Entrevista com Zélia Passos

Foto de Alexandre Mazzo/ Gazeta do Povo

Ela chegou à política de braço dado com o amor e com a arte. O amor se chamava Edésio Passos, seu primo. A arte era o teatro. Desses casamentos nasceu um animal político chamado Zélia – a mulher que viveu todas as paixões de seu tempo.

Hoje na Gazeta do Povo

Estrela Clandestina

Houve um tempo, no Paraná, em que encontro de esquerda que prezasse, fosse forró ou convenção, precisava confirmar duas presenças – a de Zélia e Edésio Passos. “Chegaram”, dizia-se, levando um palanque e meio a dar rodopios com a cabeça. Era o que bastava: sobre a dupla se teciam pequenas e grandes histórias de revolução. A mais divertida era a de que o Partido dos Trabalhadores, o PT, ainda em cueiros, cabia inteirinho na casa do casal. Que ali tinha nascido. Que Lula lhes era hóspede tão íntimo que podia fechar a geladeira com a ponta do pé, caso quisesse.

Os tempos são outros, sabe-se. Tsunâmis levaram a inocência do PT, um PT que já não cabe na sala dos Passos. E Zélia – aposentada – anda às voltas com cerâmicas, hoje destinatárias do impulso que a levaram, um dia guria de colégio de freiras, a abraçar, sem reservas, todos os desejos de sua geração. Aos 70 anos, tornou-se uma líder discreta. Mas como em tempos idos, basta o anúncio de sua presença para que a imaginação fique convulsiva. Como antes, ela é a depositária da vida sonhada dos carbonários.

A sala do apartamento em que vive no bairro do Cabral, em Curitiba, é pequena. Está separada de Edésio. Quase se separou também do PT – reconhece, ao qual hoje está ligada depois de muito discutir a relação. O partido tem mesmo que fazer por merecê-la. É sua estrela.

Natural de Penápolis, no Noroeste de São Paulo, Zélia chegou adolescente a uma Curitiba de província. Estava fadada a casar e, quem sabe, a tricotar. Até participar – meio clandestinamente – de um curso de teatro e de uma passeata pró-Jango. Foi sua primeira vez.

Dali em diante, o mundo virou a sala onde conheceu a militância na Ação Popular – uma das muitas organizações de esquerda da década de 1960 –, o trabalho como operária de fábrica, a prisão e as preliminares da tortura. Foram tão violentas quanto, principalmente para uma mulher grávida. Depois veio a sociologia e a política propriamente dita. “Candidata, nunca mais”, diverte-se.

Já pensou em se desfiliar do PT, partido que ajudou a criar?

Muitas vezes balancei, mas o que me segurou foi a certeza de que os petistas que causam escândalo na imprensa são uma minoria. Continuo filiada. Mas não foram águas tranquilas. Passei por períodos de muitos questionamentos.

Quantos graus de separação há entre Zélia e o ex-presidente Lula?

O Lula dormiu na minha casa algumas vezes. No começo do PT, nós não tínhamos dinheiro para hotel. Mesmo aqui no estado, acompanhávamos o Lula em vários lugares. E quando tínhamos que, por tarefa, ser candidatos a algum cargo, ele vinha pra cá prestigiar.

Dizem que o PT nasceu na sala de estar da Zélia e do Edésio Passos. Como foi?

O PT de Curitiba nasceu na minha casa, porque nós éramos dos poucos que morávamos em um lugar espaçoso. Realizávamos as reuniões maiores lá, com participação de 20 ou 30 pessoas. Naquele tempo, o partido cabia na minha sala. Logo em seguida, a gente passou a enfrentar o desafio de legalizar o PT. Para isso, tivemos que criar o PT em 60 municípios. A gente conseguiu.

Quão distante o PT de hoje está daquele da sala da sua casa?

Nós éramos idealistas. A carta de princípios do PT é linda e eu gostaria muito que fosse viável. Mas no decorrer da luta isso mudou. Hoje a gente convive com a injustiça como se fosse algo normal. Num país em que prevalecem o individualismo e o lucro, ao se entrar num jogo é preciso lutar nas condições que nos são postas.

Quando a política começou para você?

O Edésio [ex-marido] é meu primo. Na infância convivemos pouco, mas isso mudou quando ele veio de Londrina para Curitiba cursar Direito, e ia muito à minha casa. Ele começou a se envolver na política. Acabou me puxando.

A minha primeira vez foi em 1961, com a renúncia do Jânio. Curitiba foi um foco de resistência em defesa à posse do Jango, que estava na China na ocasião. Embora eu fosse estudante de um colégio de freiras, fiquei deslumbrada com tudo aquilo.

O teatro só veio a reforçar.

Teatro?

Cursei o Colégio Sagrado Coração de Jesus. Na hora de escolher o que fazer no vestibular, não sabia o que queria. Fiquei noiva do Edésio e resolvi parar de estudar por um ano. Passei a acompanhar a minha irmã numa oficina de teatro. Ela desistiu, eu fiquei. Ali conheci o [jornalista e escritor] Walmor Marcelino, o Euclides [Correia de Souza, o Dadá, do Teatro de Bonecos], entre outras pessoas completamente diferentes daquelas com as quais eu convivia.

A Zélia que conhecemos nasceu no palco?

