
Síndrome severa de conservadorismo – Paul Krugman
21 fevNa Gazeta do Povo de segunda-feira
Mitt Romney tem um dom com as palavras – especialmente as autodestrutivas. Na sexta-feira ele fez mais uma das suas, ao dizer à Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês) que ele era um “governador severamente conservador”.
Como apontado por Molly Ball do jornal The Atlantic, Romney “descreveu o conservadorismo como se fosse uma doença”. Realmente. Mark Liberman, professor de linguística da Universidade da Pensilvânia, forneceu uma lista de palavras que comumente acompanham o advérbio “severamente”; as cinco mais, em ordem de frequência de uso, eram “incapacitado”, “deprimido”, “doente”, “limitado” e “ferido”.
Isso claramente não era o que Romney queria dizer. No entanto, se você for conferir a corrida para nomeação presidencial republicana, provavelmente acabará se perguntando se foi ou não um ato falho. Pois parece claro que algo está muito errado no conservadorismo americano moderno.
Começando com Rick Santorum, que, de acordo com o instituto Public Policy Polling, é definitivamente o favorito, no momento, entre os eleitores republicanos das primárias, estando 15 pontos na frente de Romney. Qualquer um com uma conexão à internet está ciente de que Santorum é melhor conhecido por seus comentários de 2003 sobre homossexualidade, incesto e bestialidade. Mas há muito mais coisas estranhas nele.
No ano passado, por exemplo, Santorum fez questão de defender as Cruzadas medievais contra “a esquerda americana que odeia a Cristandade”. Deixando de lado as questões históricas (porque o que é um massacrezinho ou outro de infieis ou judeus?), o que faz esse assunto numa campanha política do século 21?
E a questão não é só sexo e religião: ele também declarou que a mudança climática é um engano, parte de um “esquema belamente planejado” provindo da “esquerda” para fornecer “desculpas para o governo controlar mais a sua vida”. Pode-se dizer que esse tipo de teoria da conspiração não está limitado a Santorum, mas essa é a questão: o chapéu de papel alumínio dos paranóicos caricatos se tornou já um acessório comum, quando não obrigatório, do partido republicano.
E ainda tem Ron Paul, que veio em segundo lugar nos caucus do Maine apesar da publicidade gerada por assuntos como os boletins racistas (e conspiratórios) publicados sob seu nome nos anos de 1990 e suas declarações sobre tanto a Guerra Civil quanto a Abolição da Escravidão terem sido erros. Fica claro que um amplo segmento da base de seu partido se sente confortável com os pontos de vista que se esperaria que viessem de uma direita mais extrema.
Por fim, há Romney, que provavelmente receberá a nomeação, apesar de seu fracasso evidente em conseguir estabelecer uma conexão emocional com, bem, qualquer um que fosse. A verdade, lógico, é que ele não era um governador “severamente conservador”. A grande realização que carrega sua assinatura foi uma reforma do sistema de saúde que é, em todos os aspectos importantes, idêntico à reforma nacional que foi assinada pelo presidente Obama quatro anos depois. E, num mundo político racional, sua campanha se centraria sobre essa realização.
Mas Romney está atrás de uma nomeação presidencial republicana, e, quaisquer que realmente possam ser suas crenças pessoais – se, de fato, ele acredita em qualquer outra coisa fora que ele deva ser presidente – ele precisa ganhar os eleitores das primárias, que são mesmo severamente conservadores, tanto nos sentidos intencional e não intencional da palavra.
Sendo assim, ele não pode depender de seu histórico no cargo. E ele também não estava se esforçando muito para basear a campanha em sua carreira nos negócios, mesmo antes de as pessoas começarem a fazer perguntas difíceis (e muito apropriadas) sobre a natureza de sua carreira.
Em vez disso, seus discursos políticos dependem quase que inteiramente das fantasias e delírios fabricados para apelar às ilusões da base eleitoral conservadora. Não, o presidente Obama não é alguém que “começou seu mandato pedindo desculpas pela América”, como declarou Romney, novamente, na semana passada. Mas esta “falsidade de quatro Pinóquios”, como põe o Washington Post Fact Checker [que mede o nível de verdade de declarações de políticos, graduando-as entre um e quatro “Pinóquios”], está no cerne da campanha Romney.
