O que Derosso gastou na Câmara com publicidade possibilitaria anúncio diário no Jornal Nacional

Gasto com publicidade pagaria inserção diária no Jornal Nacional

Câmara de Curitiba gastou R$ 30,1 milhões com propaganda em cinco anos. Valor seria suficiente para anunciar todos os dias no maior telejornal do país

EUCLIDES LUCAS GARCIA E MARIANA SCOZ, ESPECIAL PARA A GAZETA DO POVO DE HOJE

Os contratos da Câmara de Curitiba com empresas de publicidade, que estão sendo questionados pelo Tribunal de Contas do Estado (TC) por suspeitas de irregularidades, são uma exceção entre as capitais brasileiras. Dos 26 Legislativos municipais das capitais de estados, apenas os de São Paulo e Belo Horizonte têm acordos parecidos com os da Câmara de Curitiba. Outro dado revelador mostra que, com o valor gasto na capital paranaense com publicidade do Legislativo municipal (R$ 30,1 milhões em cinco anos), seria possível pagar 1.840 inserções de 30 segundos, na região de Curitiba, nos intervalos do Jornal Nacional. Isso significa que a Câmara poderia anunciar todos os dias ao longo dos cinco anos de contrato no principal telejornal do país.

Com R$ 26,5 milhões, o Legislativo da capital também poderia optar por um pacote de publicidade que incluísse anúncios em todos os dias úteis dos cinco anos de contrato em um jornal de bairro, propagandas em um jornal de circulação estadual durante dois anos e meio e anúncios nos intervalos do Jornal Nacional igualmente por dois anos e meio. Sobrariam ainda R$ 3,6 milhões para a produção de campanhas institucionais.

Quase sem paralelo

Fechados pelo Legislativo de Curitiba em 2006 com duas agências de comunicação da capital, os contratos tinham um valor original de R$ 5,2 milhões. Mas receberam dois aditivos, que elevaram o valor gasto para R$ 30,1 milhões. Os contratos se encerraram neste ano.

Além de chamar a atenção pelo valor milionário, os acordos praticamente não têm paralelo na comparação com outros legislativos do país. De acordo com um levantamento feito pela Gazeta do Povo, em apenas duas outras capitais a Câmara Mu nicipal possui contratos nos mesmos moldes.

No caso de São Paulo, a Câmara paulistana tem contrato com uma agência de publicidade no valor de R$ 8,5 milhões por seis meses de vigência – por meio de dois aditivos, o acordo foi estendido para um ano e meio. Caso o contrato fosse fechado pela duração de 60 meses, limite máximo permitido por lei e período igual aos contratos renovados em Curitiba, o valor gasto na capital paulista chegaria a R$ 85 milhões, mais que o dobro do valor da capital paranaense. São Paulo, porém, conta com 17 vereadores a mais que Curitiba e tem uma população cerca de seis vezes maior.

Em Belo Horizonte, o contrato já dura um ano e tem o valor anual de R$ 3,75 milhões. Segundo a coordenadora de publicidade da Câmara local, Daniele Morreale, o trabalho feito pela agência contratada consiste em campanhas institucionais, especialmente em jornais e revistas. “Infelizmente, ninguém conhece o que acontece na Casa. Não se tem espaço para conversar com a sociedade. Não existe mídia espontânea”, justifica ela.

Consultadas, as câmaras de Florianópolis e de Porto Alegre disseram que farão licitações para a contratação de agências de publicidade ainda neste ano, adotando modelo semelhante ao de Curitiba. As demais 21 câmaras usam servidores de carreira para produzir sua comunicação institucional.

Entenda o caso

Saiba mais sobre as denúncias envolvendo os contratos publicitários da Câmara de Curitiba:

• Em 2006, a Câmara abriu licitação para o serviço de publicidade.

• Duas empresas venceram a licitação: a Oficina de Notícias, empresa de propriedade de Cláudia Queiroz Guedes, esposa do presidente da Casa, João Cláudio Derosso (PSDB), e do pai dela; e a Visão Publicidade.

• O aviso de licitação foi publicado apenas no Diário Popular, jornal de circulação reduzida, e somente as empresas vencedoras participaram da concorrência.

• Inicialmente, o contrato era de R$ 5,2 milhões para cada uma, mas os aditivos elevaram o valor máximo para R$ 30,1 milhões.

• Foram usados R$ 31,9 milhões, num total de R$ 5,1 milhões para a Oficina de Notícias e R$ 26,8 milhões para a Visão Publicidade. O contrato foi encerrado em maio deste ano.

• O TC questionou 16 itens do contrato, desde indícios de violações à Lei de Licitações até o fato de uma das empresas contratadas pertencer à mulher de Derosso.

