Eleições, Gazeta do Povo e o “Diagrama de Nolan”

18 ago

Hoje fiquei assustado. O jornal Gazeta do Povo, no seu CandiBook, divulga o teste “Diagrama de Nolan” com os candidatos a prefeito e vereador em algumas cidades do Paraná. Você até pode fazer o teste também.

Mas o teste tem erros sérios e parece mais um daqueles testes para adolescentes da revista Capricho ou de livros de auto-ajuda de baixo valor científico/técnico.

Basicamente o teste responde se você é centrista, de direita (favorável a alto nível de liberdade econômica, mas não de liberdades individuais, por exemplo, se defende leis anti-drogas e diminuição de impostos), de esquerda (favorável a restrições na economia, mas defensor de liberdades pessoais, como exemplo a defesa do casamento gay e da obrigatoriedade do salário mínimo), libertário (favorável a liberdade tanto na economia quanto na vida pessoal, como exemplo a defesa de voto facultativo e livre comércio) ou estatista (favorável a intervenção governamental tanto na economia quanto na vida pessoal, como por exemplo defesa de alistamento militar obrigatório e do estado empresário).

São as seguintes perguntas sobre liberdades civis:

  • O governo deve regular a imprensa e a internet.
  • O alistamento militar deve ser obrigatório.
  • Deve ser feita uma seleção dos estrangeiros que desejarem morar no Brasil.
  • A produção, comercialização e uso de drogas devem ser combatidos.
  • A discriminação deve ser considerada um crime.

Se você responder sim para a maioria você pode ser estatista ou pode ser de direita.

Se você responder não para a maioria você pode ser libertário ou de esquerda.

Sobre as seguintes perguntas econômicas:

  • O governo pode cobrar altos impostos se os serviços prestados forem adequados.
  • Deve haver salário mínimo determinado pelo governo.
  • O governo deve resgatar empresas em dificuldade financeira.
  • O governo deve criar agências para regular o setor privado.
  • O governo deve usar os impostos para fazer distribuição de renda.

Se você responder sim para a maioria, você pode ser considerado de esquerda ou estatista.

Se você responder não para a maioria você pode ser de direita ou libertário.

Não concordo com as perguntas. São muito simplistas e os critérios rotulantes.

Exemplo: um cidadão pode defender a liberdade da internet mas a regulação da TV e rádio, por serem serviços públicos, e mesmo assim ser considerado de esquerda. Esquerda não quer dizer, necessariamente, anarquista. A mesma coisa para o serviços militar obrigatório.

Juntar produção/comercialização com uso de drogas é um erro. Uma pessoa pode ser a favor da descriminalização das drogas, mas não ser favorável ao uso.

E achar que uma pessoa de esquerda não pode defender a criminalização da discriminação é um absurdo.

Sobre as questões econômicas, outros desvios.

A esquerda defende os impostos, o salário mínimo e a distribuição de renda.

Mas é um equívoco dizer que a esquerda defende que o Estado deva resgatar empresas com dificuldades financeiras e que o governo crie agências reguladoras.

A esquerda até poderia defender que grandes empresas com dificuldades financeiras fossem estatizadas ou mesmo coletivizadas (por exemplo, por meio de uma cooperativa). Sobre as agências reguladoras, a esquerda pode defender que o Estado regule o mercado, mas de forma alguma que entidades reguladoras sejam independentes do Estado e da política, o que pode fazer com que essas entidades se transformem em defensoras dos interesses do grande capital.

No Brasil essa pesquisa pode fazer com que muitos conservadores de direita sejam considerados “estatistas” ou centristas, quando na verdade são de direita.

Vejam o resultados dos nossos candidatos a prefeito de Curitiba:

  • Alzimara PPL: Estatista
  • Avanilson PSTU: Esquerda
  • Bruno Meirinho PSOL: Estatista
  • Carlos Moraes PRTB: não avaliado
  • Gustavo Fruet PDT: Centrista
  • Luciano Ducci PSB: Estatista
  • Rafael Greca PMDB: Centrista
  • Ratinho Junior PSC: Centrista

Para Nolan, temos apenas um candidato de esquerda, o que é uma besteira. Alzimara e Bruno Meirinho também são de esquerda.

