livro denuncia corrupção nas privatizações do FHC, governo Beto Richa quer privatizar via PPP e OS

A revista Carta Capital desta semana divulgou o novo livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr, “A Privataria Tucana”, que denuncia esquema de propinas e lavagem de dinheiro nas privatizações durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), entre 1995 e 2002.

O livro informa que o tucano Ricardo Sérgio de Oliveira, tesoureiro das campanha de FHC e José Serra (PSDB), que foi Diretor Internacional do Banco do Brasil durante a gestão de FHC, mandou milhões de dólares para paraísos fiscais durante o governo FHC, sem ser incomodado por autoridades.

O livro denuncia também que o genro e a filha de José Serra, logo depois da privatização das teles realizada por FHC, lavaram o dinheiro ilícito conseguido por tucanos durante as privatizações, por meio de propinas, com envolvimento também do empresário milionário cearense Carlos Jereissati, irmão do cacique tucano Tasso Jereissati. Carlos comprou parte do sistema Telebrás pagando um ágio de apenas 1%. Os parentes de Serra enriqueceram na época. Lembremos que José Serra foi ministro do Planejamento e da Saúde de FHC.

O autor chama os tucanos de “Privatas do Caribe”.

E nesse momento que o livro desmascara a privataria tucana, e enquanto o terceiro setor (ONGs) é questionado por esquemas nos âmbitos municipais, estaduais e federal, o governador Beto Richa impõe a Assembleia Legislativa do Paraná a aprovação em tempo recorde das leis estaduais que prevêem privatizações via as organizações sociais – OS e Parcerias Público-Privadas – PPP.

Beto Richa vai privatizar a TV Educativa por meio de uma OS

Segundo o Blog do Esmael, o governador Beto Richa (PSDB) vai privatizar a TV Educativa (E-Paraná) por meio de uma organização social – OS, sem a realização de licitação, para não precisar fazer concurso público.

Mas ele não havia prometido que iria privatizar via OS apenas um hospital, o Museu Oscar Niemeyer e a Orquestra Sinfônica?

Livro “A Privataria Tucana” é o presente de Natal do ano. Veja reportagem da Record News

Divulgado pelo Blog do Esmael

Líder do movimento estudantil, Camila Vallejo perde eleição no Chile

Do Opera Mundi

Gabriel Boric será o novo presidente da Fech; analista vê sinal de radicalização

Camila Vallejo, o rosto mais conhecido e carismático do movimento estudantil chileno – que nos últimos sete meses abalou o governo de Sebastián Piñera com protestos, choques e greves – foi derrotada nesta terça-feira (06/12) na eleição para presidente da Fech (Federação de Estudantes da Universidade do Chile), a entidade mais importante do setor.

O resultado, publicado na madrugada de hoje, revela um desejo de radicalizar os protestos estudantis em 2012, já que a corrente vencedora, mais radical, rechaça a via parlamentar como espaço de resolução das demandas estudantis, de acordo com analistas ouvidos pelo Opera Mundi. O novo presidente, o estudante de Direito Gabriel Boric, falou em estabelecer alianças com outros movimentos sociais em 2012.

Haroldo Ceravolo Sereza

Em agosto, Camila Vallejo (ao centro), esteve em Brasília durante ato da UNE

“Nossa proposta é construir novos setores políticos. A atual institucionalidade no Chile não tem largura para conter as demandas do movimento estudantil e nossa proposta será de confluir com diversos atores sociais. Não estamos dispostos a seguir delegando nossa vocação transformadora aos políticos de ontem. Chegamos para ficar”, disse Boric.

Boric apresenta uma mudança em relação a Vallejo por não ter filiação política, nem ideológica. Ele representa uma corrente autonomista, anti partidisma. Por isso, nao está vinculado aos trotskistas ou stalinistas, já que nao é comunista. Tampouco é anarquista. Nao está vinculado a partidos e sua proposta é exatamente anti-partidária.

Oito listas concorreram na eleição, realizada na segunda e terça-feira. A lista vencedora, F, Criando Esquerda, recebeu 4.053 votos. A lista J, Esquerda Estudantil, de Camila Vallejo, terminou com 3.964, uma diferença de apenas 89 votos.

O sistema eleitoral adotado pela Fech, entretanto, prevê que o candidato mais votado da lista mais votada assuma a presidência. E o segundo candidato mais votado, de qualquer lista, assuma a vice-presidência. Assim, embora Camila tenha perdido a presidência, ficará com a vice-presidência da Fech.

Outros representantes de listas menos votadas também farão parte da direção do movimento, assumindo cargos de secretaria geral e comunicação, por exemplo. Nenhum candidato de direita conseguiu votos suficientes para compor a direção e pelo menos um anarquista, da lista I, conseguiu entrar.

O novo presidente [foto ao lado] expressou sua admiração por Camila e elogiou sua “entrega (à causa) a todo custo”. Boric é da região mais austral do Chile, Magalhães. Ele diz que quer liderar “um movimento que não mude apenas a educação, mas que mude o Chile”.

Comunista, Camila era a menos radical

A derrota de Camila, que é membro da Juventude Comunista, é vista pelo analista político chileno Nibaldo Mosciatti como uma opção dos estudantes pelo radicalismo. “De forma aproximada, podemos dizer que a eleição na Fech reproduziu um movimento parecido com o que ocorreu no Chile com a Unidade Popular (governo do presidente socialista Salvador Allende, deposto por um golpe de Estado em 1973)”, disse ao Opera Mundi. “Naquela época, os comunistas representavam a ala menos radical, a ala que defendia a via parlamentar como foro adequado para a resolução dos conflitos, da mesma forma que acontece agora. Mas os setores mais radicais, neste caso, os anarquistas, os autônomos e mesmo os socialistas não veem o parlamento nem a política formal como instâncias representativas”, completou.

Depois de sete meses de paralização dos estudantes, protestos e choques com a polícia, Camila e seu vice, Giorgio Jackson, vinham privilegiando a opção de trasladar o debate político sobre as demandas estudantis para o Parlamento, especialmente para os trabalhos das comissões de Orçamento e Educação, como forma de pôr um fim ao impasse. Mas os setores mais radicais consideram a opção uma derrota.

“Os mais radicais têm a característica de apostar fortemente no assembleismo permanente, na mobilização social abrangente. Falam muito sobre o descrédito dos partidos políticos e culpam o Partido Comunista, de Camila, por ter se aliado à Concertação (coalizão governista de centro-esquerda que governou o Chile nos últimos 20 anos e, do ponto de vista dos estudantes, não promoveu as mudanças necessárias na educação)”, disse Mosciatti.

O Chile terá eleições locais em 2012 e parlamentares e presidenciais em 2013. Camila é uma das três personalidades políticas mais bem avaliadas do Chile – atrás apenas da ex-presidente chilena, Michelle Bachelet, e do ministro dos Transportes do atual governo, Laurence Golbourne, visto como o responsável pela operação de resgate dos 33 mineiros presos em Atacama, em agosto de 2010, quando então era ministro da Mineração. Para alguns analistas, Camila poderia candidatar-se a deputada em 2013.