Educar é abarcar pluralidade de ideias

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Por Janeslei Aparecida Albuquerque

A vereadora Carla Pimentel tem feito fama apresentando projetos de lei anacrônicos, já superados historicamente e com fortes marcas de conservadorismo. Como não podia deixar de ser, sua mais nova “polêmica” prevê que se alterem os currículos escolares e que os mesmos não contenham os fatos políticos que movem a história da humanidade, o que ela, em sua proposta, classifica como “doutrinação política e ideológica”.

Primeiro, a vereadora quis obrigar a leitura da Bíblia nas escolas. Agora, sua nova proposta tem igual teor preocupante: proibir que a História e as Ciências Sociais sejam ensinadas, nas escolas de Curitiba, a partir de uma perspectiva histórica. Ou seja, propõe que o ensino de História seja “desistoricizado”. Bom, talvez vire um conto de fadas. Uma narrativa linear sem disputas de poder, sem vencidos nem vencedores, sem injustiças nem injustiçados, sem conflitos… sem “ideologia”, diz ela.

Essa proposta, ironicamente, é carregada de ideologia. Seria muito bom se, antes de fazer qualquer proposta, os nobres legisladores consultassem as leis educacionais do nosso país. Por exemplo, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) estabelece que a educação deve ser inspirada “nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

O que esses princípios nos dizem? Que a educação das crianças e jovens deste país deve se constituir no aprendizado das ciências, no domínio da técnica e também na formação para o livre exercício da cidadania, da crítica, da consciência, e o direito a uma boa formação para o mundo do trabalho. O que exige o estudo da ciência, que, por sua vez, exige método e comprovação. E de que “mundo do trabalho” se trata? Trabalho que se dará numa sociedade dividida em classes, numa sociedade em que os direitos sociais, trabalhistas e civis há pouco tempo vem sendo construídos. Uma sociedade que se constituiu nas práticas do escravismo, do poder exercido pelas oligarquias, na violência, no patriarcado, no patrimonialismo.

Segundo o projeto, estes fatos não poderiam ser objeto de reflexão. As contradições não poderiam ser apontadas e toda a história não seria mais que “uma sucessão de acontecimentos fortuitos”. E essa proposta nem sequer é original: a ditadura, ou melhor, todas as ditaduras já fizeram isso. Mas a roda da história não parou de girar.

Aliás, falando em patrimonialismo, essa proposta quer levar esse conceito às últimas consequências, ferindo a laicidade do Estado, cujas leis os ocupantes da Câmara deveriam defender e fazer respeitar. Ele fere a “liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber”. E quer ferir mortalmente o princípio da pluralidade de ideias e de concepções pedagógicas.

A opção religiosa da parlamentar é da esfera privada. Mas a educação é regida por princípios de caráter público, e muito mais ainda na escola pública, que é de todos. A superação dos Estados teocráticos e a instituição da laicidade do Estado é uma conquista da modernidade e deu-se nos séculos 16 e 17. Essas propostas querem nos levar a um atraso de mais de 200 anos! Não podemos nos calar diante dessa e de outras ameaças obscurantistas e retrógradas.

Janeslei Aparecida Albuquerque, professora da rede estadual do Paraná, é mestre em Educação, secretária de Formação Política-Sindical da APP-Sindicato, militante da Marcha Mundial das Mulheres e membro do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe/UFPR), representando a APP-Sindicato.

Publicado na Gazeta do Povo de hoje.

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3 comentários sobre “Educar é abarcar pluralidade de ideias

  1. Educação é um processo individual, gradual e natural de aprendizagem, e não o mecanismo de doutrinação escolarizado que existe hoje. A escola moderna é um completo fracasso, pois ensina conhecimentos abstratos e inúteis para a vida e não aborda aquilo que realmente é necessário para a sobrevivência, como cultivo e preparo de alimentos, reciclagem de resíduos e uso de ferramentas, só para citar alguns exemplos. E isso tem um propósito muito claro: formar robôs para a indústria, que terão de dedicar décadas de suas vidas para sustentar um Estado corrupto e terrorista e o sistema moribundo que ele representa, recebendo migalhas nesse processo. Depois de aposentados, terão de viver com migalhas também, e ainda dedicando o resto de seus dias a tentar mitigar os problemas de saúde que tenderão a aparecer, muitos causados pela rotina de stress e monotonia. É claro que há exceções, pois nossos nobres representantes ganham sem trabalhar e tem tempo livre de sobra, graças à nossa “democracia”. Se esse é o caminho que queremos ensinar a nossos filhos, não merecemos ser chamados de humanos.

    A escola atual não abarca pluralidade de ideias, pois não admite questionamentos reais e não incentiva alternativas de vida ao modelo que descrevi acima. E nem poderia, pois se incentivasse, por exemplo, um modo de vida baseado na auto-suficiência a nível individual e comunitário, que foi o que existiu durante a maior parte da história humana, ela estaria oferecendo um modo de vida muito mais sustentável e viável do que o “moderno”, logo uma alternativa que muitas pessoas seguiriam, e isso causaria enormes problemas de médio e longo prazo ao sistema. A arrecadação de impostos poderia cair a níveis baixos a ponto de causar a falência do Estado e o colapso do sistema. Isso aconteceria porque as pessoas fabricariam seus utensílios ou então os obteriam por meio de trocas, logo em operações que não envolveriam dinheiro e não gerariam impostos. Sem Estado, os malfeitores não teriam mais a proteção dos “direitos humanos”, e pensariam duas vezes antes de cometer crimes. Outros problemas teriam suas causas eliminadas, e assim finalmente poderiam ser resolvidos.

    Por tudo isso, por que não buscar a auto-suficiência, servindo de exemplo às pessoas ao nosso redor? Perderíamos algumas regalias que só uma pequena fração da sociedade dispõe (produtos e serviços caros e supérfluos), mas ganharíamos na maioria dos aspectos. Não parece mais fácil e lógico trabalhar apenas pelo sustento da própria família ao invés de sustentar também uma elite de parasitas chamada “classe política”, sem falar em todos aqueles que se beneficiam dela?

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  2. Sugestão de luta para a APP neste final de ano: professora Janeslei, primeiramente parabéns pelo artigo. O que a senhora acha em resposta ao calote do terço de férias os professores darem um calote na entrega de notas de final de ano. Simples: só entrega quando pagarem o que manda a constituição. pagou, libera as notas. não pagou retém as notas. Pagou parcelado, libera as notas parceladamente…

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