• Na última quinta-feira, o Conselho de Ética da Câmara reuniu-se para a analisar denúncia contra Derosso por quebra de decoro.

• Além disso, a Federação das Associações de Moradores de Curitiba (Femotiba) protocolou pedido de impeachment de Derosso.

• Derosso nega qualquer irregularidade nos contratos.

Para especialistas, propaganda da Câmara é dispensável

Cientistas políticos afirmam que publicidade de vereador deveria ser seu próprio trabalho. E criticam os parlamentares de Curitiba por não fiscalizarem uns aos outros

Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo são unânimes em classificar como desnecessários os R$ 30,1 milhões gastos pela Câmara de Curitiba em publicidade em cinco anos. Para eles, a propaganda de um vereador deve ser o próprio trabalho parlamentar. Em relação às suspeitas que pairam sobre os contratos de publicidade firmados pelo Legislativo municipal, eles criticam o desinteresse dos vereadores em fiscalizar as ações da Mesa Executiva. E também alertam a própria sociedade, que não estaria preocupada em saber se a Câmara de fato vale o quanto custa para os cofres públicos.

O cientista político Mário Sérgio Lepre, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), defende que não há sentido em fazer propaganda de ações como a elaboração de leis e a fiscalização do Executivo. “É um gasto exorbitante e desnecessário. Não há lógica em gastar com agências de publicidade, ainda mais se pensarmos que as Casas Legislativas contam com assessoria própria para divulgar à população o que está sendo feito.”

“A grande publicidade da Câmara se dá na atuação dos próprios vereadores”, diz o professor de Ciência Política Emerson Cervi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “Além disso, há grandes dúvidas a respeito do procedimento de licitação feito pela Câmara de Curitiba, tanto que o Tribunal de Contas levantou uma série de dúvidas.”

Custo-benefício

Para Lepre, a omissão da sociedade favorece em grande parte os investimentos desnecessários do poder público, como no caso da Câmara da capital. Segundo ele, é fundamental que todos entendam que a máquina estatal tem um custo para a sociedade e, a partir daí, passem a pensar se ela vale o quanto recebe. “É como se você visse um sapato na vitrine por R$ 100, mas tivesse de pagar R$ 150 à loja porque essa diferença de R$ 50 tem de ir para o governo. Mas o brasileiro ainda não percebeu que o Estado tem de prestar um serviço a partir de um valor custeado pelo cidadão”, afirma Lepre. “Essa é uma lógica que não ocorre na ca beça da população, de que, se o Es tado é caro, tem de dar retorno. Quan do isso estiver claro, a sociedade vai começar a entender que o Estado precisa trabalhar para você.”

Lepre diz ainda que, analisando o trabalho da Câmara atualmente, a instituição está longe de ter um custo-benefício no mínimo razoável para a sociedade. “O que há hoje são mandatos de serviço, que ficam atrelados ao Executivo em busca de vantagens para as bases eleitorais de cada vereador. Sendo assim, a Câmara é um penduricalho caro, com um alto custo de assessores para fazer apenas assistencialismo”, critica ele. “Mas, infelizmente, não se vê o alto custo disso para a sociedade; não se vê que o Legislativo é ineficiente naquilo que faz.”

Fiscalização

Já Emerson Cervi defende que os próprios vereadores precisam fiscalizar o que a Câmara faz com o repasse anual de 4,5% do orçamento geral do município – o cor respondente a R$ 100,8 mi lhões em 2011. A crítica do professor de que os parlamentares não têm interesse em conhecer as atividades da Casa se sustenta em declarações como a do líder da oposição, vereador Algaci Tulio (PMDB). “Quem tem conhecimento da administração da Casa é a Mesa Executiva, não são os 38 vereadores, muito menos nós da oposição”, afirmou o parlamentar na semana passada.

“É preciso ressaltar também que não é proibido devolver di nheiro ao Executivo, caso ele não seja usado pela Câmara. Não há regra obrigando o Legislativo a usar o porcentual máximo do repasse”, afirma Cervi.

3 comentários sobre “O que Derosso gastou na Câmara com publicidade possibilitaria anúncio diário no Jornal Nacional

  1. Sabe o que é mais triste nesta história toda?
    Não vai haver penalidade contra ele ou seus familiares e, se candidato a qualquer cargo público, será reeleito… Simples assim!

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  2. Se alguém de algum lugar civilizado cair de paraquedas em Curitiba, nao vai entender como uma Câmara Municipal ainda não demonstrou detalhadamente seus gastos com publicidade. O fato é que ninguém nunca viu propaganda da Câmara. Cadê o MP, a oposiçao, o TC, a polícia (isso é caso de polícia, não de colunas políticas). Fora Derosso e aproveita para explicar seu polpudo patrimônio construído com salariozinho de vereador.

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