Foi marcante. Eu tinha 17, 18 anos e uma vida restrita. Foi só com o teatro que passei a participar. Eu já lia sobre existencialismo, mas o contato com a turma do teatro era muito instigante. Comecei a rever os meus valores e minha formação dentro de uma família muito católica. Não foi fácil. Sofri muito. Tinha crises de choro. [risos]

Fale-nos da mulher que deixou tudo e foi viver com os operários…

Por volta de 1970, eu lecionava em Maringá e estava ligada à Ação Popular, que tinha uma política de inclusão de seus filiados na vida da classe trabalhadora. Pedi exoneração e me mudei para o Rio de Janeiro, onde trabalhei por alguns anos como operária de fábrica.

A repressão era muito violenta. A cada prisão tínhamos que mudar de casa, porque poderia haver delação. Na ocasião, minha filha, Ana Beatriz, tinha 5 anos. Foi um período difícil, sobretudo no aspecto emocional. Eu tinha que sobreviver como operária, recebendo um salário mínimo. Com tantos presos e mortos – inclusive o rapaz com quem eu morava no Rio – decidi voltar para Curitiba.

Como foi o retorno?

Continuei ligada à Ação Popular, mas já não como clandestina, pois era uma pessoa conhecida na cidade. Comecei tudo de novo: batalhei para conseguir emprego. A professora Eni Caldeira conseguiu uma indicação para eu trabalhar no Senac. Logo fui aprovada no concurso da UFPR. Na ocasião, o Jaime Lerner foi nomeado prefeito e um antigo colega de turma, o Rubem Murilo, me convidou para assumir a diretoria de Educação. A prefeitura tinha só dez escolas na ocasião. Trabalhei um ano. Até ser presa.

… por suas atividades no Rio de Janeiro…

Por minha atuação na Ação Popular em Maringá, no Rio e em Curitiba. Na ocasião, um ato institucional autorizava a Polícia Federal a prender uma pessoa por até 60 dias para averiguação. Fiquei presa dois meses numa delegacia da Santa Quitéria. Depois fui transferida para o Hospital da Polícia Militar, porque estava grávida do meu segundo filho, André.

Meu médico, doutor Paulo Bittencourt, fez um escarcéu, e me removeram. Fiquei num cubículo do porão, onde havia uma porta e uma janela: dois policiais na porta e um soldado nesta janela. Para ir ao banheiro tinha de estar acompanhada de uma enfermeira.

Na véspera de Natal, chega o comandante da 5.ª região, acompanhado por muitos homens. Eles falavam de espírito natalino e que tinham ido lá para ver se estava tudo bem. Respondi que não. Ganhei de presente poder ir ao banheiro sozinha e não ter ninguém na janela. Passei a fazer sapatinhos para o André.

Eu me sentia superpoderosa, como acontece com as mulheres grávidas. Enfrentei os interrogatórios de nariz empinado. Eles não conseguiram que eu fizesse nenhuma confissão.

Você sofreu tortura?

Sofri muita ameaça de tortura física. E interrogatórios que começavam cedo e iam até a noite. O Edésio foi preso logo depois e transferido para o Rio e depois para Minas, onde fizera militância. Havia muita ameaça de um em relação ao outro e em relação a nossa filha. Mas eu tinha um cargo de certa importância na prefeitura e o Jaime Lerner não me demitiu, numa atitude de dignidade surpreendente. Tanto que no final do ano, quando eu ainda estava incomunicável, chegou um funcionário da prefeitura com uma porção de processos para eu assinar. Quando saí da prisão, voltei a trabalhar na diretoria de Educação. Ao saber que o Jaime tinha sofrido muita pressão, sugeri minha transferência para o Ippuc.

E na UFPR….

Reassumi as aulas. No segundo ou terceiro dia, chegou um bedel na sala e me entregou um ofício do reitor, dizendo que eu não prestava mais serviços na universidade. Procurei a Reitoria, mas lá ninguém me dizia nada. Acabei entrando com uma ação trabalhista. Ganhei, recebi indenização, mas não fui readmitida. Voltei com a Lei da Anistia, em 1979, mas na área de Ciências Sociais.

O que pensa sobre as indenizações?

Recorri para ser reintegrada à UFPR porque fui injustiçada e queria reparação. As indenizações no Paraná, por iniciativa do Beto Richa, fo­­ram de até R$ 30 mil para os que foram presos. Acho que isso materializou uma tentativa do estado de corrigir uma injustiça. Mas do ponto de vista nacional, várias pessoas que foram indenizadas tiveram perdas irreparáveis.

No caso da Comissão da Verdade, que pretende identificar e punir os torturadores, não tenho muito claro qual seria o resultado positivo. Não vejo na sociedade uma preocupação com essa punição. Desconheço qual é a eficácia de punir essas pessoas já velhas. Não sei se devemos lhes jogar pedras. Espero que a vida os tenha punido. Eles morreram para a história.

E a Zélia candidata?

Nunca levei jeito para isso. Me candidatava porque era tarefa para o partido. Concorri a deputada estadual em 1982. Em 1986 fui candidata ao Senado. Eu não podia me furtar. No início dos anos 90 fui suplente do [dr.] Rosinha na Câmara Municipal [de Curitiba]. Assumi o lugar dele por dois anos. Foi um atraso de vida. Jurei que nunca mais. [risos]

Para onde você transferiu a energia da militância?

Estou aposentada, trabalho no PT sempre que sou chamada e faço coisas que nunca fiz na vida, como cerâmica. [risos] Gosto demais. Mas minha primeira experiência artística foi com a ikebana, que prega que você tem de buscar harmonia no desigual. Quando eu fiz a primeira ikebana, pensei: “Não acredito que consigo fazer algo tão bonito”.

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