Para Nolan, Luciano Ducci é estatista, o que é um erro crasso, pois ele é de centro-direita e privatizador.

Para Nolan, Rafael Greca é centrista, quando várias de suas propostas anti-privatização podem colocá-lo como uma candidatura de centro-esquerda.

No caso dos vereadores há ainda mais distorções, com candidatos claramente de esquerda sendo considerados de centro, e outros de direita sendo considerados estatistas.

Mas o pior de tudo é que quando é dado o resultado, são recomendados livros e vídeos da direita conservadora, como vídeos contrários ao salário mínimo e livros de Ron Paul (político estadunidense do conservador partido republicano) e a “bíblia” do neoliberalismo, “O Caminho da Servidão” de Friedrich Hayek

Para mim deu “estatista”.

Tarso Cabral Violin – Editor do Blog do Tarso

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9 Respostas para “Eleições, Gazeta do Povo e o “Diagrama de Nolan””

  1. Frederico Neto 18/08/2012 às 20:04 #

    A única crítica que se pode fazer ao diagrama de Nolan se refere a abordagem que está fora de contexto, principalmente do contexto de Curitiba e do Brasil. Mas ele evidencia bem um velho problema da dita esquerda local – o discurso de esquerda e práticas e propostas de centro.

  2. flaviomorgen 18/08/2012 às 22:55 #

    Dá até para aceitar algumas críticas dos modelos e das respostas.

    No entanto, a análise peca BEM mais do que o próprio Diagrama de Nolan “resumido” a poucas perguntas. Quer dizer que alguns privatizam um pouco, mas não muito, então não podem ser considerados centristas? O PSDB então seria direitista? O PT, que também privatizou, é de direita?

    Aliás, ambos os partidos criaram programas sociais e privatizaram. Um é conhecido APENAS por uma coisa, o outro APENAS por outra. Um é “neoliberal” (como se privatizar 2 companhias falidas sem diminuir impostos e sem enxugar a máquina pública fizesse um pingo de diferença na liberdade econômica), o outro… bem, é o que é.

    Ainda mais curioso que seu próprio resultado confirma que, mesmo essas poucas perguntas ainda conseguem fazer alguém cair de cara com a verdade no Diagrama.

    Mas não foi a única “confissão” apresentada quase à força. Eu sei perfeitamente que alguém é esquerdista ou estatista quando usa expressões como “grande capital” ou “neoliberalismo”, e ainda achando que Ron Paul é um conservador, e não o maior exemplo de político libertário existente hoje (aliás, alguém de esquerda sabe o que é ser libertário? parece que, se soubessem, deixariam de ser de esquerda no ato).

    Pior ainda afirmar que Hayek escreveu “a bíblia” do neoliberalismo. Quanta pesquisa sobre liberalismo (ou “neoliberalismo”, expressão que usam de forma depreciativa e completamente vazia de conteúdo) conhecem?

    Tem uma forma bem mais fácil de atingir melhores resultados com o Diagrama de Nolan. Basta perguntar: “Você estudou a economia liberal, suas escolas, seus maiores pensadores, de Smith a Hermann-Hoppe, de Mises a Thomas Sowell?”

    Afinal, só existem dois tipos de pessoas: as que conhecem liberalismo e aquelas que o atacam com bordões vazios. Como demonstra este artigo.