Como é que o conservadorismo americano conseguiu acabar se tornando tão distante e contrário aos fatos e à racionalidade? Pois ele não foi sempre assim. Afinal, a reforma do sistema de saúde que Romney quer que esqueçamos seguiu uma planta desenhada originalmente pelo instituto conservador The Heritage Foundation!
Minha resposta breve é que o jogo de vigarices que há muito se estende entre os conservadores econômicos – e os patrocinadores ricos a quem eles servem – finalmente desandou. Durante décadas o Partido Republicano tem ganho eleições apelando para divisões sociais e raciais para, depois, após cada vitória, recorrer ao desregulamento e cortes tributários para os ricos – um processo que atingiu seu ápice quando George W. Bush ganhou a reeleição fazendo pose de defensor da América contra terroristas gays casados, anunciando depois que tinha um mandato para privatizar a Previdência Social.
Ao longo do tempo, no entanto, esta estratégia criou uma base eleitoral que realmente passou a acreditar em toda essa fanfarronada – e agora a elite do partido perdeu o controle. A questão é que a situação lastimável do Partido Republicano de hoje – e tem alguém que não a considere lastimável? – não é nenhum acidente. Os conservadores econômicos fizeram um jogo cínico e agora estão enfrentando os efeitos adversos, um partido que sofre de conservadorismo “severo” no pior dos sentidos. E a doença pode levar muitos anos para ser curada.
Tradução: Adriano Scandolara
EUA não são uma empresa – Paul Krugman
14 janHoje na Folha de S. Paulo
PAUL KRUGMAN
EUA não são uma empresa
A economia é muitíssimo mais complexa do que mesmo a maior das corporações privadas
“E a cobiça -guarde bem minhas palavras- vai salvar não apenas a Teldar Paper, mas também essa outra corporação que não funciona corretamente, chamada EUA.”
Foi assim que o fictício Gordon Gekko encerrou seu discurso no filme “Wall Street – Poder e Cobiça”.
No filme, Gekko recebeu o castigo merecido. Na vida real, porém, a política baseada na noção de que a cobiça é uma coisa boa é a razão principal pela qual a renda dos 1% mais ricos vem crescendo tão mais rapidamente que a da classe média.
Hoje, porém, vamos voltar nossa atenção ao resto da frase, a parte que compara a América a uma corporação. Também esta é uma ideia que vem sendo amplamente aceita. E é a base principal do argumento de Mitt Romney de que ele deve ser presidente: concretamente, ele afirma que o que precisamos para consertar nossa economia é alguém que já fez sucesso nos negócios.
É claro que, com isso, Romney abriu as portas para sua carreira como empresário ser sujeita a escrutínio intenso.
Na Bain Capital, ele foi comprador e vendedor de empresas, muitas vezes em detrimento dos empregados delas, e não alguém que administrou empresas com vistas para seu sucesso no longo prazo.
Mas há um problema mais profundo em toda a noção de que aquilo de que este país precisa é um empresário de sucesso para ser seu presidente: na verdade, a América não é uma corporação.
Por que uma economia nacional não é como uma corporação? Para começo de conversa, não existe um resultado final simples. Outra coisa: a economia é muitíssimo mais complexa que mesmo a maior empresa privada.
O que é mais relevante para nossa situação atual, contudo, é que até mesmo as corporações gigantes vendem a maior parte do que produzem para outras pessoas, não para seus próprios funcionários. Enquanto isso, mesmo os países pequenos vendem a maior parte do que produzem para eles mesmos, e os grandes países, como a América, são quase completamente seus próprios maiores clientes.
Considere o que acontece quando uma empresa pratica cortes implacáveis de despesas. Desde o ponto de vista dos donos da empresa, quanto mais custos são cortados, melhor. Quaisquer dólares tirados do lado dos custos serão acrescentados ao resultado final.