  3. Ademir G. Jr 20/08/2012 às 11:35 #

    Tarso,

    O interessante da pesquisa é justamente mostrar que o que muitas pessoas chamam de esquerda é na verdade estatismo ou centrismo. E o mesmo vale para a “direita”. Talvez a sua decepção seja justamente acreditar que o “bom” é ser de esquerda, e descobrir que o que você defende é o mesmo que o PSDB, que é a “terceira via”, que é o centristmo, ou o que o resto dos partidos, inclusive os de “direita” defendem, mas com outra roupagem ou discurso.
    Para finalizar, o Ron Paul e o Friedrich Hayek não são e nunca foram “direita conservadora”, muito pelo contrário. Colocar liberais como “direita conservadora” mostra que faltou estudar um pouco o que propõe o diagrama de Nolan, que é justamente sair dessa divisão “esquerda-direita”. Sugiro ver este video ( http://www.youtube.com/watch?v=lL83WewagiM ) do Ron Paul onde ele defende a o casamento gay, a liberação da prostituição e a liberação das drogas. Este é o pensamento de um “conservador de direita”?

    • Tarso Cabral Violin 20/08/2012 às 12:19 #

      Quem acredita que não há esquerda e direita é de direita. Ron Paul e o Friedrich Hayek são neoliberais que acreditam apenas no individualismo e do cada um por si. Há a esquerda anárquica e a esquerda estatista.

      • Ivanildo Terceiro 20/08/2012 às 12:54 #

        Tarso, você sabe a diferença entre liberalismo clássico e neoliberalismo?

      • Ademir G. Jr 20/08/2012 às 13:36 #

        Tarso,

        Vamos por partes: Onde eu disse que não existe esquerda e direita? Disse que não é só isso que existe. Existem mais muitos tons de cinza entre o preto e o branco, não?
        Então, na sua visão, uma pessoa que, pelo respeito ao individuo, é a favor da liberação das drogas e do casamento gay está no mesmo aspecto politico de uma pessoa que defende a proibição total das drogas e que o casamento é uma instituição “sagrada” que só pode existir entre um homem e uma mulher? Os dois são “conservadores de direita”?
        E se podemos dividir a esquerda entre anárquica e estatista, não podemos dividir a direita também?
        Sugiro que você leia mais um pouco da sobras de autores “neoliberais” como o Hayek ou o Milton Friedman. Este senhor neoliberal que só acredita no “cada um por si” propôs o imposto de renda negativo (negative income tax) nos anos 60, que nada mais é o que conhecemos aqui como bolsa-família.
        Não é interessante que quando saímos do lugar comum das palavras de ordem da esquerda nós podemos aprender mais sobre o universo da politica e economia?

        Grato pela atenção e tenha uma boa semana.

  4. Lincoln 22/08/2012 às 12:36 #

    Tarso, tudo bem?
    Eu acho que o diagrama tem alguns problemas. De pronto, deve-se ressaltar que, tanto o seu idealizador, como os responsáveis pela tradução/adaptação para o Brasil, têm um perfil libertário e isso pode influenciar a colocação das questões e, via de consequência, os resultados produzidos. Por outro lado, ele abdica da divisão simplista entre “esquerda” e “direita” – que, obviamente (com o perdão do truísmo), são visões políticas (e de mundo), que existem. Existem bons textos, analisando o diagrama e apontando pontos positivos e negativos.
    Mas, acho que a sua análise peca num aspecto: ela parte de uma visão (sua) pré-concebida e não claramente exposta do que é esquerda e direita. É difícil dar contornos aos dois conceitos e, sendo assim, acho que é justamente nesse ponto que o diagrama acerta.
    Claro que, estou falando de uma posição confortável, pois o meu resultado foi “Esquerda”, 90% favorável à liberdade individual e 20% favorável à liberdade econômica. Descobri, com o teste, que estou mais a esquerada que os candidatos do PSOL e PSTU, por exemplo …
    É isso aí!
    Abraço,

  5. Walte 25/09/2012 às 12:19 #

    Entendo as críticas ao formato do diagrama de Nolan. Será que seria melhor no caso de Prefeitos utilizar o Plano de Governo como fundamento ao diagrama.

  6. ANARCO 19/01/2013 às 20:02 #

    SEM DEUS, SEM PATRÃO!!

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