Mas a história muda de figura quando um governo reduz seus gastos diante de uma economia deprimida. Veja o caso da Grécia, Espanha e Irlanda, todas as quais adotaram políticas de austeridade intransigentes. Em cada um desses casos o desemprego aumentou, porque os cortes nos gastos do governo atingiram principalmente produtores domésticos. E, em cada um desses casos, a redução dos deficits orçamentários foi muito menor que o previsto, porque a receita fiscal caiu na medida em que a produção e o desemprego desabaram.
Agora, para sermos justos, ser político de carreira não constitui necessariamente uma preparação melhor para administrar a política econômica que ter sido um empresário. Mas é Romney quem está afirmando que sua carreira anterior o torna adequado para a Presidência.
Tradução de CLARA ALLAIN
“Republicano Mitt Romney enriqueceu enquanto ajudou a destruir a classe média estadunidense” – Paul Krugman
8 janRomney, Obama e empregos – Paul Krugman
Folha de S. Paulo de sábado
Romney e pessoas como ele enriqueceram enquanto ajudaram na destruição da classe média americana
A recuperação da América da recessão vem sendo tão lenta que nem parece uma recuperação. Assim, em um mundo melhor, o presidente Barack Obama enfrentaria um concorrente que proporia uma crítica séria de suas políticas de geração de empregos. Em vez disso, é quase certo que Obama enfrente Mitt Romney.
Romney alega que Obama vem sendo um destruidor de empregos, enquanto ele teria sido um empresário que os criou. Disse à Fox News: “[Obama] perdeu 2 milhões de empregos, mais que qualquer outro presidente desde Hoover”. E declarou sobre seu período trabalhando na firma de participações acionárias Bain Capital: “Ajudamos a gerar mais de 100 mil empregos”.
É verdade que hoje há 1,9 milhão de americanos empregados a menos que os que havia na posse de Obama. Mas o presidente herdou uma economia em queda livre; não pode ser culpado por perdas de empregos nos seus primeiros meses de governo, em 2009, antes de suas próprias políticas terem tido efeito.
Entre janeiro e junho de 2009, a economia americana perdeu 3,1 milhão de empregos; desde então, ganhou 1,2 milhão. Não é o suficiente, mas não tem a menor relação com o retrato traçado pelo republicano.
O que Romney alega sobre Obama não é literalmente falso, mas induz ao engano. Mas mais surpreendente é a alegação de ter criado 100 mil empregos. De onde ela vem?
Segundo a campanha de Romney, é a soma dos empregos ganhos em três empresas que ele “ajudou a fundar ou fazer crescer”: Staples, The Sports Authority e Domino’s.
O “Washington Post” chamou a atenção para dois problemas: a contagem é baseada em “cifras atuais, não do período em que Romney trabalhou na Bain”, e “não inclui perdas de empregos em outras companhias com que a Bain esteve envolvida”. Qualquer desses problemas já invalida a alegação inteira.
De todo modo, não faz sentido olhar mudanças na força de trabalho de uma empresa e achar que servem para medir a geração de empregos na América como um todo.
Suponhamos, por exemplo, que sua rede de papelarias eleva a sua fatia no mercado, às expensas de redes rivais. Você passa a empregar mais pessoas, enquanto a concorrência emprega menos. Qual é o efeito final sobre o emprego?
Melhor: suponhamos que sua empresa tenha crescido em parte não por superar a concorrência, mas, sim, por adquirir as rivais. Agora, os empregados dessas empresas são seus. Você gerou empregos?
Pode-se indagar se não é igualmente incorreto dizer que Romney destruiu empregos. Sim, é. A queixa real é que destruiu empregos bons.
Quando a poeira assentou após o “downsizing” nas empresas que a Bain reestruturou -ou depois de essas companhias terem falido-, o número total de empregados nos EUA era mais ou menos igual ao que teria sido de qualquer maneira. Mas os empregos perdidos pagavam mais, com benefícios melhores.
Romney e pessoas como ele não destruíram empregos, mas enriqueceram enquanto ajudaram a destruir a classe média americana. E é essa realidade que se pretende obscurecer com todo o papo furado sobre empresários geradores e democratas destruidores de empregos.
Tradução de CLARA ALLAIN

















